domingo, maio 06, 2007

Um Novo Rumo

A capitão permanece em silêncio, os seus olhos penetrantes fixam-se ora em mim, ora no cofre e no diário que resgatei do navio afundado e que comprovam a história que acabei de contar. A tripulação mantém-se também em silêncio esperando para ver a reacção da sua comandante e tentando adivinhar qual o destino que me estará reservado.
- Dizes-me então que este cofre é para ser usado como moeda de troca para descobrir quem de facto governa Briseida. - diz ela num tom de voz incrédulo. - Dizes-me que para o encontrares tiveste que tomar uma poção que te deu capacidades extraordinárias, como respirar debaixo de água e nadar como uma verdadeira criatura marinha. - continua. - Afirmas que este objecto estava na posse de um grupo de vampiras do mar que te atraíram para o seu covil com o intuito de te matar, mas que por intervenção divina ou por auxílio de uma entidade, a tua espada, a Lua Dançante, que te foi dada por uma mulher, de nome Elianne, pertencente a uma antiga e poderosa raça, te salvou da morte certa e que de alguma forma te lançou para a superfície. - a capitão faz uma pausa estratégica lançando o seu olhar em torno da sua tripulação. - Diz-me, estranho, por acaso achas que eu tenho escrito na testa a palavra idiota? Achaste de facto que eu iria acreditar nessa história tão mirambulante?
- É a verdade!! - respondo com serenidade.
- Ah! "É a verdade!!", diz ele! - exclama esboçando um grande sorriso levando toda a tripulação a soltar uma valente gargalhada. - Estes teus dias em alto mar a apanhar este Sol forte fritaram-te os miolos, estranho. Daqui a pouco ainda me vais dizer que já jantaste com o próprio Neptuno.
- Por acaso... - respondo com um ligeiro sorriso.
- Bah! Ou és louco, ou és um mentiroso. E eu não creio que sejas louco, o teu olhar é demasiado firme para padeceres de alguma insanidade, por isso acho que és um mentiroso. - diz ela levantando-se e aproximando-se de mim. - E sabes o que fazemos aos mentirosos? Lançamo-los borda fora com uns cortes profundos para servirem de repasto aos tubarões. - ao dizer isto a tripulação anima-se e agita as suas armas no ar. - Meus senhores, meus senhores, por favor tenham calma, sejamos, por enquanto, civilizados. - diz ela com um sorriso caminhando em meu redor.
- Não sou louco, nem mentiroso. Disse-te a verdade, tens aí o cofre e o diário que confirmam a minha história.
- Sim, é verdade, mas o cofre está vazio e o diário está ilegível.
- Impossível! Mentes, só podes!
- Como te atreves! - grita ela esbofeteando-me. - É melhor controlares as tuas palavras, estranho, chamar mentirosa a quem tem a tua vida nas mãos não é uma atitude muito sensata. Seja como for parece que a Fortuna te sorri. Hoje estou bem disposta e decidi que não te vou mandar borda fora. Vais viajar connosco até Terno, onde serás vendido como escravo.
- És traficante de escravos? - pergunto surpreso.
- Sou. - responde ela com um sorriso. - E tenho a certeza que me vais fazer ganhar bom dinheiro. Talvez alguma tipa da nobreza te compre para satisfazeres a sua luxúria, ou quem sabe ainda acabas na arena, visto que tens um porte de combatente.
- Mas não me podes fazer isso, eu sou um cidadão da República!
- República!? Pelos Deuses, estranho, o Sol afectou-te mesmo os miolos. - diz ela rindo juntamente com toda a tripulação. - A República já não existe, vivemos numa nova Era, a Era Imperial e é bom que te adaptes a ela.
- N-não pode ser, eu...
- Não te lamentes tanto, todas as coisas têm um fim e verdade seja dita, a República já estava moribunda... Bom, isso também não interessa, não vou discutir política com carga. Está na hora de conheceres o teu novo quarto e os teus novos companheiros. Homens! - com um estalar dos dedos a capitão ordena que dois marinheiros me levem para junto dos restantes escravos. - Ah! só mais uma coisa. Tu agora és meu, por isso é bom que me obedeças sempre, pois eu posso deixar de ser tão simpática e ser obrigada a estragar a tua qualidade. - dizendo isto vira-me as costas e sou levado para baixo.

sexta-feira, abril 27, 2007

1º Aniversário


Como os meses passam tão depressa e como mudamos tanto em apenas tão pouco tempo. Faz hoje, dia 27 de Abril, um ano que o Knight's Tale "acordou" para o Mundo. Tudo começou no blog do MSN e, para não variar, por causa de uma rapariga, de uma hechicera que me deu a volta à cabeça e que descarregou em mim uma inspiração tal que a posso comparar quase a uma das antigas Musas da Grécia Antiga. No entanto o Destino por vezes prega-nos partidas e fui forçado a abandonar o meu adorado cantinho e mudar-me para aqui, para a blogosfera, deixando para trás bons momentos e principalmente a minha adorada Musa.
Como se costuma dizer, há males que vêm por bem, e esta minha mudança fez-me crescer ainda mais como escritor e levou-me a conhecer novos Mundos e novas pessoas, tais como a Sutra, a Lia e a sempre eterna Elianne.
Embora tente sempre manter uma certa distância entre a minha pessoa e a personagem do Cavaleiro, a verdade é que há alturas em que isso é praticamente impossível. Sentimentos, emoções, atitudes e expressões são muitas vezes reproduzidas pela própria personagem e muitos dos seus companheiros são baseados em pessoas reais. Isto leva, como no caso da Elianne, a tornar a escrita e a acção mais intensa e emotiva, dependendo do estado de espírito.
O mais incrível é que certas personagens parecem ter ganho vida própria, como por ex a Lara, e passam a ocupar um espaço de destaque na trama remetendo a personagem principal, o Cavaleiro, para 2º plano.
Tudo muda e eu também mudei, a minha saúde piorou e agora, volvido um ano, já não sou o mesmo. Custou-me imenso estar afastado deste blog durante um mês, mas agora que estou de volta quero dar uma nova vida a esta história.
Espero que me acompanhem por mais um ano neste fantástico universo do Knight's Tale.
Obrigado a todos,
Cavaleiro

domingo, abril 01, 2007

Nota



Engraçado como uma simples página da net se pode tornar num pequeno paraíso privado, num Mundo alternativo, onde a fantasia e a ilusão se tornam por momentos numa incrível realidade. Tem-me custado imenso não poder colocar aqui as histórias que tanto gosto de escrever, mas a verdade é que a minha saúde, ou falta dela, impede-me... Uma coisa é certa, as histórias do Cavaleiro, da Lara, e de todos os outros, não terminaram, irão apenas permanecer guardadas no meu livrinho preto até recuperar totalmente.

Obrigado a todos os q me lêem,
Cavaleiro

quinta-feira, março 15, 2007

O Cofre (2ª Parte)

Assim que mergulho nas águas quentes e límpidas do Oceano Coralino a poção de Diana começa imediatamente a produzir os seus efeitos. O ar dos meus pulmões é expelido com uma brutalidade inimaginável e todo o meu peito e pescoço parecem inflamar-se causando-me dores indiscritíveis. Espasmos involuntários percorrem o meu corpo e uma agonia tremenda invade as minhas entranhas. O pânico e o medo abatem-se sobre mim, tudo à minha volta torna-se turvo e negro e a água penetra rapidamente pelas minhas narinas e pela minha boca sufocando-me e quase me levando a perder os sentidos. Mas depois, de repente, todo este tormento termina abruptamente e dou por mim a flutuar tão naturalmente como um peixe e a respirar tão casualmente como se estivesse na superfície. Suspiro de alívio e sorrio, a poção funcionou e tal como a Diana disse, posso nadar e respirar como uma criatura aquática, é pena que não me tenha avisado sobre o custo de tal transformação.
Com renovada confiança retiro do bolso o mapa amarelado tratado com resina e traço a minha rota, ao que parece esta irá levar-me até um veleiro, que segundo as lendas, se perdeu e se afundou no meio de uma terrível tempestade. O nome dessa embarcação perdeu-se no tempo, mas o seu conteúdo, ao que parece, ainda permanece enterrado no meio dos destroços. Volto a dobrar o mapa com cuidado e guardo-o no bolso, pela minha mente salpicam imagens de ferozes lutas corpo a corpo em pleno alto mar, de romances impossíveis e de tesouros e cargas tão extraordinárias e exóticas que deixariam um Jinni de boca aberta. Afasto estas imagens do meu pensamento e concentro-me apenas no que realmente interessa, encontrar o cofre e através dele encontrar as respostas que procuro.

Os mares do Sul são ainda mais belos do que eu imaginava: as suas profundezas estão cobertas por uma camada de fina e macia areia branca repleta de pedrinhas e conchas de várias formas e feitios; cardumes de peixes coloridos nadam tranquilamente ao sabor das correntes realizando coreografias complexas e extraordinárias como se dançassem ao som de uma música fantasma; as algas, verdes, vermelhas e azuis, presas às rochas, ondulam suavemente, indiferentes ao que se passa em seu redor; e por fim, os corais, O Grande Recífe, como lhe chamam os locais, aparece vindo do nada explodindo de cor e vida diante dos meus olhos.
Deixo-me ficar por longos minutos a observar todo este espectáculo, toda esta paisagem aquática de rara beleza, até que por fim, ciente da minha missão, viro a minha atenção para o mapa e procuro no horizonte um vestígio do navio. Sorrio ao ver um enorme pedaço de madeira, provavelmente um mastro, bem perto do local onde o mapa e as lendas assinalam o trágico naufrágio. Alguns metros adiante encontro finalmente o navio, aparentemente bem conservado, mas com grandes rombos no casco.
Entro no navio através do porão e após uma cuidadosa pesquisa deduzo que o cofre não se encontra ali. Tenho pena de deixar vários baús e barris selados para trás, mas a madeira está podre e qualquer impacto pode transformar este pacato navio num túmulo aquático. Não me resta outra alternativa senão explorar o camarote do capitão e tentar a minha sorte.

O camarote parecia ter sido muito bonito, mas agora está completamente arruinado, toda a divisão está repleta de musgo e de pequenos animais que se afastam rapidamente quando me aproximo, no entanto, algo me chama a atenção, os livros e os mapas estão em perfeito estado de conservação, ao que parece o capitão devia ser um experiente lobo do mar e tomou o cuidado de revestir todos os papéis e tomos com uma resina especial que os protege da água. Curioso, dou uma vista de olhos aos mapas, mas sendo o meu conhecimento náutico e de matemática, limitado ou quase nulo, rapidamente os coloco de lado. Viro, então, a minha atenção para os livros, mas cedo descubro que a maioria deles se trata de romances e/ou livros técnicos, o que me deixa ainda mais desapontado, no entanto, encontro no meio da confusão o diário do capitão, o que pode vir a ser bastante valioso, por isso decido levá-lo comigo. No entanto, não encontro sinais do cofre e começo a pensar que toda a minha busca irá terminar num autêntico fracasso.
Abandono o navio bastante desapontado. Sem pistas para me guiar, parece que terei de regressar de mãos vazias.
- Que procuras tu? - pergunta uma voz no interior da minha cabeça. Espantado olho em volta e observo por debaixo de mim algo, ou alguém, com uma forma difusa que se aproxima. Tento falar, mas descubro que perdi tal capacidade. - Não te esforces a tentar falar, criatura da superfície, faz como eu, usa a tua mente. - A forma com voz doce vai-se tornando cada vez mais distinta até tomar a forma de uma bela mulher de longos cabelos verdes, pele azulada e uns olhos negros muitos profundos.
- Quem és? - pergunto.
- Alguém com vontade de saber o que fazes aqui em baixo, criatura da superfície.
- Procuro um objecto.
- Que tipo de objecto, criatura da superfície? - a voz da rapariga torna-se tão doce que deixo escapar um sorriso.
- Um cofre, estava dentro daquele barco. - respondo com a sensação que devo confiar nela.
- Hm, um cofre? Acho que sei do que falas, criatura da superfície. - a rapariga sorri. - Sou eu que o tenho, anda, vem comigo, eu levo-te até ele.
Sem conseguir evitar acedo ao seu pedido e sigo-a.

quarta-feira, março 07, 2007

Interlúdio 2

Está a nevar, está outra vez a nevar... Lá fora os meus homens lutam desesperadamente para se manter quentes, para manter viva a chama não só do calor, mas também da esperança. Mas eu consigo ver o medo no seu olhar, o receio e a incerteza nos seus rostos amargurados, e no entanto, cada vez que passo por eles, sorriem-me, sorriem-me como se todas estas provações por que passaram fossem apenas um sonho, um pesadelo...
Estou tão cansada, cansada de toda esta Guerra, de todo este sofrimento, de todo este tormento diário. Batalha após batalha, derrota após derrota, é como se o nosso inimigo conhecesse todos os nossos passos, todas as nossas manobras. Estaria aquela mulher certa? Estará o auto-proclamado Imperador na posse do Olho? Se assim for então de que serve lutar? O nosso destino está traçado e a nossa derrota iminente... Não! Ela só pode estar a mentir! Sim, só pode. Afinal de contas não é isso que se espera de uma cobarde, de alguém que abandona aquele aparentemente ama por um capricho, por egoísmo? Mas se ela é cobarde então eu também o sou... Afinal de contas não o abandonei também? Sim, mas se o fiz foi por amor, por o amar mais do que a própria vida. Fi-lo para o salvar... E no entanto ele não percebeu isso. Teria eu entendido se estivesse no seu lugar? Não, penso que não... Oh, Cav, fazes-me tanta falta, seria tudo bem mais simples se estivesses aqui ao meu lado. Mas tu não estás, mudaste, continuaste a tua vida sem mim e acabaste por me "enterrar" definitivamente.
Culpo a Lilian de cobardia e egoísmo, mas ela está neste momento no encalço dele, preparada para se redimir do seu deslize, do seu pequeno momento de fraqueza, ao passo que eu me mantenho aqui, neste acampamento esquecido pelos Deuses à espera de uma morte certa, à espera de algo que nem eu mesma sei... Deverei eu largar tudo e fazer o mesmo? Seria muito parva se o fizesse, ele deixou bem claro que não me quer ver, que quer distância. Mas a verdade é que eu preciso dele, preciso de saber mais sobre o tal Olho e sobre o homem que agora se senta no antigo Senado de Nova Roma. Preciso de engolir o orgulho, de morder a língua se for preciso, a vida dos meus homens está em risco e eu não me posso dar ao luxo de jogar com isso por uma mera questão sentimental. Mas se ao menos soubesse onde ele está, por onde anda... Espera! Ela deixou-me uma carta antes de partir, um papel em branco que apenas revelaria o seu conteúdo quando eu estivesse preparada. Estarei eu preparada agora?

Num frenesim a elfo procura na secretária e nas estantes pela folha de papel em branco oferecida por Lilian, mas acaba por a encontrar no cesto dos papéis misturada com o resto do lixo.
- Pelos Deuses, num acesso de fúria atirei-a para o lixo, pensei que aquela mulher estivesse a fazer pouco de mim. - diz ela abrindo cuidadosamente o papel amachucado. No entanto, ao contrário das sua espectativas, a folha permanece em branco. - Como sou parva e estúpida, aquela rapariga estava mesmo a fazer pouco de mim, não há nada escrito nesta folha, e no entanto eu sei o que quero, eu quero saber onde está o Cav!!! - Ao dizer estas palavras a folha branca amarelece instantaneamente, uma tinta negra começa a aparecer lentamente formando apenas uma palavra, um nome escrito numa caligrafia perfeita e floreada, BRISEIDA. - Por Liane e Lisandra, ela estava a dizer a verdade!!! MARCOS!!!! - chama Eleanora excitada.
- Sim, minha senhora? - na tenda entra imediatamente um homem de estatura média, quarenta e poucos anos, cabelo grisalho e com uma profunda cicatriz no olho esquerdo.
- Manda os homens levantar o acampamento, partimos imediatamente.
- Mas só aqui estamos há dois dias, será que...
- Não discutas as minhas ordens, faz o que te digo e já!!
- Sim, minha senhora. Posso ao menos saber para onde vamos?
- Sim. - diz a elfo com um sorriso. - Vamos para o Sul, para Briseida.

sexta-feira, março 02, 2007

O Cofre (1ª Parte)

Perto do Porto das Nereidas existe uma pequena baía, é um local tranquilo e isolado, apenas frequentado por casais de namorados e amantes. Reza a lenda que a própria Vénus abençoou este lugar, pois foi aqui que Aquileia e Éwon se encontraram pela primeira vez e, ironicamente, onde soltaram o seu último suspiro. Desde então a plácida angra tomou o nome de, Enseada dos Amantes.
- Então esta é que é a famosa praia onde Éwon e Aquileia trocaram o seu primeiro beijo? - pergunta Lara um pouco desapontada. - Que pena, pela história pensei que tivesse melhor aspecto.
- E achas que não tem? - responde Diana descalçando as sandálias e caminhando lentamente sobre a areia dourada. - Esta enseada é paradisíaca, tudo nela parece simplesmente perfeito. É um lugar verdadeiramente abençoado.
- Aí está outra coisa que não bate certo, feiticeira, eu e o Cav já fomos alvo da "benção" da Deusa do Amor durante a nossa estadia na Atlântida e deixa-me que te diga que aquilo que sentimos e fizemos foi bem intenso. - diz Lara sorrindo e lançando-me um olhar rápido.
- Imagino... Mas não queiras comparar aquilo que se passa numa festa dos Deuses, com um simples encantamento numa pequena praia, é totalmente diferente.
A demónio encolhe os ombros terminando abruptamente aquela conversa.
- Tens a certeza que queres ir para a frente com isto, Cav? - pergunta ela virando-se para mim. - Afinal de contas é bem mais simples dar uma tareia ao velho e ele cospe tudo o que sabe.
- Oh sim, depois daquilo que ele te fez não sei se será assim tão simples, minha diabinha. - respondo-lhe com um sorriso. - Infelizmente não temos outra hipótese, ele é o único que parece conhecer o paradeiro da pessoa que procuramos e pelos vistos, sabe demasiado a meu respeito...
- E além do mais - intromete-se a feiticeira. - passei a noite inteira a preparar esta poção, o Cavaleiro vai, nem que eu tenha de lhe puxar as orelhas!!!!
- Também não é preciso chegar a tanto, Diana, eu vou, eu vou. - respondo afastando-me discretamente dela.
- É assim mesmo, feiticeira, temos que mostrar a estes machos que nós é que somos o sexo forte, nem que para isso tenhamos que lhes incutir essa ideia através da força. - diz Lara rindo.
- Ri-te, ri-te, que daqui a pouco eu mostro-te qual de nós é que é o sexo forte.
- Ui, parece que o menino ficou todo chateado comigo. O que se passa, Cav, toquei nalgum ponto fraco, foi? - continua ela picando cada vez mais.
- Oh, vá lá, deixem-se disso. - interrompe Diana. - Temos coisas mais importantes para fazer do que discutir qual de vocês é o sexo forte, não acham?
- Tens razão, Diana, como sempre... - respondo.
Lara sorri maliciosamente e afasta-se para a beira de água lançando pedras contra as ondas.
- Bom, eu já te expliquei o que faz esta poção, mas mesmo assim, por via das dúvidas, explico-te outra vez. - inicia a feiticeira retirando da sacola uma pequena garrafa contendo no seu interior um vivo líquido azul-esverdeado. - Esta poção dar-te-á a capacidade de respirares debaixo de água como um peixe, ou seja, vai transformar os teus pulmões em guelras. Não só fará isso como também aumentará os teus reflexos e as tuas capacidades de te movimentares pela água tão naturalmente como qualquer criatura marinha. Mas lembra-te, meu Cavaleiro, e isto é muito importante, a poção tem apenas um senão, no preciso momento em que vieres à superfície o encantamento desfaz-se e todas estas habilidades desaparecem, por isso certifica-te que estás bem perto da costa, ou poderás ficar perdido no mar sem forças para regressar.
- Está bem, mais alguma coisa?
- Não, é tudo, mas não te esqueças do que te disse. - diz ela com um sorriso.
- Ok, nada de vir à superfície até estar bem perto da costa. - repito.
Dispo a camisa e tiro as botas lançando um longo olhar sobre o mar azul que se estende calmamente à minha frente. Prendo atrás das costas a minha nova espada, Lua Dançante, oferecida pela última dos Ploensis, Elianne.
- Toma, vais precisar disto. - Diana entrega-me o mapa amarelado dado pelo velhote no dia anterior. - Foi tratado com uma resina especial, não se irá desfazer na água.
- Obrigado.
- Boa sorte, meu Cavaleiro, que os Deuses te acompanhem. - diz ela dando-me um abraço forte. - Aconteça o que acontecer, quer que saibas que te adoro.
- Eu sei. - respondo beijando-lhe a testa.
- Vê se voltas são e salvo, Cav. - diz a demónio.
- Volto sim, como poderei eu ficar afastado de ti, minha diabinha. - digo afagando-lhe o rosto e contemplando os seus olhos dourados.
- Parvo! - diz ela beijando-me.
E sem olhar para trás mergulho nas águas estranhamente quentes do Oceano Coralino, confiante do sucesso da minha missão.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Um Estranho Encontro (2ª Parte)

Entramos cautelosamente dentro da tenda, os nossos olhos demoram um pouco de tempo a adaptarem-se à escuridão na qual o interior está imerso, mas assim que nos habituamos apercebemo-nos de imediato que acabámos de entrar numa pequena e estranha loja. Em nosso redor e seguindo a circunferência da tenda encontram-se seis estantes de madeira, três de cada lado, cada uma contendo um inúmero repertório de livros, todos etiquetados e bem conservados; no centro, formando um enorme U, estão dispostas várias mesas e expositores recheados com os mais diversos objectos, desde armas, amuletos, anéis, varinhas e pequenas pedras de cores e formas estranhas que parecem brilhar e emitir vibrações quando passamos por elas; mesmo à nossa frente, colocada precisamente na ponta oposta à entrada, encontra-se uma bela secretária de mármore, em cima desta podemos ver vários papéis, um mapa já amarelado, uma lupa, dois livros e um pássaro verde que começa a cantarolar assim que nos vê. No entanto não encontramos rastro do velhote que entrou antes de nós.
- Pelos vistos tinha razão, o velhote só pode ser um feiticeiro, esta tenda parece respirar magia. - diz Diana maravilhada inspeccionando um por um os itens da loja.
- Sim, mas por onde andará ele, tenho a certeza que o vi entrar cá para dentro.
- Ora o que é que isso interessa, Cav, vamos é dar uma vista de olhos pela mercadoria e se alguma coisa nos interessar levamo-la connosco. - diz Lara piscando-me o olho.
- Deves estar a brincar.
- Eu concordo com ela, meu Cavaleiro, aquele velhote tem um poder estranho e usou-o para invadir e deturpar a personalidade da Lara, merece ser punido por isso. - responde a feiticeira calmamente.
- Eu não estou a acreditar nisto, esperava isso da Lara, mas agora de ti, Diana. Serei eu o único a acreditar que é errado roubar?
- Ai, Cav, por vezes és tão certinho que até irritas, não há mal nenhum em roubar, o único inconveniente é ser apanhado. - a demónio esboça um ligeiro sorriso e retira de uma das estantes um livro azul com letras estampadas a ouro. - Ora, ora, parece que o nosso velhote tem bons gostos, Kama Sutra & A Arte Da Sedução Com Uma Pitada de Magia.
- Mas esse livro é raríssimo, tanto quanto sei apenas as sacerdotisas de Ishtar, as prostitutas sagradas, é que têm o previlégio de o ler e estudar. - diz Diana espantada.
- Mas o que é que tem o livro de tão especial, parece-me ser apenas um manual de sexo.
- Apenas um manual de sexo? Pelos Deuses, meu Cavaleiro, este livro foi escrito pela mão da própria Deusa e entregue à primeira das suas sacerdotisas, nele está contido todo o conhecimento de um campo da magia muito particular, a arte da sedução e do prazer. - explica a feiticeira. - O sexo é um dos nossos instintos mais poderosos, ele afecta as nossas escolhas e decisões, por isso, aquele que controlar bem este campo da magia é bem capaz de nos manipular apenas com um sorriso, ou com um olhar, entendes?
- Sim...
- E além do mais este livro vale uma fortuna no mercado negro. - diz Lara sem levantar os olhos do livro.
- Valha o que valer não o vais levar, não seria correcto. - digo arrancando o livro das mãos da demónio e colocando-o no seu lugar.
- Hey, eu estava a ler isso.
- Eu sei, mas fica descansada que não precisas de saber mais, a tua arte já é perfeita. - digo piscando-lhe o olho.
Lara sorri ao ouvir as minhas palavras.
- Tu tens cá uma lábia, mas convenceste-me.
- Sim, esse rapaz é de facto muito especial. - diz uma voz vinda da secretária. Viramo-nos de imediato e lá está o velhote sentado com um ar descontraído observando cada gesto e movimento nosso.
- Mas como, não estava aí quando entrámos, pois não?
- Eu não o vi. - diz Diana.
- Nem eu. - diz Lara.
- Ah, mas por vezes os olhos pregam-nos partidas e apenas vemos aquilo que queremos ver. - diz o velhote com um sorriso. - Estive aqui o tempo todo e ouvi toda a vossa conversa. De facto até achei um pouco desagradável saber que me queriam roubar. - continua ele calmamente lançando um olhar rápido à feiticeira que cora instantaneamente.
- Estavamos apenas a brincar, claro. - diz ela.
- Bom, isso agora não importa, o que interessa é que aqui estão e que me vão ser muito úteis.
- Como assim, "muito úteis", e o que é queres de nós exactamente, velho?
- Calma, demónio, calma, tudo a seu tempo.
- Como sabe que ela é um demónio, quem é você? - pergunto.
- Quem eu sou não interessa e qualquer indivíduo experiente é capaz de reconhecer imediatamente um demónio, a personalidade deles é no minímo única. Mas tu meu rapaz, tu és um caso à parte, um caso muito intrigante.
- Como assim.
- Ora, possuis um encanto peculiar e és portador de uma aura enigmática, certamente que a tua amiga feiticeira também sente isso, afinal já tiveste uma relação muito forte com um elfo e com um anjo, partilhaste a tua alma com um demónio, foste vítima de possessão, tens uma ligação forte com um espírito draconiano, tens a protecção de duas Deusas e... Sim... Uma entidade parece ter-se ligado a ti recentemente... Absolutamente extraordinário!!
- Uma entidade? Que espécie de entidade.
- Não estás à espera que eu te conte tudo pois não? - diz o velhote com um sorriso. - Faz-me um favor e eu dou-te as informações de que precisas, inclusivé a localização da pessoa que procuras actualmente.
- Como sei que não me estás a mentir?
- Não sabes, terás que confiar em mim.
Olho para a Lara e Diana que acenam afirmativamente incitando-me a confiar.
- Muito bem, o que é que precisamos de fazer?
- É simples, perdi um objecto no mar a cerca de 15km do Porto das Nereidas, um pequeno cofre contendo algo de grande valor para mim, a tua missão é resgatar esse cofre e trazê-lo incólume. Aceitas?
- Pelo que parece é bastante poderoso, porque é que não o resgata você?
- É embaraçoso, mas não gosto muito de água.
- Muito bem, mas...
- Ah, óptimo, tens aqui o mapa da sua localização e estes dois livros que poderão ser bastante úteis: História da Marinha de Briseida: Lendas e Mitos e Mundo Aquático: Recifes de Coral. - e sem dizer mais nada conduz-nos para fora da sua tenda.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Um Estranho Encontro (1ª Parte)

Os pregões dos vendedores e os aromas das iguarias e especiarias exóticas enchem o ar da bela Praça do Sol, as tendas de pano de cores garridas, as bancadas repletas de objectos raros e misteriosos e sobretudo a aparência peculiar e insinuante dos comerciantes, atraiem os transeuntes que passeiam pelas estreitas, apinhadas e improvisadas "ruas" da praça. Lara, Diana e eu não somos excepção e como tantos outros deixamo-nos levar pelas palavras doces e os sorrisos sedutores dos logistas, as suas mercadorias extraordinárias e únicas levam-nos a soltar involuntarimamente exclamações simples de "Oh!" e "Ah!" que vão deixando os seus donos confiantemente deliciados na perspectiva de obterem um belo lucro.
- Oh, vá lá, meu Cavaleiro, não faças essa cara, até parece que não gostas de fazer compras connosco, até nos temos estado a divertir. - diz Diana com um sorriso sedutor.
- Não é que eu não me esteja a divertir, mas porque é que tenho que ser eu a carregar com isto tudo?
- Ora, porque tu és humano e macho, logo tens boas qualidades para servir de mula. - diz Lara piscando o olho à feiticeira.
- Tens imensa piada, Lara, se continuas com gracinhas dessas serei forçado a dar finalmente um bom uso a esses teus corninhos.
- Ui, adoro quando me ameaças, humano. - diz a demónio num tom doce. - Infelizmente sei que vais ficar apenas por aí, pela ameaça.
- Ai sim?
- Sim...
- Diana, importas-te de segurar os sacos por um momento?
- Mas... - antes de ter tempo de ripostar já os sacos estão na sua mão e eu e Lara saindo do alcance da sua vista correndo um atrás do outro. - Incrível, por vezes comportam-se como autênticos miúdos. - comenta ela abanando a cabeça e esboçando um pequeno sorriso.

Persigo a demónio por entre as improvisadas ruas apinhadas de gente, a sua agilidade superior permite-lhe desviar-se dos objectos e das pessoas, mas a sua imensa arrogância e confiança deturpam-lhe os sentidos e por ironia do Destino, ou talvez não, acaba por esbarrar contra um homem de baixa estatura que se encontrava sentado numa cadeira de baloiço saboreando o seu cachimbo de pau de cerejeira.
- O que...? - pergunta a demónio levantando-se e sacudindo o pó da sua capa olhando em volta para tentar perceber o que lhe aconteceu.
- Então, Lara, parece que estás a perder alguns atributos para nem te conseguires desviar do pobre homem. - digo com um sorriso de triunfo nos lábios ajudando o velhote a pôr-se de pé. - Será que estás a ficar velha?
- Velha, eu!? - exclama ela num grito quase inumano. - Como te atreves, seu humano imprestável!!! A culpa foi deste velho, desta coisinha pequenina que se meteu à frente!!
- Lamento, mas eu estava muito bem aqui sentado a fumar o meu cachimbo quando a menina chocou contra mim. - responde o velhote indignado limpando o pó ao seu casaco.
- Ouve lá, abortozinho, é bom que estejas calado ou isto ainda vai sobrar para ti. - diz a demónio num tom ríspido e intimidante.
- Lara, vê lá se te acalmas.
Ela olha para mim e os seus olhos dourados trespassam-me como uma flecha incandescente, mesmo com o seu rosto oculto pelo capuz consigo sentir a fúria e a intensidade do seu olhar.
- O jovem tem razão, é melhor acalmar-se e pedir-me desculpa, está a ser muito mal educada. - diz o velhote num tom calmo colocando a sua mão sobre o joelho da demónio. Esta vira-se para lhe responder.
- Eu... tem razão. Peço-lhe desculpa pelo incómodo que lhe causei, e a ti também, Cav. - diz ela num tom bastante sereno.
- O QUÊ!!! - exclamo surpreso. - O que é que disseste?
- Peço-te desculpa, Cav.
- Lara, estás bem?
Nesse preciso momento chega Diana com os sacos furando por entre a multidão que entretanto se foi aglomerando à nossa volta.
- Cavaleiro, Lara, o que é que se passa, estão bem?
- Pelos vistos não, acho que a Lara deve ter sofrido algum traumatismo craniano, ela acabou de pedir desculpa.
- A sério? Isso é de facto motivo para estarmos preocupados. - responde Diana não conseguindo esconder um sorriso.
- Hm, sabes rapaz, tu tens mesmo uma aptidão para escolher os teus companheiros, talvez sejas a pessoa que eu tenho andado à procura. - interrompe o velhote.
- Como assim?
- Se calhar é melhor conversarmos dentro da minha tenda, estamos mais à vontade e estaremos a salvo de todos estes olhares indiscretos. - sugere o velhote entrando de seguida.
- Que tipo estranho. - digo.
- E com um poder peculiar. - responde a feiticeira.
- Feiticeiro?
- Não sei, seja o que for consegue disfarça-lo bem.
- Entramos?
- Claro.
- Lara?
- Dói-me a cabeça.
- Considero isso um sim.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O Jantar

Três pratos levitam levemente pelo ar, vindos da cozinha, deixando-se cair suavemente sobre uma mesa de madeira ricamente decorada; atrás deles aparecem, tal como um regimento de infantaria, uma série de talheres de prata que se colocam em perfeita formação junto dos primeiros; por último marcham três copos de cristal conduzidos pelos seus "capitães", dois belos, formosos e raríssimos jarros de diamantina, um com água e outro com uma bebida muito peculiar, preparada especialmente para a ocasião.
Momentos depois aparece Diana transportando uma fumegante e deliciosa travessa de arroz de pato cujo apetitoso aroma se espalha imediatamente por todas as divisões da casa funcionando como um aviso para jantar. Lara e eu não resistimos ao chamamento e guiados por aquele cheiro irresistível sentamo-nos à mesa.
- Vá, meu Cavaleiro, prova e diz-me se está como tu gostas. - diz a feiticeira servindo-me. - Eu sei que tu adoras os meus cozinhados, em especial o meu arrozinho de pato.
- Tenho a certeza que está divinal, Diana. - respondo metendo à boca a primeira garfada. - Hm... Delicioso!
- De facto, feiticeira, tu esmeraste-te, isto está uma maravilha. - diz Lara devorando com voracidade o seu prato. Diana nem lhe responde, observando espantada as maneiras, ou falta delas, com que a demónio consome a sua comida. - O que foi? - pergunta finalmente Lara, farta de sentir a feiticeira a olhar para ela.
- Nada, simplesmente não estava à espera de te ver comer como uma...
- ... Como uma quê?
- Como um autêntico demónio! - responde Diana. - As tuas maneiras à mesa podem ser comparadas a um javali selvagem. Até estou admirada como é que o Cavaleiro nunca te disse nada.
- Isso é porque o Cav está mais interessado em outras qualidades minhas do que propriamente nas minhas maneiras à mesa. - responde a demónio com um sorriso matreiro e piscando-me o olho.
- Imagino... - diz Diana servindo-se e ignorando o tom malicioso de Lara. - O que vamos fazer agora, a nossa busca pelo conhecimento perdido dos Ploensis foi um autêntico fracasso e ao que parece estivemos fora durante um mês.
- Já para não falar que o Deditos desapareceu misteriosamente assim que voltámos. Algo me diz que aquele tipo sabe mais do que nos conta, tenho esse pressentimento.
- A mim não me pareceu um mau rapaz, sim, pode ser inconveniente de vez em quando, mas pareceu-me honesto. Tenho a certeza que esse teu feeling está errado. - opina Diana bebendo um pouco da sua bebida caseira.
- Não sei, Diana, a Lara tem um sexto sentido muito apurado, se ela diz que há algo de errado é melhor acreditares.
- Já nos bastou a encrenca em Unyard, não foi Cav? - diz ela bebendo também um pouco da bebida caseira.
- Oh sim, pensei sinceramente que aquela seria a nossa última aventura, nunca agradeci tanto à Bona Dea o facto de meteres ao bolso aquilo que não te pertence. - respondo com um sorriso.
- E ainda os tenho, os brincos e a gargantilha são para ficar e nunca mais tirar!!! - remata Lara rindo.
- Mas e o que fazemos agora? - pergunta Diana.
- Estou a pensar abandonar Briseida, já não há nada para fazer aqui.
- Como podes dizer uma coisa dessas, ainda não descobrimos quem matou o nosso homem mistério.
- E eu estou mortinha para ajustar contas com essa pessoa, ninguém passa a perna a um demónio e sai vivo para contar!
- Mas no fundo esse é um problema interno, não há ninguém que nos tenha pedido ajuda, nós nem sabemos em que negócios estava aquele homem envolvido, podemos muito bem estar a perseguir gambuzinos. Além disso, não sei se vocês leram o jornal de hoje mas a guerra está a correr muito mal para os republicanos, o auto-proclamado Imperador está na posse do Olho de Osíris, lembram-se? Temos que destruir aquela gema de uma vez por todas!!
- Ora Cav, não inventes desculpas, estás mortinho para sair da cidade por causa da Elianne, não é verdade? Queres deixar para trás tudo o que te lembra dela, não é? - responde Lara exaltada. - Pois deixa-me que te diga, mas estás a ser egoísta, onde está aquele Cav bonzinho que até enjoava, aquele humano sempre preparado para lutar até ao fim por uma boa causa?
- Esse Cav está praticamente morto e enterrado, Lara. Esse humano tem o peito completamente dilacerado, primeiro foi a Ela, depois a Meg, a Lilian e agora a Elianne. Começo a ficar farto do destino que os Deuses criaram para mim, por mais forte que um homem seja há sempre um limite e acho q estou prestes a atingir o meu!!
- Não digas essas coisas, meu Cavaleiro. Eu sei que nestes últimos tempos tens passado por muito, mas por favor, não te deixes morrer, não deixes que o teu coração se encha de ódio ou de auto-piedade. Luta!! Eu estou e estarei sempre aqui ao teu lado. - diz Diana levantando-se e abraçando-me.
- E eu também, humano.
- Vês, tens aqui duas mulheres que nunca te irão abandonar, por isso se quiseres partir, diz e eu faço as minhas malas e parto contigo.
Esbocejo um ligeiro sorriso.
- Sou um sortudo por vos ter ao meu lado, mas vocês têm razão, o nosso trabalho aqui ainda não terminou, vamos encontrar a tal pessoa que parece controlar esta cidade e mostrar-lhe que se meteu com o grupo errado.
- Ora aí está algo que merece um brinde. - diz Diana enchendo os copos. - A uma nova aventura!!
- A UMA NOVA AVENTURA!!! - dizemos em uníssono.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Recomeçar

As ondas investem violentamente contra os rochedos da falésia salpicando-me com a sua espuma branca e espalhando no ar o intenso cheiro a maresia. O Sol de fim de tarde desce no horizonte lançando os seus raios avermelhados sobre as embarcações de pesca que se dirigem para o porto após um longo dia no mar. No céu as gaivotas voam em círculo acompanhando os pescadores e atirando-se de vez em quando para a água para apanhar algumas sobras que estes atiram borda fora.
Observo em silêncio todo este cenário indiferente aos sons distantes de uma cidade fervilhante que o vento teima em transportar consigo. Suspiro e aperto firmemente nas minhas mãos o presente que me foi dado pela última dos Ploensis, uma soberba espada, a espada de Elianne, a Lua Dançante. Desembainho-a e exponho a sua lâmina prateada aos últimos raios de luz que percorrem o horizonte, não consigo deixar de sorrir ao sentir a espada vibrar, ao observar os estranhos caracteres marcados no aço brilharem magicamente. Pequenas gotas de água caiem sobre a lâmina e olho instintivamente para o céu procurando as nuvens de onde caíram, mas o céu está limpo e as gotas não são de chuva, mas sim de lágrimas derramadas por mim.
Choro uma vez mais...

- Não chores, meu doce Cavaleiro, não chores. - diz Elianne afagando o meu rosto e sorrindo para mim.
- Como posso não chorar, minha doce Elianne, trouxe-te do Mundo da Ilusão, daquele teu Castelo nas Nuvens apenas para te ver desaparecer à minha frente sem poder fazer nada. - respondo apertando-a nos meus braços. - Não é justo...
- Eu sei, mas a Vida por vezes é cruel e no momento em que menos esperamos escapa-se-nos por entre os dedos... Perdoa-me, mon cher, teria adorado viver novos sonhos e aventuras ao teu lado.
- Não fales como se tivesse tudo acabado, minha sonhadora, por favor luta, reage!! Deixa-me ajudar-te! - olho em volta desesperado procurando por ajuda. - Diana faz qualquer coisa!!
- Eu... Eu lamento, meu Cavaleiro, mas não posso fazer nada... - responde a feiticeira numa voz baixa.
- Lara, dragão, por favor, ajudem-na!! - as lágrimas brotam com cada vez mais intensidade silenciando quase por completo a minha voz.
- Lamento humano, não há nada que eu possa fazer. - responde Lara.
Beremid nada diz.
- Os teus companheiros não podem fazer nada, este é o preço a pagar por ter tentado manipular energias demasiado poderosas. São elas que neste momento me consomem e cobram o favor que lhes exigi.
- Mas...
- Dizem que a espada é a alma de um guerreiro, não sei se é verdade ou não, mas quero acreditar que sim, por isso entrego-te a minha com todo o meu coração.
- Eu não posso aceitar...
- Por favor, aceita, pois estou a entregar-te simbolicamente toda a minha essência. Adoro-te, meu Cavaleiro, adoro-te! - a guerreira puxa-me para si e beija-me sentidamente, sinto o seu corpo contorcer-se uma última vez e desfazer-se em mil e um pontos de luz verde que se desvanecem no ar.
- Eu também te adoro, Elianne... - respondo.

Embainho a espada e volto a contemplar o pôr-do-Sol enxugando os olhos ainda marejados de lágrimas.
- Nunca te esquecerei, Elianne. - murmuro esboçando um ligeiro sorriso.
- Então estás aqui, meu Cavaleiro, estava preocupada contigo. - diz Diana aparecendo atrás de mim.
- Não precisavas, minha feiticeira, eu estou bem. - respondo virando-me para ela.
- Estiveste a chorar, tens os olhos vermelhos.
- Já passou. - digo. - Sabes, tou com uma fome de lobo, o que fizeste para jantar.
- Tu também? Mas tu e a Lara pensam que lá por ser feiticeira também tenho que ser a cozinheira?
- Vá não sejas assim, diz lá o que fizeste para jantar. - digo com um sorriso abraçando a feiticeira e deixando para trás aquele maravilhoso pôr-do-Sol.

domingo, janeiro 14, 2007

Com Eterna Saudade



As lágrimas teimam em cair pelo meu rosto como um rio inesgotável... Ainda me custa a crer que tenhas partido, minha doce sonhadora, que tenhas abandonado este "paraíso" terrestre e voado com o teu dragão, Beremid, para o teu castelo nas nuvens, aquele construíste na estrela que criaste para mim... Vou sentir tanto a tua falta, falta das nossas conversas, dos teus poemas, do teu sorriso, das tuas adoradas covinhas que teimavam em aparecer quando sorrias, da tua voz, do teu olhar e do nosso chocolate quente...
As lágrimas caiem com maior intensidade e as minhas palavras falham-me... Como romântico que sou acredito que tudo acontece por um motivo e que o nosso "encontro", no Inverno da tua vida, não foi uma simples coincidência. Adoro-te Elianne, adoro-te de verdade, continuarei a sonhar contigo usando a personagem que criei pensando em ti e dando cada vez mais vida à Lara, a demónio que tanto adoravas e que no fundo, e sem eu o saber, é como tu. Afinal, a mulher dos meus sonhos sempre existia...
Deixa as portas do teu castelo bem abertas, pois um dia quando eu partir irei à tua procura. ;)

Um beijo bem terno e eterno, salpicado com a doçura do nosso chocolate quente e acompanhado por um abraço forte e por um singelo, mas sentido, até já!
Sou e serei sempre o teu Cavaleiro!
João

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Despertar

As fumegantes canecas de chocolate quente acabadinho de fazer espalham o seu doce e sedutor aroma por todas as divisões do vasto castelo flutuante. Um fogo lento e pachorrento arde na lareira da principal sala de estar consumindo dois pesados troncos de madeira, a sua luz intermitente e dançante ilumina os impressionantes sofás de pele de veado andorino. Pelos extensos corredores uma luz pálida da tímida Lua brilha sobre o mármore azulado do pavimento e realça de uma forma assustadora as sombras das armaduras que permanecem em sentido, presas à parede, como se estivessem numa formação. O silêncio é apenas quebrado pela brisa do vento que teima em penetrar por uma das janelas semi-abertas de um destes corredores e bater suavemente num dos espanta-espíritos pendurado sobre a porta do quarto privado de Elianne.
Por detrás desta porta três velas iluminam toda a divisão revelando com a sua fraca luz peças de roupa jogadas no chão de qualquer maneira; nas paredes as sombras de dois corpos movendo-se e tornando-se num só tomam dimensões invulgares, os sons e os gemidos por eles expelidos são abafados pelo Tic-Tac constante de um antigo, mas possante, relógio de pêdulo encostado a uma das paredes.
O soar das doze badaladas mascara de certa forma o culminar do reencontro dos dois amantes, os seus corpos fundidos um no outro e os seus lábios entregues a uma dança de desejo e paixão são o espelho de que aquele momento é único e eterno.
- Como é bom que estejas de novo aqui ao pé de mim. - diz Elianne aninhando-se em meus braços e pousando a sua cabeça sobre o meu peito. - Senti tanto a tua falta, meu doce Cavaleiro.
- Mas eu não vou ficar aqui para sempre, minha guerreira misteriosa, em breve terei de partir de novo. - respondo passando a mão pelos seus cabelos encaracolados.
- Eu sei, eu sei. Sinto um peso enorme no coração por saber que em breve me irás deixar outra vez. - diz ela abraçando-me com força.
- Vem comigo, Elianne, vem comigo para Gaia.
- Eu... Eu não posso... Este lugar é a minha casa, aqui sinto-me bem, tenho o meu espaço, o meu silêncio, as minhas coisas... Eu já não pertenço ao teu mundo, faço parte de algo que já se extinguiu há muito tempo...
- Não digas isso, a tua raça desapareceu, mas tu sobreviveste por alguma razão. Está na hora de pôr o passado de lado e regressar.
- Tu não entendes, meu Cavaleiro, tu não entendes pelo que eu passei, pelo que eu tive de fazer. O meu mundo desmoronou-se à minha volta, pedra por pedra, pilar por pilar, tudo ruíu e eu, de certa forma, caí com ele.
- Eu compreendo que tenhas passado por um grande sofrimento, mas fugir não nos leva a lado nenhum, há alturas na nossa vida que temos que enfrentar o destino que os Deuses nos reservaram.
- Fugir? Mas eu nunca fugi de nada, meu guerreiro, eu enfrentei tudo o que havia para enfrentar. Eu... Tu não compreendes, nunca irias compreender...
- Explica-me então, conta-me o que aconteceu.
Elianne olha para mim e uma lágrima escorre-lhe pelo rosto.
- Não posso, não consigo... Perdoa-me. - diz ela levantando-se e vestindo um robe avermelhado.
- Elianne!
A guerreira apenas olha para mim e sai do quarto. Levanto-me de imediato vestindo as calças e abrindo a porta esperando encontrá-la ainda no corredor, mas ela havia desaparecido, apenas o som dos seus passos céleres permanece ecoando através dos corredores vazios. Lembro-me então daquilo que Beremid disse, que nestas alturas ela se refugiava na torre mais alta do castelo, a torre onde trocámos o primeiro beijo, e sem pensar duas vezes corro para lá.

A pesada porta de madeira encontra-se firmemente fechada, encosto o meu ouvido a ela e ouço alguém a soluçar e murmurar palavras.
- Elianne! - chamo em alta voz. - Abre a porta, por favor! - Lá dentro os soluços param e um silêncio enorme toma conta da sala. - Elianne, por favor, abre a porta! - repito. Os meus pedidos ficam sem resposta e da varanda nem um som se escapa.
Sem grande alternativa viro-me para as escadas e preparo-me para voltar para o quarto, mas algo me impede, uma sensação estranha, talvez, ou um pensamento maluco que me passa pela cabeça avisando-me que se me for embora poderei nunca mais a ver. Dominado por esse pressentimento volto a bater de novo à porta e a chamar pelo seu nome, o seu silêncio leva-me a bater com mais força aumentando a vontade de deitar a porta abaixo e descobrir o que se passa, inconscientemente é isso que faço e sem dar-me conta começo a bater com o ombro tentando arrombá-la. A pesada porta vai cedendo e ignorando a dor e o sangue quente que me vai escorrendo pelo braço atinjo o meu objectivo, com uma última e forte pancada ela cede totalmente e abre-se atirando-me com força para o chão gelado da varanda. Levanto-me a grande custo tentando estancar a hemorragia e olhando em volta procurando por ela, Elianne encontra-se no ponto mais afastado, rodeada por estrelas e luzes estranhas.
- Meu Cavaleiro, o que fizeste? - pergunta ela olhando para mim com o rosto encharcado.
- Uma loucura, pelos vistos. - respondo fazendo uma careta de dor e encostando-me à parede ofegante. - Desculpa-me, eu sei que este é o teu espaço, mas eu não podia ir-me embora assim. Tive um pressentimento esquisito.
- Que tipo de pressentimento?
- Que nunca mais te voltaria a ver. - cambaleio até ela.
- Estás ferido... - diz ela olhando para o meu ombro. - Deixa-me tratar disso. - Com uma simples passagem da sua mão sobre a minha ferida o sangue pára de escorrer e a pele fecha-se num ápice. - Já está!
- Elianne, vem comigo. - peço.
- Eu não posso...
- Podes sim, basta apenas confiares em mim. - respondo com um sorriso. - Eu estarei sempre contigo, sempre ao teu lado.
- Mas...
- Isto é tudo uma ilusão, Elianne, - digo descrevendo um arco com a mão. - nada disto é real, é apenas um sonho, um sonho monótono e repetido. Está na altura de viveres um novo sonho, um sonho inesquecível e excitante, recheado de novas aventuras e salpicado com pessoas novas e interessantes. Vem e sonha comigo, juntos poderemos transformar Gaia num mundo melhor, basta apenas confiares em mim.
- Eu não sei o que dizer, é tu...
- Diz apenas que sim. - interrompo estendendo-lhe a mão. - Confia...
- Eu confio! - diz ela pegando na minha mão e abraçando-me. - Confio com todas as forças do meu ser.
Com um beijo a imagem da varanda e do cenário fantástico começa a desvanecer-se até desaparecer por completo.

Abro lentamente os olhos e olho em redor procurando por um sinal de Elianne, esta encontra-se ainda adormecida sobre os membros fortes de Beremid, Diana acaricia gentilmente o meu cabelo e beija a minha testa, enquanto que Lara observa-me de longe.
- Voltaste! - diz Diana com um sorriso.
- Sim, e voltou com a Elianne. - diz o dragão com orgulho afagando o cabelo desta e observando com ternura o seu despertar.

domingo, janeiro 07, 2007

De Volta ao Castelo

Uma espessa nuvem de fumo branco paira sobre os nossos joelhos ocultando o piso húmido e escorregadio da câmara circular. O caixão jaz sobre um altar de pedra intensamente iluminado por raios de luz amarela provenientes de vários cristais presos no tecto. A luz é habilmente reflectida pelo âmbar incidindo em certos pontos da parede e fazendo aparecer na pedra nua textos e imagens de tempos há muito esquecidos e distantes.
- Uau! Que bonito! - exclama Diana maravilhada observando encantada cada imagem que vai aparecendo à sua frente. - O que significam?
- São histórias muito antigas, lendas, contos infantis, poemas... Coisas que a Elianne adorava escrever e descrever. - responde Beremid. - Infelizmente estão escritos numa língua que só ela conhecia, uma língua ancestral que acabou por se perder.
- Que pena, adoraria ler tudo isto.
- Não desesperes, feiticeira, a Elianne em breve acordará e eu tenho a certeza que terá o maior prazer em partilhar connosco todos estes seus textos. - sossega o dragão admirando com curiosidade e orgulho os desenhos perfeitos e a caligrafia tão estranha, mas ao mesmo tempo tão bem feita.
Enquanto Beremid e Diana se deleitam ao observar as imagens e os escritos, Lara e eu aproximamo-nos do caixão para ver de perto aquela que sobreviveu à, suposta, Grande Catástrofe.
- Hm, com que então esta é que é a famosa Elianne. - diz Lara admirando-a de cima a baixo. - É bonita e bastante atraente, agora compreendo porque é que demoraste tanto tempo para acordar. - a demónio olha para mim de soslaio com um sorriso malandro nos lábios.
- Infelizmente uma certa desmancha prazeres acordou-me na melhor altura, não foi, Lara?
- Ai sim? E posso saber que altura era essa? - pergunta ela endireitando-se e cravando os seus olhos dourados nos meus.
- Não tens nada com isso. - respondo ignorando por completo o seu olhar.
- Não precisas de responder, sei exactamente o que aconteceu entre vocês.
- Ai sim? E o que é que aconteceu entre nós?
- Não é óbvio? A rapariguinha estava sem homem há tanto tempo que assim que te viu saltou-te para cima, não foi?
- Lara...
- Ou se calhar já estava farta de "brincar" com o seu dragão e decidiu experimentar sangue novo.
- Lara...
- Ou talvez até te tenha convidado para entrar na brincadeira com ela e o dragão, sim afinal tu nessas coisas não és lá muito esquisito, nã...
- Lara!!! - grito irritado. Beremid e Diana calam-se e olham para nós, Lara simplesmente sorri deliciada por me ver exaltado. - Mas será que tu só pensas nisso? Estou a começar a ficar farto desses teus ciúmes!!
- Ciúmes!? Eu!? Deves estar a ficar parvo, humano, achas que alguma vez iria ter ciúmes teus, ciúmes de uma criatura tão baixa que nem para me lamber as botas é digna? - explode a demónio extremamente ofendida. - Sou uma demónio de puro sangue e como tal, sentimentos como esse não me afectam, humano.
- Ai sim, tens a certeza? É que em certas alturas, pela maneira como falas e ages, até parece que estás completamente apaixonad... - a demónio dá-me uma estalada com toda a força impedindo-me de terminar a frase.
- Não te atrevas a terminar essa frase, Cav! - grita ela enraivecida. - Eu sou um demónio, ouviste? Um demónio!! Eu sou superior a esses sentimentos reles e ordinários. O amor e a paixão é própria de vocês, humanos, criaturas baixas e mesquinhas. Mete de uma vez por todas nessa cabeça de serradura que os motivos que me movem não são iguais aos teus, pouco me importa o destino dessa tipa, por mim vendia-a a um comerciante de escravos por um bom preço, ou enviava-a para os Infernos onde me serviria como serva e concubina.
- Sempre o mesmo discurso, não é Lara? - respondo afagando o rosto dorido. - Quantas vezes me pergunto se de facto isso é tão verdade como tu dizes, ou se simplesmente o usas para fugir ao que verdadeiramente sentes.
Uma vez mais a demónio tenta bater-me, mas desta vez bloqueio-lhe o golpe e apanho-lhe o pulso.
- Eu não sinto nada por ti, humano, nada! és apenas alguém que eu permito que partilhe a minha cama. - responde ela mostrando os caninos.
- Serei? - respondo cravando os meus olhos nos dela.
A demónio debate-se libertando o seu pulso e sem dizer uma palavra afasta-se enfrentando sempre o meu olhar.
- Estás bem, meu Cavaleiro? - pergunta Diana aproximando-se e examinando o meu rosto.
- Estou sim, foi apenas mais uma das nossas muitas discussões, não te preocupes. - respondo sorrindo.
- Não sabia que vocês costumavam discutir muito. - diz ela olhando para a demónio.
- Nem imaginas. - digo sorrindo. - Mas felizmente acabamos sempre por fazer as pazes.

Com os ânimos mais calmos, Beremid aproxima-se do caixão de âmbar e com extremo cuidado e carinho retira o corpo adormecido de Elianne lá de dentro. O seu olhar é quente e terno e reflecte bem a amizade e ternura que o une àquela guerreira enigmática.
- Mas ela ainda dorme, o que é preciso para a acordar? - pergunta Diana olhando com extrema curiosidade para a última dos Ploensis.
- Um de vós terá que entrar no "Mundo dos sonhos" e trazê-la consigo, é a única maneira. - responde ele sem tirar os olhos da sua protegida.
- E porque é que não fazes tu isso, dragão? - pergunta Lara desconfiada.
- Porque alguém tem de os guiar de volta e o único capaz disso sou eu.
- E quem irá? - pergunto.
- Tu, humano, ela já te conhece e confia em ti, serás o enviado perfeito. Aceitas?
- Sim, eu acei...
Antes de terminar a frase sinto uma tontura enorme e tudo à minha volta torna-se turvo antes de desaparecer por completo.
- Cavaleiro, estás bem? - pergunta uma voz doce e terna. Umas gotas de água fria escorrem pela minha testa refrescando-me e despertando-me daquilo que parecia um sonho. Abro os olhos e vejo-a de novo, sorrindo para mim com duas covinhas no rosto e com o seu olhar meigo preso no meu.
- Elianne!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O Dragão Cinzento (3ª Parte)

- O QUÊ!!?? - exclama Lara ao ouvir aquela revelação. - Estás a querer dizer que o grande legado dos Ploensis é uma mulher!?
- Sim, demónio. - responde Beremid calmamente. - Não estou a perceber qual é o teu espanto, o conhecimento de toda uma raça pode estar contido num livro, num artefacto, ou até mesmo no último membro da sua espécie.
- Sim, sim, eu sei, mas as lendas...
- ... As lendas baseiam-se em factos reais, mas contêm muita fantasia, só um tolo é que acredita nelas piamente.
A demónio lança um olhar fulminante ao dragão ao ouvir aquelas palavras.
- E perdemos nós este tempo todo só para nos encontrarmos com uma velha gágá que certamente nem se lembra do próprio nome! - rosna a demónio virando-nos as costas e dando um pontapé na sólida porta de ferro.
- Acalma-te, Lara, tenho a certeza que essa tal de Elianne é muito dotada, senão não a teriam escolhido para ficar neste Mundo. - intervém Diana.
- Mas ninguém a escolheu, ela foi a única que sobreviveu à Grande Catástrofe. - diz Beremid sem perceber o que queria Diana dizer com aquilo.
- Que catástrofe? - perguntamos os três em uníssono olhando uns para os outros.
- Aquela que dizimou todos os Ploensis, vocês não estudaram isso na escola? - pergunta Beremid surpreendido.
- Mas toda a gente sabe que os Ploensis se cansaram deste Mundo e partiram para outro, esse período da nossa História está definido como a Terceira Grande Migração. - respondo.
- Eu não sei que dizer. - responde o dragão. - Mas vocês estão todos enganados, foram ludibriados, os Ploensis não partiram para outras terras, extinguiram-se, foram consumidos pela sua sede de poder.
- Não pode ser, dragão, deves ter batido com a cabeça em qualquer lado, temos provas da sua partida e a palavra de honra de cada um dos membros do antigo Conselho dos Onze. - contrapõe Lara.
- E o testemunho vivo de alguns dragões que presenciaram o momento em primeira mão. - diz Diana.
- Não, não, não! Estão todos a mentir, eu estive lá, eu assisti a tudo! - diz Beremid abanando a sua cabeça e olhando para o vazio como se estivesse a relembrar algo. - Eu lembro-me de tudo como se tivesse acontecido ontem, observei grandes actos de coragem, presenciei intrigas mesquinhas e cobardes, assisti às traições mais infames e ri e chorei conforme o desenrolar da trama... - o dragão cala-se por uns instantes e uma pesada lágrima escorre pelo seu focinho cinzento. - Eu... Eu compreendo porque quiseram esquecer, porque tentaram mudar o passado... Foi uma época de grande sofrimento, dor e mágoa... Teria sido o fim de tudo se Elianne e o seu amado Johan não tivessem intervido...
- Será que nos podes contar o que aconteceu? - pede Diana sentindo uma profunda simpatia pelo dragão.
- Talvez noutra altura, não agora, não me sinto em condições para contar toda essa história.
- Mas podes ao menos contar-nos porque é que a Elianne foi a única sobrevivente? - pergunto com curiosidade.
- Sinceramente não te sei responder a isso, humano, também eu anseio em sabê-lo, mas ela fecha-se em copas quando lhe pergunto e tranca-se na varanda mais alta do seu castelo.
- Castelo!? Mas que castelo!? Encontramo-nos num lugar esquecido pelos próprios Deuses, tu estás é louco dragão e alguém devia acabar com o teu sofrimento de uma vez por todas. - diz Lara sem acreditar numa só palavra.
- Demónio! - diz Beremid arfando irritado. - Estou a começar a ficar farto de ti.
- Mas desculpa que te diga, mas ela tem uma certa razão, falas de algo que para nós nunca aconteceu e afirmas que existe por aqui um castelo quando a única coisa que vemos é esta horrível porta de ferro. Por favor, tenta compreender o nosso cepticismo. - diz Diana defendendo a sua companheira.
Beremid solta um pesado suspiro.
- Eu compreendo... O castelo de que falo não se encontra nesta realidade, situa-se noutra onde apenas os nossos espíritos podem entrar, numa espécie de "mundo dos sonhos", digamos assim.
- E o que está por detrás desta porta? - pergunto.
- Vê por ti mesmo.

As paredes dos corredor tremem ligeiramente e um agudo som metálico de um trinco propaga-se pelo ar. A pesada porta de ferro range e geme ensurdecedoramente e lentamente começa a abrir-se. Um espesso fumo branco é libertado do seu interior e um gelo insuportável espalha-se à nossa volta fazendo-nos estremecer involuntariamente. Uma luz amarelada acende-se imediatamente focando-se sobre um belo e ornamentado caixão de âmbar. No seu interior encontra-se uma mulher muito bela que aparentemente dorme profundamente.
- Prepara-te, ó príncipe, pois a tua Bela Adormecida espera pelo teu beijo. - diz Lara num tom jocoso e dando-me um empurrão.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O Dragão Cinzento (2ª Parte)

Ao ouvir o seu nome o dragão endireita-se e lança-me um olhar mais intenso e perscrutador como se estivesse a ler a minha alma. Lara e Diana fitam-me surpreendidas tentando perceber como poderia eu conhecer tão curiosa criatura enquanto que Léon aproveita a distracção de todos para investigar a toca de Beremid e apoderar-se de algum ouro ou objecto valioso.
- Esse é o meu nome, humano, mas poderei saber de onde me conheces? - pergunta o dragão com a sua voz forte.
- Sim Cav, diz-nos de onde o conheces, eu também estou curiosa. - intromete-se a demónio.
- Eu não sei, de repente esse nome veio-me à cabeça como se já nos tivéssemos cruzado antes. - respondo. - Mas de alguma forma sinto que falta alguém...
- E quem é esse alguém, humano? - pergunta o dragão ocultando um sorriso como se soubesse a resposta.
- Sim, quem? - volta a perguntar a demónio com uma crescente curiosidade na voz.
Diana nada diz, limita-se a olhar para mim esperando paciente ou impacientemente pela resposta.
- Uma mulher... - respondo absorvido em rasgos de recordações soltas e incertas. - Elia... Não me recordo do seu nome, apenas dos seus olhos... - esboço um pequeno sorriso ao lembrar-me do seu perfume e do beijo trocado sob o olhar do Universo.
- Elianne! - diz Beremid. - O seu nome é Elianne, humano. Eu lembro-me de ti, és o guerreiro que apareceu misteriosamente no seu jardim ainda há pouco. Não sei o que lhe fizeste, mas deixaste-a radiante e mereces o meu respeito por isso.
- Espera um pouco. - interrompe Diana. - Como assim ainda há pouco, ele esteve sempre connosco, não foi a jardim algum.
- Existem tantos mundos e tantas realidades em que apenas o espírito pode viajar...
- Isso quer dizer que...
- ... Que enquanto nós nos preocupávamos com o Cav, estava ele a fazer não sei o quê com a tal de Elianne. - termina a demónio olhando para mim.
- Eu não acredito! Eu a pensar no pior e tu a divertires-te! - exclama a feiticeira indignada.
- Mas eu...
Lara aproxima-se de mim beijando o meu pescoço e murmurando ao meu ouvido:
- Não sejas tão modesto Cav, partilha comigo o que lhe fizeste ou o que ela te fez. - diz ela num tom de voz doce e sedutor. - É melhor que eu na cama? Será que te dá mais prazer do que eu? Satisfaz todas as tuas fantasias?
- Lara, pára! - afasto-a irritado. - Não estou com disposição para os teus ciúmes, especialmente quando não me consigo lembrar muito bem do que aconteceu.
- Do que te lembras, então? - pergunta Diana.
- Eu não quero falar sobre isso! - respondo. - Beremid, onde está ela, porque é que não está contigo?
- Mas é por ela que vocês aqui estão, vocês querem o que está atrás desta porta, estarei certo?
- Sim, nós queremos todo o conhecimento dos Ploensis. - responde Lara.
- Mas o que queres dizer com isso do "é por ela que vocês aqui estão"? - pergunto.
- Simples, a Elianne é a última dessa antiga e poderosa raça!

sábado, dezembro 23, 2006

O Dragão Cinzento

A pequena bola de luz criada por Diana serpenteia à nossa volta afastando as trevas e iluminando o sinistro corredor. Lara segue na frente lendo o mapa, seguida de perto por Léon, eu e a feiticeira caminhamos um pouco mais atrás silenciosos e expectantes.
- Deves estar desiludido comigo, meu Cavaleiro, deves estar a pensar que sou uma medricas. - diz Diana sem olhar para mim.
- Por que haveria de pensar isso, por causa da maneira como reagiste ainda agora? - pergunto encarando-a surpreendido.
- Sim...
- Afasta esses pensamentos parvos, minha feiticeira, tu sabes bem que eu nunca iria pensar uma coisa dessas de ti. - respondo tentando animá-la. - Somos humanos, carregamos dentro de nós medos que não conseguimos entender nem controlar.
- Eu sei, mas eu sou uma feiticeira, ora bolas! eu fui treinada desde pequena para controlar os meus medos, para me manter calma quando tudo à minha volta se desmorona. - diz ela fitando-me com os seus olhos verde esmeralda. - Eu falhei, meu Cavaleiro, eu falhei!!
Páro e envolvo-a nos meus braços beijando a sua testa.
- Não sejas tão dura contigo mesma, tu não falhaste, tu salvaste-nos. Por mais poderosa que sejas, por mais disciplina que tenhas, tu nunca vais deixar de ser humana, vais ter sempre que conviver com as fraquezas que acompanham a nossa espécie.
Uma lágrima escapa-se dos seus olhos escorrendo pelo seu belo rosto.
- Eu sei, eu sei... - diz ela pousando a sua cabeça sobre o meu ombro. - Mas a imagem e o medo de te ver morto deixou-me desesperada e descontrolada... Pregaste-me um grande susto ainda agora, sabias? Ao ver-te inconsciente daquela maneira e durante tanto tempo, ai, tive tanto...
Coloco ternamente um dedo sobre os seu lábios impedindo-a de terminar a frase.
- Shh, não digas mais nada. - sorrio passando a mão sobre o seu cabelo. - Continuas precisamente na mesma, sempre preocupada comigo e a pensar no pior.
- Não consigo evitar, tu és como um irmão mais novo para mim, sinto uma profunda necessidade de te proteger. - diz ela sorrindo. - Acho que já é hábito, quando éramos mais novos estava sempre pronta para te salvar dos sarilhos em que te metias.
- Ai sim? - respondo eu surpreendido. - Mas se eu bem me lembro quem andava sempre metida em sarilhos eras tu...
- Detalhes, detalhes!! - diz ela rindo e abraçando-me com força. - Eu adoro-te, meu Cavaleiro, promete-me que nunca mais nos vamos separar.
- Eu prometo! - digo sorrindo e abraçando-a com a mesma intensidade.
- Por Lukthar! - interrompe Lara aparecendo subitamente. - Mas vocês humanos além de serem uns medricas passam a vida aos abraços e aos beijinhos?
- O que se passa, Lara, estás com ciúmes?
- Se calhar ela também quer um beijinho e um abraço. - diz Diana picando-a.
- Agora não, quem sabe mais logo, mas aí vou querer bem mais do que um simples beijo ou abraço de ambos. - diz ela sorrindo maliciosamente. - Mas de momento temos um prémio para resgatar, por isso menos lamechice e mais acção!

A escuridão vai desaparecendo lentamente e o corredor vai-se tornando cada vez mais luminoso. Chegamos por fim a uma pesada e impressionante porta de ferro, o seu aspecto é simplesmente assustador, caveiras esculpidas no metal parecem gritar num sofrimento eterno, enormes espigões avermelhados apontam na nossa direcção mostrando orgulhosamente o sangue seco que os cobre.
- Chegámos finalmente! - exclama Lara eufórica. - Agora só temos que encontrar uma maneira de abrir isto.
- O papiro o que é que diz? - pergunto mirando com desdém a aparência da porta.
- Nada, desde as sete portas que estamos a caminhar em terreno desconhecido. - diz Diana.
- Vocês já repararam nesta estátua? Parece um dragão... - diz Léon aproximando-se dela para a ver melhor.
- Um dragão!? - exclamamos os três em uníssono guiando o olhar para o local onde Léon se encontra.
- Deditos, se eu fosse a ti recuava muito lentamente.
O ladrão vira-se para a demónio irritado.
- Lara, pela milésima vez peço-te que não me voltes a tratar assim. Além do mais, porque é que deveria recuar, esta estátua pode ser a chave que procuramos.
- Pois pode... Mas já viste alguma estátua respirar, Léon? - diz a feiticeira calmamente.
- Respirar? Claro que não, as estátuas não respiram, apenas as criaturas vivas o faz... - O ladrão apercebe-se então de que a "estátua" o fita com olhos de poucos amigos e segue o conselho da demónio começando a recuar muito lentamente.
O dragão abre a sua enorme boca e solta um urro assustador propagando saliva e baba em todas as direcções.
- Esta porta está guardada por mim, criaturas inferiores, e se querem o que está lá dentro terão de me provar que são dignos.
- Bolas, mas será que aguentar este fedor e levar com um banho de baba não é razão suficiente? - murmura Lara limpando o rosto.
- Tento na língua, demónio, ou o próximo odor que irás sentir será o do meu estômago. - rosna o dragão cinzento. - Como disse, terão de me provar que são di... O que se passa humano, será que nunca viste um dragão antes?
O dragão olha para mim com curiosidade e eu não consigo deixar de pensar que já o vi em qualquer lado, a ele e a mais alguém.
- Beremid, és tu? - pergunto sem saber de onde me surgiu o nome.

Medos

Um espesso manto negro abate-se sobre nós à medida que nos embrenhamos cada vez mais pelo novo corredor, a luz das nossas tochas vai-se esmorecendo, sugada pelas trevas esfaimadas, até desaparecer por completo e lançar-nos na mais sombria escuridão. Tentamos a todo o custo reacender as nossas lanternas, mas nem uma faísca conseguimos produzir, as sombras parecem ser donas e senhoras deste local impedindo a formação da mais pequena porção de luz. As trevas começam então lentamente a mexer na nossa mente, o silêncio absoluto e o medo primário da ausência de luz forçam-nos a imaginar sons, barulhos estranhos e a ver coisas que simplesmente não existem. Tento lutar contra este temor irracional, mas é mais forte que eu, o instinto de sobrevivência obriga-me a levar a mão à espada e defender-me dos "perigos" que me cercam. Imagens e sons de monstros horrendos, de demónios sanguinários e outras criaturas, que a minha mente fértil insiste criar em questões de segundos, fitam-me por entre a escuridão, esperando apenas o momento certo para me atacar. Subitamente uns olhos dourados emergem das sombras e avançam na minha direcção, com um movimento rápido desembainho a minha espada e preparo-me para os atacar, um grito de uma mulher ecoa então pelo ar e uma forte luz branca afugenta as trevas que nos cercam.
Estremeço ao ver o rosto de Lara diante de mim, a lâmina da minha espada parou a escassos milimetros do seu pescoço.
- É melhor guardares isso, Cav, ou ainda magoas alguém. - diz ela esboçando um sorriso mas não conseguindo esconder a profunda surpresa estampada no seu olhar.
- Eu... Desculpa-me... Eu não queria...
- Eu sei, não precisas de pedir desculpa.
Sorrio para ela e olho em volta, ao que parece não fui o único a sucumbir ao medo do escuro, Léon encontra-se a poucos metros de mim olhando igualmente em volta sem saber o que lhe aconteceu, e Diana jaz no chão cercada de uma luz branca muito intensa murmurando palavras incompreensíveis e limpando os olhos mergulhados em lágrimas.
- Humanos... - comenta a demónio abanando a cabeça e sorrindo desdenhosamente ao ver-nos assim.

sábado, dezembro 16, 2006

Um Sonho?

A misteriosa mulher senta-se à minha frente fitando-me com os seus olhos curiosos, os seus lábios comprimem-se sedutoramente soprando sobre a fumegante caneca de chocolate quente que segura com ambas as mãos. Observo-a encantado sem saber o que dizer ou fazer preso àquele olhar tão doce e terno e no entanto tão misterioso.
- O que se passa - pergunta ela cortando o silêncio. - não estás com vontade de provar o chocolate que te ofereci?
As suas palavras despertam-me do seu encantamento fascinante e dou-me conta que o calor da caneca que seguro com ambas as mãos se começa a tornar insuportável.
- S-sim... Eu... Desculpa. - gaguejo atrapalhadamente. - Mas estou simplesmente encantado e fascinado com tudo o que me mostraste. Este teu castelo é... único...
- Sim... - responde ela com um sorriso. - Foi feito com amor e carinho, isso torna-o muito especial e único. Mas coloquemos o meu castelo de lado, fala-me de ti, há tanto tempo que não tenho uma visita.
- Mas como é isso possível, este lugar é extraordinário e tu és uma mulher fantástica, como podes viver assim em quase total isolamento?
- Uma mulher fantástica? Como podes afirmar uma coisa dessas se só me conheces há poucas horas? - pergunta ela pousando a caneca na mesa e tentando esconder um ligeiro rubor.
- Pelo teu olhar e pelo teu sorriso. E, desculpa por te dizer isto, mas quanto mais tempo estou contigo, mais me vem à cabeça a ideia de que te conheço de alguma forma.
- Deve ser impressão tua, guerreiro, nós nunca nos cruzámos antes...
- Eu sei... Esquece, não ligues ao que digo, deve ser da excelente hospitalidade a que estou a ser sujeito. - digo piscando-lhe o olho e provando um pouco da sua bebida. - Sou apenas um homem que gosta de viajar e viver aventuras, ajudar e conhecer pessoas novas e interessantes.
- E o que te traz aqui, alguma aventura?
- Sim... Eu, a Lara, a Diana e um outro chamado León estávamos à procura de uma câmara que supostamente guarda um conhecimento fabuloso, todo o conhecimento de uma raça chamada Ploensis.
- E para que queres tu tal conhecimento, segundo as lendas, ele é deveras poderoso e mortal, queres tornar-te senhor do Mundo? - pergunta ela enterrando o seu olhar no meu esperando impacientemente pela resposta.
Solto uma gargalhada ao ouvir tal pergunta.
- Eu, senhor do Mundo? Pelos Deuses, claro que não!! Eu já fui um senador da República e acredita, a política não é para mim, demasiada burocracia. Eu quero é viver a vida, um dia de cada vez e quem sabe viver um ou dois sonhos.
- Poderei saber com que sonhas?
- Com o amor, amar e ser amado... Por uns tempos esse sonho concretizou-se, mas depois... Depois o sonho tornou-se um pesadelo, perdi-a, perdi-me... Mas o sonho, esse, ainda se mantém, mais forte que nunca. - Volto a beber um golo do delicioso chocolate e evito o seu olhar.
- Desculpa, eu não sabia que estas minhas perguntas te fariam relembrar coisas tão dolorosas.
- Não faz mal...
- Faz sim. - ela levanta-se e pega-me pelo braço. - Anda, quero mostrar-te o meu sítio favorito, aquele para onde vou quando estou em baixo.
- Mas...
- Não há mas, nem meio mas, tu vens comigo, Cavaleiro sonhador! - diz ela com um sorriso tão doce e terno que não sou capaz de recusar. A guerreira conduz-me por várias salas e salões, por vários lances de escada até que se detém por fim diante de uma porta de madeira. - Vou pedir-te que feches os olhos, quero que fiques surpreendido quando os abrires. Confias em mim?
- Sim!
- Ainda bem. Dá-me a tua mão. - fecho os olhos e ouço a porta a abrir-se muito lentamente, logo de seguida sinto-me a ser conduzido para uma sala cujo o ar leve e fresco me dá a impressão de estar a levitar. - Podes abrir os olhos. - diz ela.
Abro-os lentamente e o cenário que se revela diante de mim faz-me estremecer e por pouco não caio no chão, tal é a fraqueza que sinto nas pernas. Encontro-me na varanda da torre mais alta do castelo, à minha frente parecem estar concentrados todos os planetas e estrelas do Universo, as constelações que tanto fazem sonhar e os cometas que viajam através do espaço sideral indiferentes ao olhar de criaturas tão pequenas e insignificantes.
- Pelos Deuses, eu só posso estar a sonhar. Eu adoro olhar para o céu de noite, de contemplar as estrelas ao longe, mas vê-las assim de tão perto são ainda mais espectaculares e mágicas do que me atrevia a imaginar...
- São sim, este cenário tão belo deixa-me sempre maravilhada e encantada.
- Sim... Compreendo-te perfeitamente...
- Cavaleiro?
- Sim?
- Ainda agora, quando me disseste que tinhas a sensação de que me conhecias de qualquer lado o meu coração disparou, a verdade é que eu também senti o mesmo.
- Sentiste?
- Sim... Por isso é que te quis mostrar este meu pequeno reino privado. Eu sinto que posso confiar em ti, sinto que já estive contigo há muito tempo...
- E no entanto nunca nos vimos antes. Como pode ser isto possível? - pergunto afagando carinhosamente o seu cabelo.
- Não sei, sinceramente não sei... - responde ela colocando os seus braços à volta do meu pescoço e aproximando os seus lábios dos meus. - Tudo o que sei é que desde que te vi que te quero fazer isto...
Diante daquela visão extraordinária trocamos um forte e demorado beijo.
- Que loucura, eu nem sei como te chamas, guerreira misteriosa.
- Não seja por isso, bravo guerreiro, o meu nome é Elia... - um grito indistinto vindo de não sei de onde impede-me de ouvir o seu nome.
- Não percebi, guerreira, repete-mo. - peço imerso num encantamento profundo.
- Elia...
- Cav!!! - volto a ouvir gritar.
- C-como?
- CAV, ACORDA!!!!
Os gritos vão se tornando mais intensos e distintos e tudo à minha volta se começa a desfazer. A guerreira tenta segurar-me, manter-me perto de si, mas uma força maior puxa-me não sei para onde, estendo o braço tentando tocar-lhe, mas ela já está longe, fora do meu alcance. As imagens vão-se desmoronando uma a uma e a última coisa que vejo são os seus olhos grandes e curiosos agora tristes e saudosos por me perder uma vez mais...

- Cav!! Cav!!! - grita a voz. Sinto uma dor aguda no rosto e depois vejo os olhos dourados de Lara diante de mim. - Humano estúpido! O que te deu para desmaiares dessa maneira?
- Desmaiei? - pergunto confuso.
- Sim, seu idiota. - continua a demónio. - Ia ficando rouca de tanto chamar por ti.
- Rouca e com a mão dorida com tantas estaladas que lhe deste. - diz Diana sorrindo.
- Está calada, feiticeira! - rosna a demónio. - O que é que te aconteceu, parvalhão?
- N-não sei... Não me lembro... - respondo confuso. - Mas obrigado por estares tão preocupada comigo. - A demónio volta a dar-me uma estalada no meu rosto já dorido. - Hey, para que é que foi isso?
- Ainda estás a dizer parvoíces, por isso foi para te acordar de vez!! - responde ela levantando-se.

sábado, dezembro 09, 2006

O Castelo nas Nuvens

O dragão ajoelha-se na erva alta permitindo à mulher que desmonte com suavidade, no olhar de ambos está estampado um profundo respeito e carinho como se uma forte amizade e amor os unisse. A guerreira deixa-se ficar perto do seu companheiro afagando o seu dorso e observando-me com viva curiosidade e atenção.
- Posso saber como vieste parar aos jardins do meu castelo, guerreiro? Neste pequeno espaço a que tenho orgulho de chamar meu, só entra quem eu quero, e se a memória não me falha, não te enviei nenhum convite...
- Peço desculpa se invadi os teus jardins, não foi por minha culpa, foi uma porta mágica que me guiou até aqui, a mim e aos meus companheiros.
- Companheiros? - pergunta o dragão na sua voz forte e poderosa. - A que companheiros te referes, humano?
- Refiro-me a mais três parceiros de viagem, dragão, uma feiticeira de nome Diana, um ladrão de nome Léon e um demónio de nome Lara.
- Um demónio!? - exclama a mulher levando a mão a uma espada até então oculta. - Pelo teu ar e pelo teu olhar imaginava-te um guerreiro do bem e da justiça, não um mercenário das hostes infernais. - O dragão imita o gesto da sua parceira colocando-se em posição de combate e abrindo a boca mostrando os seus dentes enormes.
Como que por instinto, Aragoth activa-se cobrindo todo o meu corpo com uma armadura mágica preparada para me defender do perigo.
- Eu já pensei como tu, guerreira, mas depois conheci a Lara e tudo aquilo que eu pensava conhecer sobre os demónios se desfez em pó. Baseias os teus conhecimentos em preconceitos e em meras superstições, nem todos os demónios são maus e nem todos os anjos são bons. - respondo levando por precaução a mão à espada.
- Mesmo assim, um demónio é sempre um demónio. - responde ela teimosa.
- E um dragão é sempre um dragão. - respondo encarando sem medo o olhar da besta. - Sou um Cavaleiro que já viu e passou por muita coisa, a verdade é que nem tudo é o que parece, o medo do desconhecido faz-nos temer as coisas, por vezes sem razão. - desembainho lentamente a espada e atiro-a para o chão. - Sou amigo e amante de uma demónio, sim, e não me arrependo disso! mas se na tua óptica a minha mera amizade para com ela me transforma num ser desprezível e odioso, então tenho pena de ti, pois és pobre de espírito e um poço de preconceitos.
A mulher olha para mim incrédula e depois sorri com doçura.
- És um homem corajoso, guerreiro, e ao que parece um sonhador inveterado, como eu... Peço desculpa se te ofendi de algum modo, mas nos tempos que correm todo o cuidado é pouco. És bem-vindo ao meu jardim e ao meu castelo, por favor segue-me, és meu convidado. - a guerreira volta a montar o seu dragão e no céu um castelo suspenso sobre uma gigantesca e fofa nuvem branca, aparece como que por magia.
- Espera! E os meus amigos, onde estão eles? - pergunto.
- Sinceramente não te posso responder a isso, bravo guerreiro, pois apenas tu apareceste no meu jardim. Confia em mim e segue-me, talvez as respostas que procures estejam mesmo à tua frente.
Monto no dorso do enorme dragão cinzento abraçando firmemente a cintura daquela misteriosa guerreira para não cair. O solo afasta-se rapidamente e um vento frio bate-me no rosto transportando consigo o delicioso aroma da pele suave desta mulher enigmática, fecho os olhos e por momentos esqueço-me da minha missão e do destino dos meus companheiros, em especial do da Lara, e simplesmente deixo-me guiar pela mão invisível da Fortuna.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

A Câmara do Conhecimento (3ª Parte)

As portas levitam levemente soltando suaves faíscas de pura luz branca, tentamos em cada uma delas encontrar uma pista que nos indique o caminho correcto, mas tal não é possível, entre este lado e o outro encontra-se um véu de luz brilhante que nos impede de ver e ouvir o que se encontra do outro lado. Apenas nos restam as inscrições, sete pequenas frases que espalham ainda mais a confusão e a indecisão.
- Ora bem, estamos aqui há horas e ainda não chegámos a uma conclusão, qual é para vocês o caminho correcto? - pergunta uma vez mais Diana cansada de tanto ler e reler as frases.
- Outra vez essa pergunta, feiticeira? Cada um de nós tem uma interpretação diferente, por isso acabamos sempre por escolher portas diferentes. - responde Lara sem paciência.
- Eu sei, Lara, eu sei, mas temos que escolher uma, por isso esta é a pergunta mais lógica, qual delas?
- Não é a única pergunta lógica. - respondo. - Se estamos com dificuldades em escolher a verdadeira podemos ao menos marcar desde já as erradas, isto simplificaria um pouco mais as coisas, não concordam?
- Sim, simplificaria e muito. - responde a feiticeira com um sorriso. - Podemos então concluir sem sombra de dúvida que a segunda porta é falsa, certo?
- Certo! - respondemos os três em uníssono.
- Óptimo, uma já está, faltam seis.
- Por essa ordem de ideias a sexta porta também é falsa, concordam? - pergunta Lara.
- Sim! - voltamos a responder em uníssono.
- A primeira e a quarta não me cheiram, soam-me a armadilhas. - afirma Léon.
- Sim, especialmente essa do sorriso e da voz, parece uma conversa daquelas criaturas que atraiem os viajantes para uma morte horrorosa. - diz a demónio.
- Muito bem, outras duas eliminadas. - digo sorrindo. - Agora só faltam três... Esta do Midas é tentadora, mas estamos à procura de conhecimento e não de ouro, por isso não é lógico seguir por aqui.
- Mas nós não sabemos o que podemos encontrar, até pode haver bastante ouro guardado. - diz rapidamente Léon com um brilho no olhar.
- Pode haver, mas concordo com o Cav, não é de ouro que estamos à procura, por isso para mim a porta é falsa. - argumenta Diana.
- Detesto dizer isto, mas eles têm razão, Léon, não viemos atrás de ouro, viemos atrás de algo bem mais poderoso e influente. - responde Lara. - Além disso, esta última parte cheira-me a armadilha, eu também acho q a porta é falsa.
- Mas...
- São três votos contra um, a terceira porta foi descartada, meu caro. - corta a feiticeira.
- Já viram, só nos faltam duas! - exclama Lara confiante. - Hm... Para mim a verdadeira é a sétima.
- Tem alguma lógica, o que é que está sempre connosco, não é a aprendizagem, o conhecimento, a experiência que vamos adquirindo desde o nascimento até à morte? - responde Diana.
- Sim, é de facto uma inscrição tentadora, mas soa-me a algo bem diferente. - opina Léon.
- Também acho, vendo por outro prisma esta companheira ideal parece ser a Morte... - respondo.
- Mas a outra porta fala em pesadelos, n...
- Mas também fala em sonhos, Lara, e o conhecimento não pode ser uma faca de dois gumes, um sonho e um pesadelo? - respondo.
- Talvez, mas...
- "... ou de nada ficarás ciente...", para mim é a porta verdadeira.
- Mas...
- Começo a concordar com o Cavaleiro, Lara, a quinta porta parece ser a verdadeira.
A demónio olha para cada um de nós visivelmente irritada por ser contrariada, mas acaba por se render às evidências.
- Está bem, eu aceito as vossas opiniões, a verdadeira é a porta nº 5, mas pelo sim pelo não mandamos o Léon primeiro, se lhe acontecer alguma coisa seguimos pela "minha" porta. - diz ela olhando para o ladrão com um sorriso malicioso.

O cheiro desagradável dos esgotos e o irritante zumbido das portas dão lugar a um aroma perfumado de flores do campo e ao som de água a cair. Diante de mim encontra-se um belo jardim salpicado de flores e árvores esplendorosas que emanam cheiros e odores vários, todos eles maravilhosos; uma magnífica cascata de águas cristalinas parece gritar de vida mesmo ali ao lado, dando origem a um pequeno lago soberbo e cheio de vida.
- Pelos Deuses, estarei eu no paraíso?! - exclamo ante este cenário divino.
- Claro que não, guerreiro, estás no "meu" jardim!
Viro-me na direcção da voz e encontro uma bela mulher de olhos grandes e curiosos envergando um vestido vermelho e montando um enorme dragão cinzento.