domingo, janeiro 14, 2007

Com Eterna Saudade



As lágrimas teimam em cair pelo meu rosto como um rio inesgotável... Ainda me custa a crer que tenhas partido, minha doce sonhadora, que tenhas abandonado este "paraíso" terrestre e voado com o teu dragão, Beremid, para o teu castelo nas nuvens, aquele construíste na estrela que criaste para mim... Vou sentir tanto a tua falta, falta das nossas conversas, dos teus poemas, do teu sorriso, das tuas adoradas covinhas que teimavam em aparecer quando sorrias, da tua voz, do teu olhar e do nosso chocolate quente...
As lágrimas caiem com maior intensidade e as minhas palavras falham-me... Como romântico que sou acredito que tudo acontece por um motivo e que o nosso "encontro", no Inverno da tua vida, não foi uma simples coincidência. Adoro-te Elianne, adoro-te de verdade, continuarei a sonhar contigo usando a personagem que criei pensando em ti e dando cada vez mais vida à Lara, a demónio que tanto adoravas e que no fundo, e sem eu o saber, é como tu. Afinal, a mulher dos meus sonhos sempre existia...
Deixa as portas do teu castelo bem abertas, pois um dia quando eu partir irei à tua procura. ;)

Um beijo bem terno e eterno, salpicado com a doçura do nosso chocolate quente e acompanhado por um abraço forte e por um singelo, mas sentido, até já!
Sou e serei sempre o teu Cavaleiro!
João

quinta-feira, janeiro 11, 2007

O Despertar

As fumegantes canecas de chocolate quente acabadinho de fazer espalham o seu doce e sedutor aroma por todas as divisões do vasto castelo flutuante. Um fogo lento e pachorrento arde na lareira da principal sala de estar consumindo dois pesados troncos de madeira, a sua luz intermitente e dançante ilumina os impressionantes sofás de pele de veado andorino. Pelos extensos corredores uma luz pálida da tímida Lua brilha sobre o mármore azulado do pavimento e realça de uma forma assustadora as sombras das armaduras que permanecem em sentido, presas à parede, como se estivessem numa formação. O silêncio é apenas quebrado pela brisa do vento que teima em penetrar por uma das janelas semi-abertas de um destes corredores e bater suavemente num dos espanta-espíritos pendurado sobre a porta do quarto privado de Elianne.
Por detrás desta porta três velas iluminam toda a divisão revelando com a sua fraca luz peças de roupa jogadas no chão de qualquer maneira; nas paredes as sombras de dois corpos movendo-se e tornando-se num só tomam dimensões invulgares, os sons e os gemidos por eles expelidos são abafados pelo Tic-Tac constante de um antigo, mas possante, relógio de pêdulo encostado a uma das paredes.
O soar das doze badaladas mascara de certa forma o culminar do reencontro dos dois amantes, os seus corpos fundidos um no outro e os seus lábios entregues a uma dança de desejo e paixão são o espelho de que aquele momento é único e eterno.
- Como é bom que estejas de novo aqui ao pé de mim. - diz Elianne aninhando-se em meus braços e pousando a sua cabeça sobre o meu peito. - Senti tanto a tua falta, meu doce Cavaleiro.
- Mas eu não vou ficar aqui para sempre, minha guerreira misteriosa, em breve terei de partir de novo. - respondo passando a mão pelos seus cabelos encaracolados.
- Eu sei, eu sei. Sinto um peso enorme no coração por saber que em breve me irás deixar outra vez. - diz ela abraçando-me com força.
- Vem comigo, Elianne, vem comigo para Gaia.
- Eu... Eu não posso... Este lugar é a minha casa, aqui sinto-me bem, tenho o meu espaço, o meu silêncio, as minhas coisas... Eu já não pertenço ao teu mundo, faço parte de algo que já se extinguiu há muito tempo...
- Não digas isso, a tua raça desapareceu, mas tu sobreviveste por alguma razão. Está na hora de pôr o passado de lado e regressar.
- Tu não entendes, meu Cavaleiro, tu não entendes pelo que eu passei, pelo que eu tive de fazer. O meu mundo desmoronou-se à minha volta, pedra por pedra, pilar por pilar, tudo ruíu e eu, de certa forma, caí com ele.
- Eu compreendo que tenhas passado por um grande sofrimento, mas fugir não nos leva a lado nenhum, há alturas na nossa vida que temos que enfrentar o destino que os Deuses nos reservaram.
- Fugir? Mas eu nunca fugi de nada, meu guerreiro, eu enfrentei tudo o que havia para enfrentar. Eu... Tu não compreendes, nunca irias compreender...
- Explica-me então, conta-me o que aconteceu.
Elianne olha para mim e uma lágrima escorre-lhe pelo rosto.
- Não posso, não consigo... Perdoa-me. - diz ela levantando-se e vestindo um robe avermelhado.
- Elianne!
A guerreira apenas olha para mim e sai do quarto. Levanto-me de imediato vestindo as calças e abrindo a porta esperando encontrá-la ainda no corredor, mas ela havia desaparecido, apenas o som dos seus passos céleres permanece ecoando através dos corredores vazios. Lembro-me então daquilo que Beremid disse, que nestas alturas ela se refugiava na torre mais alta do castelo, a torre onde trocámos o primeiro beijo, e sem pensar duas vezes corro para lá.

A pesada porta de madeira encontra-se firmemente fechada, encosto o meu ouvido a ela e ouço alguém a soluçar e murmurar palavras.
- Elianne! - chamo em alta voz. - Abre a porta, por favor! - Lá dentro os soluços param e um silêncio enorme toma conta da sala. - Elianne, por favor, abre a porta! - repito. Os meus pedidos ficam sem resposta e da varanda nem um som se escapa.
Sem grande alternativa viro-me para as escadas e preparo-me para voltar para o quarto, mas algo me impede, uma sensação estranha, talvez, ou um pensamento maluco que me passa pela cabeça avisando-me que se me for embora poderei nunca mais a ver. Dominado por esse pressentimento volto a bater de novo à porta e a chamar pelo seu nome, o seu silêncio leva-me a bater com mais força aumentando a vontade de deitar a porta abaixo e descobrir o que se passa, inconscientemente é isso que faço e sem dar-me conta começo a bater com o ombro tentando arrombá-la. A pesada porta vai cedendo e ignorando a dor e o sangue quente que me vai escorrendo pelo braço atinjo o meu objectivo, com uma última e forte pancada ela cede totalmente e abre-se atirando-me com força para o chão gelado da varanda. Levanto-me a grande custo tentando estancar a hemorragia e olhando em volta procurando por ela, Elianne encontra-se no ponto mais afastado, rodeada por estrelas e luzes estranhas.
- Meu Cavaleiro, o que fizeste? - pergunta ela olhando para mim com o rosto encharcado.
- Uma loucura, pelos vistos. - respondo fazendo uma careta de dor e encostando-me à parede ofegante. - Desculpa-me, eu sei que este é o teu espaço, mas eu não podia ir-me embora assim. Tive um pressentimento esquisito.
- Que tipo de pressentimento?
- Que nunca mais te voltaria a ver. - cambaleio até ela.
- Estás ferido... - diz ela olhando para o meu ombro. - Deixa-me tratar disso. - Com uma simples passagem da sua mão sobre a minha ferida o sangue pára de escorrer e a pele fecha-se num ápice. - Já está!
- Elianne, vem comigo. - peço.
- Eu não posso...
- Podes sim, basta apenas confiares em mim. - respondo com um sorriso. - Eu estarei sempre contigo, sempre ao teu lado.
- Mas...
- Isto é tudo uma ilusão, Elianne, - digo descrevendo um arco com a mão. - nada disto é real, é apenas um sonho, um sonho monótono e repetido. Está na altura de viveres um novo sonho, um sonho inesquecível e excitante, recheado de novas aventuras e salpicado com pessoas novas e interessantes. Vem e sonha comigo, juntos poderemos transformar Gaia num mundo melhor, basta apenas confiares em mim.
- Eu não sei o que dizer, é tu...
- Diz apenas que sim. - interrompo estendendo-lhe a mão. - Confia...
- Eu confio! - diz ela pegando na minha mão e abraçando-me. - Confio com todas as forças do meu ser.
Com um beijo a imagem da varanda e do cenário fantástico começa a desvanecer-se até desaparecer por completo.

Abro lentamente os olhos e olho em redor procurando por um sinal de Elianne, esta encontra-se ainda adormecida sobre os membros fortes de Beremid, Diana acaricia gentilmente o meu cabelo e beija a minha testa, enquanto que Lara observa-me de longe.
- Voltaste! - diz Diana com um sorriso.
- Sim, e voltou com a Elianne. - diz o dragão com orgulho afagando o cabelo desta e observando com ternura o seu despertar.

domingo, janeiro 07, 2007

De Volta ao Castelo

Uma espessa nuvem de fumo branco paira sobre os nossos joelhos ocultando o piso húmido e escorregadio da câmara circular. O caixão jaz sobre um altar de pedra intensamente iluminado por raios de luz amarela provenientes de vários cristais presos no tecto. A luz é habilmente reflectida pelo âmbar incidindo em certos pontos da parede e fazendo aparecer na pedra nua textos e imagens de tempos há muito esquecidos e distantes.
- Uau! Que bonito! - exclama Diana maravilhada observando encantada cada imagem que vai aparecendo à sua frente. - O que significam?
- São histórias muito antigas, lendas, contos infantis, poemas... Coisas que a Elianne adorava escrever e descrever. - responde Beremid. - Infelizmente estão escritos numa língua que só ela conhecia, uma língua ancestral que acabou por se perder.
- Que pena, adoraria ler tudo isto.
- Não desesperes, feiticeira, a Elianne em breve acordará e eu tenho a certeza que terá o maior prazer em partilhar connosco todos estes seus textos. - sossega o dragão admirando com curiosidade e orgulho os desenhos perfeitos e a caligrafia tão estranha, mas ao mesmo tempo tão bem feita.
Enquanto Beremid e Diana se deleitam ao observar as imagens e os escritos, Lara e eu aproximamo-nos do caixão para ver de perto aquela que sobreviveu à, suposta, Grande Catástrofe.
- Hm, com que então esta é que é a famosa Elianne. - diz Lara admirando-a de cima a baixo. - É bonita e bastante atraente, agora compreendo porque é que demoraste tanto tempo para acordar. - a demónio olha para mim de soslaio com um sorriso malandro nos lábios.
- Infelizmente uma certa desmancha prazeres acordou-me na melhor altura, não foi, Lara?
- Ai sim? E posso saber que altura era essa? - pergunta ela endireitando-se e cravando os seus olhos dourados nos meus.
- Não tens nada com isso. - respondo ignorando por completo o seu olhar.
- Não precisas de responder, sei exactamente o que aconteceu entre vocês.
- Ai sim? E o que é que aconteceu entre nós?
- Não é óbvio? A rapariguinha estava sem homem há tanto tempo que assim que te viu saltou-te para cima, não foi?
- Lara...
- Ou se calhar já estava farta de "brincar" com o seu dragão e decidiu experimentar sangue novo.
- Lara...
- Ou talvez até te tenha convidado para entrar na brincadeira com ela e o dragão, sim afinal tu nessas coisas não és lá muito esquisito, nã...
- Lara!!! - grito irritado. Beremid e Diana calam-se e olham para nós, Lara simplesmente sorri deliciada por me ver exaltado. - Mas será que tu só pensas nisso? Estou a começar a ficar farto desses teus ciúmes!!
- Ciúmes!? Eu!? Deves estar a ficar parvo, humano, achas que alguma vez iria ter ciúmes teus, ciúmes de uma criatura tão baixa que nem para me lamber as botas é digna? - explode a demónio extremamente ofendida. - Sou uma demónio de puro sangue e como tal, sentimentos como esse não me afectam, humano.
- Ai sim, tens a certeza? É que em certas alturas, pela maneira como falas e ages, até parece que estás completamente apaixonad... - a demónio dá-me uma estalada com toda a força impedindo-me de terminar a frase.
- Não te atrevas a terminar essa frase, Cav! - grita ela enraivecida. - Eu sou um demónio, ouviste? Um demónio!! Eu sou superior a esses sentimentos reles e ordinários. O amor e a paixão é própria de vocês, humanos, criaturas baixas e mesquinhas. Mete de uma vez por todas nessa cabeça de serradura que os motivos que me movem não são iguais aos teus, pouco me importa o destino dessa tipa, por mim vendia-a a um comerciante de escravos por um bom preço, ou enviava-a para os Infernos onde me serviria como serva e concubina.
- Sempre o mesmo discurso, não é Lara? - respondo afagando o rosto dorido. - Quantas vezes me pergunto se de facto isso é tão verdade como tu dizes, ou se simplesmente o usas para fugir ao que verdadeiramente sentes.
Uma vez mais a demónio tenta bater-me, mas desta vez bloqueio-lhe o golpe e apanho-lhe o pulso.
- Eu não sinto nada por ti, humano, nada! és apenas alguém que eu permito que partilhe a minha cama. - responde ela mostrando os caninos.
- Serei? - respondo cravando os meus olhos nos dela.
A demónio debate-se libertando o seu pulso e sem dizer uma palavra afasta-se enfrentando sempre o meu olhar.
- Estás bem, meu Cavaleiro? - pergunta Diana aproximando-se e examinando o meu rosto.
- Estou sim, foi apenas mais uma das nossas muitas discussões, não te preocupes. - respondo sorrindo.
- Não sabia que vocês costumavam discutir muito. - diz ela olhando para a demónio.
- Nem imaginas. - digo sorrindo. - Mas felizmente acabamos sempre por fazer as pazes.

Com os ânimos mais calmos, Beremid aproxima-se do caixão de âmbar e com extremo cuidado e carinho retira o corpo adormecido de Elianne lá de dentro. O seu olhar é quente e terno e reflecte bem a amizade e ternura que o une àquela guerreira enigmática.
- Mas ela ainda dorme, o que é preciso para a acordar? - pergunta Diana olhando com extrema curiosidade para a última dos Ploensis.
- Um de vós terá que entrar no "Mundo dos sonhos" e trazê-la consigo, é a única maneira. - responde ele sem tirar os olhos da sua protegida.
- E porque é que não fazes tu isso, dragão? - pergunta Lara desconfiada.
- Porque alguém tem de os guiar de volta e o único capaz disso sou eu.
- E quem irá? - pergunto.
- Tu, humano, ela já te conhece e confia em ti, serás o enviado perfeito. Aceitas?
- Sim, eu acei...
Antes de terminar a frase sinto uma tontura enorme e tudo à minha volta torna-se turvo antes de desaparecer por completo.
- Cavaleiro, estás bem? - pergunta uma voz doce e terna. Umas gotas de água fria escorrem pela minha testa refrescando-me e despertando-me daquilo que parecia um sonho. Abro os olhos e vejo-a de novo, sorrindo para mim com duas covinhas no rosto e com o seu olhar meigo preso no meu.
- Elianne!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

O Dragão Cinzento (3ª Parte)

- O QUÊ!!?? - exclama Lara ao ouvir aquela revelação. - Estás a querer dizer que o grande legado dos Ploensis é uma mulher!?
- Sim, demónio. - responde Beremid calmamente. - Não estou a perceber qual é o teu espanto, o conhecimento de toda uma raça pode estar contido num livro, num artefacto, ou até mesmo no último membro da sua espécie.
- Sim, sim, eu sei, mas as lendas...
- ... As lendas baseiam-se em factos reais, mas contêm muita fantasia, só um tolo é que acredita nelas piamente.
A demónio lança um olhar fulminante ao dragão ao ouvir aquelas palavras.
- E perdemos nós este tempo todo só para nos encontrarmos com uma velha gágá que certamente nem se lembra do próprio nome! - rosna a demónio virando-nos as costas e dando um pontapé na sólida porta de ferro.
- Acalma-te, Lara, tenho a certeza que essa tal de Elianne é muito dotada, senão não a teriam escolhido para ficar neste Mundo. - intervém Diana.
- Mas ninguém a escolheu, ela foi a única que sobreviveu à Grande Catástrofe. - diz Beremid sem perceber o que queria Diana dizer com aquilo.
- Que catástrofe? - perguntamos os três em uníssono olhando uns para os outros.
- Aquela que dizimou todos os Ploensis, vocês não estudaram isso na escola? - pergunta Beremid surpreendido.
- Mas toda a gente sabe que os Ploensis se cansaram deste Mundo e partiram para outro, esse período da nossa História está definido como a Terceira Grande Migração. - respondo.
- Eu não sei que dizer. - responde o dragão. - Mas vocês estão todos enganados, foram ludibriados, os Ploensis não partiram para outras terras, extinguiram-se, foram consumidos pela sua sede de poder.
- Não pode ser, dragão, deves ter batido com a cabeça em qualquer lado, temos provas da sua partida e a palavra de honra de cada um dos membros do antigo Conselho dos Onze. - contrapõe Lara.
- E o testemunho vivo de alguns dragões que presenciaram o momento em primeira mão. - diz Diana.
- Não, não, não! Estão todos a mentir, eu estive lá, eu assisti a tudo! - diz Beremid abanando a sua cabeça e olhando para o vazio como se estivesse a relembrar algo. - Eu lembro-me de tudo como se tivesse acontecido ontem, observei grandes actos de coragem, presenciei intrigas mesquinhas e cobardes, assisti às traições mais infames e ri e chorei conforme o desenrolar da trama... - o dragão cala-se por uns instantes e uma pesada lágrima escorre pelo seu focinho cinzento. - Eu... Eu compreendo porque quiseram esquecer, porque tentaram mudar o passado... Foi uma época de grande sofrimento, dor e mágoa... Teria sido o fim de tudo se Elianne e o seu amado Johan não tivessem intervido...
- Será que nos podes contar o que aconteceu? - pede Diana sentindo uma profunda simpatia pelo dragão.
- Talvez noutra altura, não agora, não me sinto em condições para contar toda essa história.
- Mas podes ao menos contar-nos porque é que a Elianne foi a única sobrevivente? - pergunto com curiosidade.
- Sinceramente não te sei responder a isso, humano, também eu anseio em sabê-lo, mas ela fecha-se em copas quando lhe pergunto e tranca-se na varanda mais alta do seu castelo.
- Castelo!? Mas que castelo!? Encontramo-nos num lugar esquecido pelos próprios Deuses, tu estás é louco dragão e alguém devia acabar com o teu sofrimento de uma vez por todas. - diz Lara sem acreditar numa só palavra.
- Demónio! - diz Beremid arfando irritado. - Estou a começar a ficar farto de ti.
- Mas desculpa que te diga, mas ela tem uma certa razão, falas de algo que para nós nunca aconteceu e afirmas que existe por aqui um castelo quando a única coisa que vemos é esta horrível porta de ferro. Por favor, tenta compreender o nosso cepticismo. - diz Diana defendendo a sua companheira.
Beremid solta um pesado suspiro.
- Eu compreendo... O castelo de que falo não se encontra nesta realidade, situa-se noutra onde apenas os nossos espíritos podem entrar, numa espécie de "mundo dos sonhos", digamos assim.
- E o que está por detrás desta porta? - pergunto.
- Vê por ti mesmo.

As paredes dos corredor tremem ligeiramente e um agudo som metálico de um trinco propaga-se pelo ar. A pesada porta de ferro range e geme ensurdecedoramente e lentamente começa a abrir-se. Um espesso fumo branco é libertado do seu interior e um gelo insuportável espalha-se à nossa volta fazendo-nos estremecer involuntariamente. Uma luz amarelada acende-se imediatamente focando-se sobre um belo e ornamentado caixão de âmbar. No seu interior encontra-se uma mulher muito bela que aparentemente dorme profundamente.
- Prepara-te, ó príncipe, pois a tua Bela Adormecida espera pelo teu beijo. - diz Lara num tom jocoso e dando-me um empurrão.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

O Dragão Cinzento (2ª Parte)

Ao ouvir o seu nome o dragão endireita-se e lança-me um olhar mais intenso e perscrutador como se estivesse a ler a minha alma. Lara e Diana fitam-me surpreendidas tentando perceber como poderia eu conhecer tão curiosa criatura enquanto que Léon aproveita a distracção de todos para investigar a toca de Beremid e apoderar-se de algum ouro ou objecto valioso.
- Esse é o meu nome, humano, mas poderei saber de onde me conheces? - pergunta o dragão com a sua voz forte.
- Sim Cav, diz-nos de onde o conheces, eu também estou curiosa. - intromete-se a demónio.
- Eu não sei, de repente esse nome veio-me à cabeça como se já nos tivéssemos cruzado antes. - respondo. - Mas de alguma forma sinto que falta alguém...
- E quem é esse alguém, humano? - pergunta o dragão ocultando um sorriso como se soubesse a resposta.
- Sim, quem? - volta a perguntar a demónio com uma crescente curiosidade na voz.
Diana nada diz, limita-se a olhar para mim esperando paciente ou impacientemente pela resposta.
- Uma mulher... - respondo absorvido em rasgos de recordações soltas e incertas. - Elia... Não me recordo do seu nome, apenas dos seus olhos... - esboço um pequeno sorriso ao lembrar-me do seu perfume e do beijo trocado sob o olhar do Universo.
- Elianne! - diz Beremid. - O seu nome é Elianne, humano. Eu lembro-me de ti, és o guerreiro que apareceu misteriosamente no seu jardim ainda há pouco. Não sei o que lhe fizeste, mas deixaste-a radiante e mereces o meu respeito por isso.
- Espera um pouco. - interrompe Diana. - Como assim ainda há pouco, ele esteve sempre connosco, não foi a jardim algum.
- Existem tantos mundos e tantas realidades em que apenas o espírito pode viajar...
- Isso quer dizer que...
- ... Que enquanto nós nos preocupávamos com o Cav, estava ele a fazer não sei o quê com a tal de Elianne. - termina a demónio olhando para mim.
- Eu não acredito! Eu a pensar no pior e tu a divertires-te! - exclama a feiticeira indignada.
- Mas eu...
Lara aproxima-se de mim beijando o meu pescoço e murmurando ao meu ouvido:
- Não sejas tão modesto Cav, partilha comigo o que lhe fizeste ou o que ela te fez. - diz ela num tom de voz doce e sedutor. - É melhor que eu na cama? Será que te dá mais prazer do que eu? Satisfaz todas as tuas fantasias?
- Lara, pára! - afasto-a irritado. - Não estou com disposição para os teus ciúmes, especialmente quando não me consigo lembrar muito bem do que aconteceu.
- Do que te lembras, então? - pergunta Diana.
- Eu não quero falar sobre isso! - respondo. - Beremid, onde está ela, porque é que não está contigo?
- Mas é por ela que vocês aqui estão, vocês querem o que está atrás desta porta, estarei certo?
- Sim, nós queremos todo o conhecimento dos Ploensis. - responde Lara.
- Mas o que queres dizer com isso do "é por ela que vocês aqui estão"? - pergunto.
- Simples, a Elianne é a última dessa antiga e poderosa raça!

sábado, dezembro 23, 2006

O Dragão Cinzento

A pequena bola de luz criada por Diana serpenteia à nossa volta afastando as trevas e iluminando o sinistro corredor. Lara segue na frente lendo o mapa, seguida de perto por Léon, eu e a feiticeira caminhamos um pouco mais atrás silenciosos e expectantes.
- Deves estar desiludido comigo, meu Cavaleiro, deves estar a pensar que sou uma medricas. - diz Diana sem olhar para mim.
- Por que haveria de pensar isso, por causa da maneira como reagiste ainda agora? - pergunto encarando-a surpreendido.
- Sim...
- Afasta esses pensamentos parvos, minha feiticeira, tu sabes bem que eu nunca iria pensar uma coisa dessas de ti. - respondo tentando animá-la. - Somos humanos, carregamos dentro de nós medos que não conseguimos entender nem controlar.
- Eu sei, mas eu sou uma feiticeira, ora bolas! eu fui treinada desde pequena para controlar os meus medos, para me manter calma quando tudo à minha volta se desmorona. - diz ela fitando-me com os seus olhos verde esmeralda. - Eu falhei, meu Cavaleiro, eu falhei!!
Páro e envolvo-a nos meus braços beijando a sua testa.
- Não sejas tão dura contigo mesma, tu não falhaste, tu salvaste-nos. Por mais poderosa que sejas, por mais disciplina que tenhas, tu nunca vais deixar de ser humana, vais ter sempre que conviver com as fraquezas que acompanham a nossa espécie.
Uma lágrima escapa-se dos seus olhos escorrendo pelo seu belo rosto.
- Eu sei, eu sei... - diz ela pousando a sua cabeça sobre o meu ombro. - Mas a imagem e o medo de te ver morto deixou-me desesperada e descontrolada... Pregaste-me um grande susto ainda agora, sabias? Ao ver-te inconsciente daquela maneira e durante tanto tempo, ai, tive tanto...
Coloco ternamente um dedo sobre os seu lábios impedindo-a de terminar a frase.
- Shh, não digas mais nada. - sorrio passando a mão sobre o seu cabelo. - Continuas precisamente na mesma, sempre preocupada comigo e a pensar no pior.
- Não consigo evitar, tu és como um irmão mais novo para mim, sinto uma profunda necessidade de te proteger. - diz ela sorrindo. - Acho que já é hábito, quando éramos mais novos estava sempre pronta para te salvar dos sarilhos em que te metias.
- Ai sim? - respondo eu surpreendido. - Mas se eu bem me lembro quem andava sempre metida em sarilhos eras tu...
- Detalhes, detalhes!! - diz ela rindo e abraçando-me com força. - Eu adoro-te, meu Cavaleiro, promete-me que nunca mais nos vamos separar.
- Eu prometo! - digo sorrindo e abraçando-a com a mesma intensidade.
- Por Lukthar! - interrompe Lara aparecendo subitamente. - Mas vocês humanos além de serem uns medricas passam a vida aos abraços e aos beijinhos?
- O que se passa, Lara, estás com ciúmes?
- Se calhar ela também quer um beijinho e um abraço. - diz Diana picando-a.
- Agora não, quem sabe mais logo, mas aí vou querer bem mais do que um simples beijo ou abraço de ambos. - diz ela sorrindo maliciosamente. - Mas de momento temos um prémio para resgatar, por isso menos lamechice e mais acção!

A escuridão vai desaparecendo lentamente e o corredor vai-se tornando cada vez mais luminoso. Chegamos por fim a uma pesada e impressionante porta de ferro, o seu aspecto é simplesmente assustador, caveiras esculpidas no metal parecem gritar num sofrimento eterno, enormes espigões avermelhados apontam na nossa direcção mostrando orgulhosamente o sangue seco que os cobre.
- Chegámos finalmente! - exclama Lara eufórica. - Agora só temos que encontrar uma maneira de abrir isto.
- O papiro o que é que diz? - pergunto mirando com desdém a aparência da porta.
- Nada, desde as sete portas que estamos a caminhar em terreno desconhecido. - diz Diana.
- Vocês já repararam nesta estátua? Parece um dragão... - diz Léon aproximando-se dela para a ver melhor.
- Um dragão!? - exclamamos os três em uníssono guiando o olhar para o local onde Léon se encontra.
- Deditos, se eu fosse a ti recuava muito lentamente.
O ladrão vira-se para a demónio irritado.
- Lara, pela milésima vez peço-te que não me voltes a tratar assim. Além do mais, porque é que deveria recuar, esta estátua pode ser a chave que procuramos.
- Pois pode... Mas já viste alguma estátua respirar, Léon? - diz a feiticeira calmamente.
- Respirar? Claro que não, as estátuas não respiram, apenas as criaturas vivas o faz... - O ladrão apercebe-se então de que a "estátua" o fita com olhos de poucos amigos e segue o conselho da demónio começando a recuar muito lentamente.
O dragão abre a sua enorme boca e solta um urro assustador propagando saliva e baba em todas as direcções.
- Esta porta está guardada por mim, criaturas inferiores, e se querem o que está lá dentro terão de me provar que são dignos.
- Bolas, mas será que aguentar este fedor e levar com um banho de baba não é razão suficiente? - murmura Lara limpando o rosto.
- Tento na língua, demónio, ou o próximo odor que irás sentir será o do meu estômago. - rosna o dragão cinzento. - Como disse, terão de me provar que são di... O que se passa humano, será que nunca viste um dragão antes?
O dragão olha para mim com curiosidade e eu não consigo deixar de pensar que já o vi em qualquer lado, a ele e a mais alguém.
- Beremid, és tu? - pergunto sem saber de onde me surgiu o nome.

Medos

Um espesso manto negro abate-se sobre nós à medida que nos embrenhamos cada vez mais pelo novo corredor, a luz das nossas tochas vai-se esmorecendo, sugada pelas trevas esfaimadas, até desaparecer por completo e lançar-nos na mais sombria escuridão. Tentamos a todo o custo reacender as nossas lanternas, mas nem uma faísca conseguimos produzir, as sombras parecem ser donas e senhoras deste local impedindo a formação da mais pequena porção de luz. As trevas começam então lentamente a mexer na nossa mente, o silêncio absoluto e o medo primário da ausência de luz forçam-nos a imaginar sons, barulhos estranhos e a ver coisas que simplesmente não existem. Tento lutar contra este temor irracional, mas é mais forte que eu, o instinto de sobrevivência obriga-me a levar a mão à espada e defender-me dos "perigos" que me cercam. Imagens e sons de monstros horrendos, de demónios sanguinários e outras criaturas, que a minha mente fértil insiste criar em questões de segundos, fitam-me por entre a escuridão, esperando apenas o momento certo para me atacar. Subitamente uns olhos dourados emergem das sombras e avançam na minha direcção, com um movimento rápido desembainho a minha espada e preparo-me para os atacar, um grito de uma mulher ecoa então pelo ar e uma forte luz branca afugenta as trevas que nos cercam.
Estremeço ao ver o rosto de Lara diante de mim, a lâmina da minha espada parou a escassos milimetros do seu pescoço.
- É melhor guardares isso, Cav, ou ainda magoas alguém. - diz ela esboçando um sorriso mas não conseguindo esconder a profunda surpresa estampada no seu olhar.
- Eu... Desculpa-me... Eu não queria...
- Eu sei, não precisas de pedir desculpa.
Sorrio para ela e olho em volta, ao que parece não fui o único a sucumbir ao medo do escuro, Léon encontra-se a poucos metros de mim olhando igualmente em volta sem saber o que lhe aconteceu, e Diana jaz no chão cercada de uma luz branca muito intensa murmurando palavras incompreensíveis e limpando os olhos mergulhados em lágrimas.
- Humanos... - comenta a demónio abanando a cabeça e sorrindo desdenhosamente ao ver-nos assim.

sábado, dezembro 16, 2006

Um Sonho?

A misteriosa mulher senta-se à minha frente fitando-me com os seus olhos curiosos, os seus lábios comprimem-se sedutoramente soprando sobre a fumegante caneca de chocolate quente que segura com ambas as mãos. Observo-a encantado sem saber o que dizer ou fazer preso àquele olhar tão doce e terno e no entanto tão misterioso.
- O que se passa - pergunta ela cortando o silêncio. - não estás com vontade de provar o chocolate que te ofereci?
As suas palavras despertam-me do seu encantamento fascinante e dou-me conta que o calor da caneca que seguro com ambas as mãos se começa a tornar insuportável.
- S-sim... Eu... Desculpa. - gaguejo atrapalhadamente. - Mas estou simplesmente encantado e fascinado com tudo o que me mostraste. Este teu castelo é... único...
- Sim... - responde ela com um sorriso. - Foi feito com amor e carinho, isso torna-o muito especial e único. Mas coloquemos o meu castelo de lado, fala-me de ti, há tanto tempo que não tenho uma visita.
- Mas como é isso possível, este lugar é extraordinário e tu és uma mulher fantástica, como podes viver assim em quase total isolamento?
- Uma mulher fantástica? Como podes afirmar uma coisa dessas se só me conheces há poucas horas? - pergunta ela pousando a caneca na mesa e tentando esconder um ligeiro rubor.
- Pelo teu olhar e pelo teu sorriso. E, desculpa por te dizer isto, mas quanto mais tempo estou contigo, mais me vem à cabeça a ideia de que te conheço de alguma forma.
- Deve ser impressão tua, guerreiro, nós nunca nos cruzámos antes...
- Eu sei... Esquece, não ligues ao que digo, deve ser da excelente hospitalidade a que estou a ser sujeito. - digo piscando-lhe o olho e provando um pouco da sua bebida. - Sou apenas um homem que gosta de viajar e viver aventuras, ajudar e conhecer pessoas novas e interessantes.
- E o que te traz aqui, alguma aventura?
- Sim... Eu, a Lara, a Diana e um outro chamado León estávamos à procura de uma câmara que supostamente guarda um conhecimento fabuloso, todo o conhecimento de uma raça chamada Ploensis.
- E para que queres tu tal conhecimento, segundo as lendas, ele é deveras poderoso e mortal, queres tornar-te senhor do Mundo? - pergunta ela enterrando o seu olhar no meu esperando impacientemente pela resposta.
Solto uma gargalhada ao ouvir tal pergunta.
- Eu, senhor do Mundo? Pelos Deuses, claro que não!! Eu já fui um senador da República e acredita, a política não é para mim, demasiada burocracia. Eu quero é viver a vida, um dia de cada vez e quem sabe viver um ou dois sonhos.
- Poderei saber com que sonhas?
- Com o amor, amar e ser amado... Por uns tempos esse sonho concretizou-se, mas depois... Depois o sonho tornou-se um pesadelo, perdi-a, perdi-me... Mas o sonho, esse, ainda se mantém, mais forte que nunca. - Volto a beber um golo do delicioso chocolate e evito o seu olhar.
- Desculpa, eu não sabia que estas minhas perguntas te fariam relembrar coisas tão dolorosas.
- Não faz mal...
- Faz sim. - ela levanta-se e pega-me pelo braço. - Anda, quero mostrar-te o meu sítio favorito, aquele para onde vou quando estou em baixo.
- Mas...
- Não há mas, nem meio mas, tu vens comigo, Cavaleiro sonhador! - diz ela com um sorriso tão doce e terno que não sou capaz de recusar. A guerreira conduz-me por várias salas e salões, por vários lances de escada até que se detém por fim diante de uma porta de madeira. - Vou pedir-te que feches os olhos, quero que fiques surpreendido quando os abrires. Confias em mim?
- Sim!
- Ainda bem. Dá-me a tua mão. - fecho os olhos e ouço a porta a abrir-se muito lentamente, logo de seguida sinto-me a ser conduzido para uma sala cujo o ar leve e fresco me dá a impressão de estar a levitar. - Podes abrir os olhos. - diz ela.
Abro-os lentamente e o cenário que se revela diante de mim faz-me estremecer e por pouco não caio no chão, tal é a fraqueza que sinto nas pernas. Encontro-me na varanda da torre mais alta do castelo, à minha frente parecem estar concentrados todos os planetas e estrelas do Universo, as constelações que tanto fazem sonhar e os cometas que viajam através do espaço sideral indiferentes ao olhar de criaturas tão pequenas e insignificantes.
- Pelos Deuses, eu só posso estar a sonhar. Eu adoro olhar para o céu de noite, de contemplar as estrelas ao longe, mas vê-las assim de tão perto são ainda mais espectaculares e mágicas do que me atrevia a imaginar...
- São sim, este cenário tão belo deixa-me sempre maravilhada e encantada.
- Sim... Compreendo-te perfeitamente...
- Cavaleiro?
- Sim?
- Ainda agora, quando me disseste que tinhas a sensação de que me conhecias de qualquer lado o meu coração disparou, a verdade é que eu também senti o mesmo.
- Sentiste?
- Sim... Por isso é que te quis mostrar este meu pequeno reino privado. Eu sinto que posso confiar em ti, sinto que já estive contigo há muito tempo...
- E no entanto nunca nos vimos antes. Como pode ser isto possível? - pergunto afagando carinhosamente o seu cabelo.
- Não sei, sinceramente não sei... - responde ela colocando os seus braços à volta do meu pescoço e aproximando os seus lábios dos meus. - Tudo o que sei é que desde que te vi que te quero fazer isto...
Diante daquela visão extraordinária trocamos um forte e demorado beijo.
- Que loucura, eu nem sei como te chamas, guerreira misteriosa.
- Não seja por isso, bravo guerreiro, o meu nome é Elia... - um grito indistinto vindo de não sei de onde impede-me de ouvir o seu nome.
- Não percebi, guerreira, repete-mo. - peço imerso num encantamento profundo.
- Elia...
- Cav!!! - volto a ouvir gritar.
- C-como?
- CAV, ACORDA!!!!
Os gritos vão se tornando mais intensos e distintos e tudo à minha volta se começa a desfazer. A guerreira tenta segurar-me, manter-me perto de si, mas uma força maior puxa-me não sei para onde, estendo o braço tentando tocar-lhe, mas ela já está longe, fora do meu alcance. As imagens vão-se desmoronando uma a uma e a última coisa que vejo são os seus olhos grandes e curiosos agora tristes e saudosos por me perder uma vez mais...

- Cav!! Cav!!! - grita a voz. Sinto uma dor aguda no rosto e depois vejo os olhos dourados de Lara diante de mim. - Humano estúpido! O que te deu para desmaiares dessa maneira?
- Desmaiei? - pergunto confuso.
- Sim, seu idiota. - continua a demónio. - Ia ficando rouca de tanto chamar por ti.
- Rouca e com a mão dorida com tantas estaladas que lhe deste. - diz Diana sorrindo.
- Está calada, feiticeira! - rosna a demónio. - O que é que te aconteceu, parvalhão?
- N-não sei... Não me lembro... - respondo confuso. - Mas obrigado por estares tão preocupada comigo. - A demónio volta a dar-me uma estalada no meu rosto já dorido. - Hey, para que é que foi isso?
- Ainda estás a dizer parvoíces, por isso foi para te acordar de vez!! - responde ela levantando-se.

sábado, dezembro 09, 2006

O Castelo nas Nuvens

O dragão ajoelha-se na erva alta permitindo à mulher que desmonte com suavidade, no olhar de ambos está estampado um profundo respeito e carinho como se uma forte amizade e amor os unisse. A guerreira deixa-se ficar perto do seu companheiro afagando o seu dorso e observando-me com viva curiosidade e atenção.
- Posso saber como vieste parar aos jardins do meu castelo, guerreiro? Neste pequeno espaço a que tenho orgulho de chamar meu, só entra quem eu quero, e se a memória não me falha, não te enviei nenhum convite...
- Peço desculpa se invadi os teus jardins, não foi por minha culpa, foi uma porta mágica que me guiou até aqui, a mim e aos meus companheiros.
- Companheiros? - pergunta o dragão na sua voz forte e poderosa. - A que companheiros te referes, humano?
- Refiro-me a mais três parceiros de viagem, dragão, uma feiticeira de nome Diana, um ladrão de nome Léon e um demónio de nome Lara.
- Um demónio!? - exclama a mulher levando a mão a uma espada até então oculta. - Pelo teu ar e pelo teu olhar imaginava-te um guerreiro do bem e da justiça, não um mercenário das hostes infernais. - O dragão imita o gesto da sua parceira colocando-se em posição de combate e abrindo a boca mostrando os seus dentes enormes.
Como que por instinto, Aragoth activa-se cobrindo todo o meu corpo com uma armadura mágica preparada para me defender do perigo.
- Eu já pensei como tu, guerreira, mas depois conheci a Lara e tudo aquilo que eu pensava conhecer sobre os demónios se desfez em pó. Baseias os teus conhecimentos em preconceitos e em meras superstições, nem todos os demónios são maus e nem todos os anjos são bons. - respondo levando por precaução a mão à espada.
- Mesmo assim, um demónio é sempre um demónio. - responde ela teimosa.
- E um dragão é sempre um dragão. - respondo encarando sem medo o olhar da besta. - Sou um Cavaleiro que já viu e passou por muita coisa, a verdade é que nem tudo é o que parece, o medo do desconhecido faz-nos temer as coisas, por vezes sem razão. - desembainho lentamente a espada e atiro-a para o chão. - Sou amigo e amante de uma demónio, sim, e não me arrependo disso! mas se na tua óptica a minha mera amizade para com ela me transforma num ser desprezível e odioso, então tenho pena de ti, pois és pobre de espírito e um poço de preconceitos.
A mulher olha para mim incrédula e depois sorri com doçura.
- És um homem corajoso, guerreiro, e ao que parece um sonhador inveterado, como eu... Peço desculpa se te ofendi de algum modo, mas nos tempos que correm todo o cuidado é pouco. És bem-vindo ao meu jardim e ao meu castelo, por favor segue-me, és meu convidado. - a guerreira volta a montar o seu dragão e no céu um castelo suspenso sobre uma gigantesca e fofa nuvem branca, aparece como que por magia.
- Espera! E os meus amigos, onde estão eles? - pergunto.
- Sinceramente não te posso responder a isso, bravo guerreiro, pois apenas tu apareceste no meu jardim. Confia em mim e segue-me, talvez as respostas que procures estejam mesmo à tua frente.
Monto no dorso do enorme dragão cinzento abraçando firmemente a cintura daquela misteriosa guerreira para não cair. O solo afasta-se rapidamente e um vento frio bate-me no rosto transportando consigo o delicioso aroma da pele suave desta mulher enigmática, fecho os olhos e por momentos esqueço-me da minha missão e do destino dos meus companheiros, em especial do da Lara, e simplesmente deixo-me guiar pela mão invisível da Fortuna.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

A Câmara do Conhecimento (3ª Parte)

As portas levitam levemente soltando suaves faíscas de pura luz branca, tentamos em cada uma delas encontrar uma pista que nos indique o caminho correcto, mas tal não é possível, entre este lado e o outro encontra-se um véu de luz brilhante que nos impede de ver e ouvir o que se encontra do outro lado. Apenas nos restam as inscrições, sete pequenas frases que espalham ainda mais a confusão e a indecisão.
- Ora bem, estamos aqui há horas e ainda não chegámos a uma conclusão, qual é para vocês o caminho correcto? - pergunta uma vez mais Diana cansada de tanto ler e reler as frases.
- Outra vez essa pergunta, feiticeira? Cada um de nós tem uma interpretação diferente, por isso acabamos sempre por escolher portas diferentes. - responde Lara sem paciência.
- Eu sei, Lara, eu sei, mas temos que escolher uma, por isso esta é a pergunta mais lógica, qual delas?
- Não é a única pergunta lógica. - respondo. - Se estamos com dificuldades em escolher a verdadeira podemos ao menos marcar desde já as erradas, isto simplificaria um pouco mais as coisas, não concordam?
- Sim, simplificaria e muito. - responde a feiticeira com um sorriso. - Podemos então concluir sem sombra de dúvida que a segunda porta é falsa, certo?
- Certo! - respondemos os três em uníssono.
- Óptimo, uma já está, faltam seis.
- Por essa ordem de ideias a sexta porta também é falsa, concordam? - pergunta Lara.
- Sim! - voltamos a responder em uníssono.
- A primeira e a quarta não me cheiram, soam-me a armadilhas. - afirma Léon.
- Sim, especialmente essa do sorriso e da voz, parece uma conversa daquelas criaturas que atraiem os viajantes para uma morte horrorosa. - diz a demónio.
- Muito bem, outras duas eliminadas. - digo sorrindo. - Agora só faltam três... Esta do Midas é tentadora, mas estamos à procura de conhecimento e não de ouro, por isso não é lógico seguir por aqui.
- Mas nós não sabemos o que podemos encontrar, até pode haver bastante ouro guardado. - diz rapidamente Léon com um brilho no olhar.
- Pode haver, mas concordo com o Cav, não é de ouro que estamos à procura, por isso para mim a porta é falsa. - argumenta Diana.
- Detesto dizer isto, mas eles têm razão, Léon, não viemos atrás de ouro, viemos atrás de algo bem mais poderoso e influente. - responde Lara. - Além disso, esta última parte cheira-me a armadilha, eu também acho q a porta é falsa.
- Mas...
- São três votos contra um, a terceira porta foi descartada, meu caro. - corta a feiticeira.
- Já viram, só nos faltam duas! - exclama Lara confiante. - Hm... Para mim a verdadeira é a sétima.
- Tem alguma lógica, o que é que está sempre connosco, não é a aprendizagem, o conhecimento, a experiência que vamos adquirindo desde o nascimento até à morte? - responde Diana.
- Sim, é de facto uma inscrição tentadora, mas soa-me a algo bem diferente. - opina Léon.
- Também acho, vendo por outro prisma esta companheira ideal parece ser a Morte... - respondo.
- Mas a outra porta fala em pesadelos, n...
- Mas também fala em sonhos, Lara, e o conhecimento não pode ser uma faca de dois gumes, um sonho e um pesadelo? - respondo.
- Talvez, mas...
- "... ou de nada ficarás ciente...", para mim é a porta verdadeira.
- Mas...
- Começo a concordar com o Cavaleiro, Lara, a quinta porta parece ser a verdadeira.
A demónio olha para cada um de nós visivelmente irritada por ser contrariada, mas acaba por se render às evidências.
- Está bem, eu aceito as vossas opiniões, a verdadeira é a porta nº 5, mas pelo sim pelo não mandamos o Léon primeiro, se lhe acontecer alguma coisa seguimos pela "minha" porta. - diz ela olhando para o ladrão com um sorriso malicioso.

O cheiro desagradável dos esgotos e o irritante zumbido das portas dão lugar a um aroma perfumado de flores do campo e ao som de água a cair. Diante de mim encontra-se um belo jardim salpicado de flores e árvores esplendorosas que emanam cheiros e odores vários, todos eles maravilhosos; uma magnífica cascata de águas cristalinas parece gritar de vida mesmo ali ao lado, dando origem a um pequeno lago soberbo e cheio de vida.
- Pelos Deuses, estarei eu no paraíso?! - exclamo ante este cenário divino.
- Claro que não, guerreiro, estás no "meu" jardim!
Viro-me na direcção da voz e encontro uma bela mulher de olhos grandes e curiosos envergando um vestido vermelho e montando um enorme dragão cinzento.

segunda-feira, novembro 27, 2006

A Câmara do Conhecimento (2ª Parte)

A sete portas mágicas parecem flutuar em pleno ar libertando uma luz branca muito viva, delas emana um leve zumbido e uma ténue vibração que faz ondular as águas estagnadas e extremamente poluídas dos esgotos. A surpresa está estampada nos rostos de cada um de nós, isto não devia ter acontecido, segundo o pergaminho apenas uma porta se devia ter aberto, a porta que conduziria ao conhecimento supremo.
- Sete portas?! Mas que brincadeira vem a ser esta!? Diana, mas o que é que tu fizeste? - pergunta Lara incrédula.
- Eu limitei-me a seguir as palavras mágicas como ensaiamos ontem, demónio, não me venhas atirar as culpas. - defende-se a feiticeira.
- Alguém tem que ser reponsável por isto, se não foste tu então quem foi? - pergunta Lara olhando desconfiadamente para Léon.
- Hey, não me venhas pôr as culpas em mim, miúda, não tenho nada a ver com isto, vocês é que percebem destas coisas, não eu. - apressa-se Léon a justificar.
A demónio rosna irritada olhando para cada uma das portas sem saber qual escolher.
- É melhor acalmares-te, Lara, de cabeça quente não vamos a lado nenhum. - digo serenamente. - Aliás, eu nem sei qual é o vosso espanto, eu estava a achar isto tudo muito fácil, para mim até é uma sorte que esses tais Ploensis não tenham posto um desafio mais perigoso.
- O que queres dizer com isso? - pergunta a demónio fixando o seu olhar dourado em mim.
- Tu achas que eles iriam deixar qualquer um ter acesso aos seus conhecimentos, às suas magias, aos seus segredos, sem ter que provar que se é merecedor? Sabes tão bem quanto eu que uma raça tão orgulhosa, como tu dizes que eles eram, teriam que colocar vários testes e puzzles.
- Tens razão, tens toda a razão. - diz Diana pensativamente. - Para cada teste tem de haver uma solução, mas onde estará ela, perdida nalgum outro pergaminho longe daqui?
- Pode estar no nosso pergaminho, talvez escondida por alguma magia poderosa. - opina Léon.
- Ou talvez aqui mesmo. - diz Lara com um sorriso nos lábios. - Lembras-te de quando ficámos presos naquele templo maldito rodeados de mortos vivos que saíam do chão? A chave estava no tecto, logo a resposta pode estar também por aqui.
Avivados por esta nova hipótese começamos a procurar nas paredes e no tecto por inscrições ou pistas que nos possam ajudar a formular uma solução, o que encontramos deixa-nos ainda mais perplexos. Ao lado de cada porta existe uma pequena frase, uma frase que supostamente traduz o que iremos encontrar, eis as incrições:

1ª Porta: Terras de Fogo, Terras de Mar, a verdade é que nunca ninguém sabe onde irá parar...
2ª Porta: Um passo para a frente, Um passo para trás, por mais que se tente daqui nunca mais sairás...
3ª Porta: Ouro queres, Ouro terás, mas não sejas muito avarento ou como Midas acabarás...
4ª Porta: A voz é doce e o Sorriso é quente, Segue-me e encontrarás um belo presente...
5ª Porta: Sonhos e Pesadelos estão mesmo à tua frente, sê célere a decidir ou de nada ficarás ciente...
6ª Porta: A Vida é uma flor, tens de a tratar com Amor, pois se a desprezas por caminhos tortuosos te enveredas...
7ª Porta: Estou contigo quando nasces, estou contigo quando cresces e envelheces, estou contigo no principio e estou contigo no final, admite, eu sou a tua companheira ideal...

- Pelos Deuses, ainda estou mais confusa que antes. - diz Lara olhando para as incrições. - E agora, qual delas indica o caminho correcto?

sexta-feira, novembro 24, 2006

A Câmara do Conhecimento (1ª Parte)

O saboroso aroma de bolinhos e café acabadinhos de fazer invade o quarto despertando-me do meu sono leve e revigorante; uma voz doce e melodiosa propaga-se pelo ar entoando uma canção élfica muito antiga e bela anunciando a aurora que está prestes a nascer. Lara ainda dorme profundamente, o seu sorriso de satisfação reflecte o prazer de uma noite exaustiva em que a loucura e o desejo se fundiram num só sentimento e nos levaram, quase literalmente, ao paraíso. Beijo-lhe a testa e levanto-me seguindo o delicioso aroma e o som encantador.
- Não mudaste nada, Diana, ainda continuas com o velho hábito de te levantares cedinho e fazeres o pequeno almoço. - digo sorrindo observando a feiticeira que segura uma travessa de bolinhos de côco ainda quentes.
- Posso ter muitos defeitos, meu Cavaleiro, mas ainda me lembro de receber bem os meus convidados e hóspedes. - responde ela limpando as mãos no seu avental amarelo. - Vem sentar-te e provar os meus bolinhos antes que comeces aí a salivar.
Sentamo-nos em frente um do outro degustando os biscoitos e o delicioso café exótico.
- Dormiste bem, minha feiticeira?
- Podia ter dormido melhor se não fossem os gemidos e os gritos do quarto ao lado. - responde ela calmamente sorvendo a sua bebida e observando a minha reacção.
A sua resposta apanha-me completamente de surpresa e engasgo-me com o café.
- Pois... Eu peço desculpa... - digo aflito atropelando-me nas palavras.
- Não há problema, ao menos há alguém que tem um pouco de acção nesta casa. - continua ela calmamente com os seus olhos verdes esmeralda fixos em mim.
- Sua safada, tu estás a adorar ver-me assim, não estás?
- Claro que estou, lembra-me os nossos tempos de juventude, em que eu te apanhava ou em que tu me apanhavas fazendo o que não devíamos. - responde ela com um sorriso pousando a chávena.
- Bons velhos tempos, não tínhamos preocupações nem responsabilidades... - digo bebendo mais um pouco do meu café.
- Sim... Olha lá, que história era aquela de me quererem levar para a cama? - pergunta ela com o seu tom de voz calmo e pausado voltando a fixar os seus olhos em mim.
Engasgo-me de novo derramando o que resta do café sobre a toalha.
- Bolas, mas tu hoje queres matar-me!? - exclamo aflito e muito corado. - Estavas a ouvir-nos!?
- Eu sou uma feiticeira, meu Cavaleiro, eu sei de tudo o que se passa aqui dentro da minha casa, tudo! - Diana volta a esboçar o seu sorriso de satisfação e de triunfo por me ter deixado completamente envergonhado como fazia quando éramos mais novos.
- Tu não és uma feiticeira, tu és é uma grande pervertida e uma voyeur!
- Olha quem fala! - diz ela rindo. - Mas está bem, eu páro, acho q já te embaracei o suficiente por hoje.
- Porque é que eu tenho o pressentimento que isso não é verdade? - respondo sorrindo.
- Parece q vais ter simplesmente que confiar em mim...

Um cheiro a podre invade as minhas narinas assim que a tampa da sarjeta é aberta, esta é, infelizmente, a única maneira de chegar à câmara onde todo o conhecimento dos Ploensis está armazenado.
- As coisas que somos obrigados a fazer para alcançar o conhecimento supremo... - comenta Diana tapando o nariz e iniciando a sua descida.
Os corredores escuros e sujos parecem estender-se por quilómetros sem fim como um labirinto traiçoeiro, os ratos e as serpentes fogem de nós assim que a luz das tochas e o brilho do bastão de Diana os ilumina; Lara segue na frente, lendo o mapa, seguida de muito perto por Léon, a feiticeira e eu seguimos um pouco mais atrás procurando acompanhar o passo ligeiro da assassina e do ladrão. Chegamos finalmente ao local indicado, uma encruzilhada de túneis que se prolongam pelas trevas adentro como se fossem gargantas de um monstro de várias cabeças.
- Segundo o mapa estamos no sítio certo. - afirma Lara com um sorriso no rosto. - Agora só temos que usar o artefacto e uma porta abrir-se-á para nós.
Diana avança para o centro segurando firmemente o objecto na sua mão direita, na noite anterior ela e Lara ensaiaram as palavras mágicas que o iriam activar, palavras essas que embora uma criatura de pura magia, como um demónio, compreendesse perfeitamente não as podia entoar, só alguém que tivesse domado a arte arcana.
As palavras são então ditas em alto e bom som, mas nada parece acontecer, Diana volta a repeti-las, mas sem sucesso, algo não está a funcionar.
- Cav, tu disseste-me que ela era uma boa feiticeira, isto deveria funcionar. - comenta a demónio impaciente.
- Eu SOU uma boa feiticeira, demónio, não é por minha culpa que o objecto não esteja a funcionar, se calhar foste tu que nos trouxeste para o sítio errado! - responde a feiticeira num tom imperial.
Lara prepara-se para responder, mas subitamente o artefacto solta um brilho estranho e começa a levitar libertando-se da mão da feiticeira, o chão estremece com uma vibração constante e um zumbido estridente vindo de não se sabe de onde ecoa pelo ar. Todos os olhos se fixam no objecto esperando pela abertura da porta, mas para grande supresa de todos, 7 portas abrem-se nas desembocaduras dos corredores.
- E agora? - pergunto. - Por qual delas devemos seguir?

quinta-feira, novembro 23, 2006

Anjos e Demónios

Lara deixa-se cair sobre mim exausta soltando os últimos gemidos de um orgasmo louco e carregado de desejo; os seus longos cabelos pretos cobrem o meu rosto e a sua boca insaciável beija e mordisca o meu peito sorvendo as gotículas de suor que escorrem sobre a minha pele; a sua cauda agita-se levemente como se pedisse por mais, os seus dedos brincam com o meu pêlo e os seus olhos dourados fixam-se nos meus brilhando com a chama do desejo. Eu apenas sorrio, um sorriso de puro deleite e satisfação.
- Hm, se eu soubesse que o mero facto de passarmos a noite no quarto de hóspedes da Diana te deixaria assim tão louca, teria feito as pazes com ela logo que chegámos à cidade.
- Não há dúvida que a feiticeira mexe comigo, será que não podias colocar a vossa amizade de lado e convidá-la para a nossa cama, como fizemos tantas vezes com a Lilian? - diz ela com uma voz sedutora e irresistível.
- Tu e a Diana juntas na mesma cama, hm, isso parece-me uma combinação explosiva, minha diabinha, mas muito, muito excitante.
- Sim, dá para notar que gostas da ideia. - responde ela com um sorriso olhando para o meu sexo que se animou ante esta fantasia. - Temos mesmo que a pôr em prática. - a demónio volta a beijar-me e a sua mão escorrega pela minha cintura abaixo.
- Por onde achas que anda a Lilian? - pergunto subitamente.
- A Lilian!? Não sei, nem me interessa, meu querido, ela abandonou-te quando mais precisaste, porque é que ainda pensas nela?
- Gostava de a ter visto como anjo, aposto que deve estar fantástica.
- Está sim, mas se queres que te diga, eu preferia a Lilian feiticeira, sempre era mais humilde e prestável.
- Qual a razão desse ódio entre anjos e demónios? Porque é que não convivem em paz?
- Queres falar sobre isso agora!? Logo agora!? Não podias ter escolhido um momento mais oportuno para termos essa conversa? - a demónio solta um suspiro e deixa-se cair de costas sobre o colchão macio. - Está bem, eu conto-te... Como já te disse anteriormente, os anjos e os demónios são duas faces de uma mesma moeda, mas nunca te expliquei o porquê. Existe uma lenda muito antiga, uma lenda que remonta aos primórdios do Universo, uma era em que raças poderosas viajavam livremente pelos planetas, criando vida ou extinguindo-a. Hoje em dia podemos chamar a essas entidades de Deuses, mas se virmos bem, os Deuses actuais são meros aprendizes quando comparados com tais criaturas... Enfim, passando à frente, um desses Deuses, uma entidade chamada Kuan, conseguiu reunir em si um poder fenomenal, um poder que lhe dava a autoridade de tornar os seus pares em seus servos. Este era um conceito completamente novo, nunca ninguém conseguira armazenar tal poder e influência, todos eram iguais, não havia nem mais nem menos, aquilo que era a neutralidade perfeita deixou de o ser e a sociedade entrou em declínio.
Kuan conseguira o que queria, o poder sem limites, mas o preço a pagar foi alto demais, a sua arrogância e a sua ambição conduziram à desgraça e à extinção da sua raça. Chegou então a altura em que ele ficou só, não havia mais ninguém para conversar, alguém para mandar, alguém para rebaixar, é aqui que as lendas mudam e divergem, umas dizem que ele enlouqueceu, outras dizem que atingiu um estado de pura perfeição, outras chegam a referir ambas as opções, a verdade ninguém sabe, tudo o que se sabe é que após a extinção do seu povo algo aconteceu, algo que o levou até ao lugar mais sagrado de todos, A Fonte da Magia, e aí o seu corpo transformou-se em luz e dividiu-se em dois, de um lado formou-se o primeiro anjo, do outro o primeiro demónio.
- Mas porque é que se odeiam tanto? - pergunto afagando o cabelo de Lara.
- Porque ambos herdámos a arrogância e a ambição de Kuan e isso leva-nos a acreditar que aquele que vencer o conflito é sua verdadeira essência. Por isso não usamos escrúpulos, apoiamo-nos em raças inferiores para combater por nós, raças que se deixam iludir pelas nossas palavras e promessas, especialmente as dos anjos, porque nós demónios não precisamos de falinhas mansas, as nossas atitudes falam por si.
- Sabes, minha diabinha, tens jeito para contar histórias.
- Pois tenho, mas eu prefiro ter jeito para outra coisa, meu querido. - a demónio sorri maliciosamente e acaricia o meu falo. - Ainda temos umas horitas até o Sol nascer, que tal aproveitarmos?
Não respondo, apenas lhe lanço um olhar provocador enquanto encaminho a minha língua em direcção ao seu sexo.

terça-feira, novembro 21, 2006

O Artefacto (2ª Parte)

Um bater insistente na porta da frente arranca a feiticeira de um sono profundo e estranho, sobre a mesa encontra-se um objecto pequeno e acastanhado cuja funcionalidade é-lhe desconhecida mas cujo poder é assustadoramente grande. O som de pancadas sucessivas e cada vez mais fortes levam Diana a erguer-se sonolenta e quase mecanicamente da cadeira e dirigir-se para a porta.
- Bolas, feiticeira, demoraste, estou aqui há quase 10 minutos a bater, o que é que estavas a fazer? - pergunta Lara assim que a porta se abre.
- L-Lara!? Mas o que é que fazes aqui, está tudo bem? - pergunta a feiticeira esfregando os olhos e olhando em redor procurando por mim.
- Está tudo óptimo! - responde a demónio entrando imediatamente aproveitando a passividade e a sonolência de Diana. - Mas ainda não me respondeste, o que é que estavas a fazer?
- A dormir, claro, o que é que tu querias que eu estivesse a fazer a uma hora destas? - diz ela fechando a porta e colocando-se apressadamente entre o hall e a sala de estar.
A demónio olha para a feiticeira de alto a baixo, esta enverga um fofo robe laranja e umas confortáveis pantufas da mesma cor, pelos contornos do tecido na sua pele Lara apercebe-se que Diana nada mais usa por debaixo e sorri sedutoramente.
- Não te faças de sonsa, Diana, sei muito bem que estiveste a estudar o artefacto que o Deditos te colocou no bolso.
A feiticeira cora mordiscando o lábio inferior e lançando um olhar de soslaio para a mesinha da sala.
- Eu estive a dormir, a sério.
- Eu não duvido, consigo ver a sonolência no teu olhar e nos teus movimentos, mas não te esqueças que sou um demónio, minha querida, uma criatura criada a partir da magia primordial, e eu consigo cheirar o poder do objecto em ti, consigo sentir o pulsar da sua energia e da sua força ali na mesa. - os olhos dourados da demónio fixam-se no objecto e um sorriso enigmático desenha-se nos seus lábios. - Ai Diana, aposto que nem imaginas aquilo que tens à tua frente.
- Tu sabes o que é? - os olhos verdes da feiticeira fixam-se igualmente no artefacto que parece subitamente ganhar um estranho brilho.
- Claro. Toma, lê isto e toma consciência da preciosidade que temos diante de nós. - diz Lara oferecendo o velho papiro à feiticeira.
- Sagrada Atena! M-mas isto é...
- ... o sonho de qualquer feiticeiro, minha querida. A chave e o mapa de todo o conhecimento dos Ploensis.
- E não só, Lara, há uma outra informação escondida neste documento.
- Que informação? - pergunta Lara surpreendida.
- Uma referência a um lugar que todos pensávamos ser uma lenda, A Fonte da Magia!
A demónio estremece e deixa-se cair pesadamente sobre a cadeira.
- O lugar onde tudo começou?
- Sim, o local onde a Vida foi criada!

- E-eu não estou a acreditar no que estou a ouvir, vocês devem estar a brincar comigo, só podem! - exclamo incrédulo bebendo um chá de camomila.
- E nós íamos brincar com uma coisa destas, meu querido? - diz Lara quase ronronando, abraçando-me por trás e mordiscando a minha orelha.
- Meu Cavaleiro, devias acreditar em nós, a Fonte existe e nós temos uma referência a ela. - diz a feiticeira sorrindo com o seu ar sedutor.
- Tudo bem, ela existe, mas ao menos sabem onde está? - pergunta Léon com um ar sério.
- Ainda não. - respondem ambas ao mesmo tempo. - Mas a localização deve estar guardada no lugar onde se encontra todo o conhecimento arcano dos Ploensis.
- "Deve" estar, vocês não sabem com toda a certeza. - continua o ladrão.
- Mesmo que não esteja, Léon, estamos prestes a fazer uma descoberta estrondosa. - respondo. - Já agora, já sabem como usar o artefacto, ou melhor, sabem onde o devem usar?
- Claro, meu querido, ao contrário de vocês machos, nós fêmeas colocamos toda a nossa energia no único cérebro que interessa.
- Ai sim, Lara? E o teu está situado onde, já agora, porque por vezes fico com a impressão que não está na tua cabeça.
A demónio sorri e beija o meu pescoço.
- Tu sabes onde está. - sussurra ela ao meu ouvido.
- Mas pegando na pergunta do Cavaleiro, onde é que se encontra guardado todo esse conhecimento? - pergunta Léon.
- Aqui na cidade, mais concretamente, debaixo da estátua de Aquileia e Éwon. - responde Diana com um sorriso.

quarta-feira, novembro 15, 2006

Interlúdio

Eu deveria estar radiante por me encontrar de novo junto dos meus, deveria sentir-me livre e invencível por ter novamente este poder divino a fervilhar nas minhas veias e a percorrer todo o meu corpo, deveria estar eufórica por carregar uma vez mais as minhas asas, as minhas belas e orgulhosas asas brancas... Mas não estou, não consigo estar, as imagens daquele dia ainda atormentam a minha mente, como pude ser tão insensível, tão egoísta? Aqui estou eu, uma pária entre os meus, isolada, envergonhada e enojada de mim própria... Será que alguma vez ele me irá perdoar? Será que EU alguma vez me irei perdoar? Claro que não, como me poderia perdoar depois de uma escolha tão egoísta, depois de um abandono tão injusto... E agora, por ironia, as minhas asas já não são o meu orgulho, a minha liberdade, tornaram-se numa prisão constante, num tormento sem palavras e num peso indescrítivel. Como estou arrependida, durante anos sonhei com elas e agora que as tenho considero-as uma maldição e uma tortura, uma lembrança constante do meu egoísmo e da minha arrogância...
Dizem que crescemos consoante as escolhas que fazemos, é bem verdade, parece que envelheci séculos nestas últimas semanas... Eu regressei a casa para tentar encontrar-me, para tentar encontrar algo que mitigasse a minha dor e justificasse a minha escolha, mas isto já nada me diz, eu já não pertenço aqui, já não me sinto bem. Está na hora de partir e traçar um novo rumo na minha vida, de cortar com o passado e escrever um novo futuro, mas para isso preciso de o ver pela última vez e enterrar a mágoa que me consome o peito, talvez assim possa finalmente erguer o rosto para o céu e sorrir gritando: "Lilian és livre de novo!!"

terça-feira, novembro 14, 2006

O Artefacto (1ª Parte)

A Lua brilha no céu espalhando a sua luz prateada sobre as ruas e vielas sombrias de Briseida. Um encantamento inquietante parece dominar a cidade lançando os seus habitantes numa letargia profunda e mergulhando a metrópole num silêncio assustador. Alheios a toda esta aura de sonolência e apatia três personagens envolvem-se num breve conflito num dos becos desertos deste local lendário.
- Muito bem, Deditos, é bom que tenhas uma boa explicação para nos estares a espiar ou garanto-te que quando acabar de tratar de ti mudarás o teu nome para, Léon OlhosRápidos. - diz a demónio ameaçadoramente atirando o pobre ladrão contra a parede.
- E-eu peço desculpa, está bem miúda? - gagueja ele massajando o maxilar dorido.
- Miúda!? Miúda!? - grita a demónio exaltada esbofeteando o desgraçado. - Tento na língua, ladrão, diriges-te a um ser superior e eu exijo-te respeito ou arranco-to à força.
Léon olha para mim na esperança que eu interceda a favor dele, mas as suas esperanças caiem por terra ao ver o meu olhar irritado.
- Não olhes para mim à espera de beneces, Léon, é melhor que comeces a inventar uma boa desculpa ou nem OlhosRápidos serás!
- Ok, ok, vocês também não me dão muitas hipóteses, né?
- Ora, ora, parece que afinal o pervertido sempre tem miolos. - a demónio olha para mim sorrindo. - Vá conta lá o que é te levou a espiar-nos.
- Primeiro que tudo eu não sou um pervertido, eu...
As suas palavras terminam abruptamente com outra estalada da demónio.
- Aconselho-te a ires directo ao assunto, já deu para ver que não estou de bom humor.
- Não só estou a ver, como também estou a sentir, miú... hm... demónio. - diz ele voltando a massajar o rosto que tomara um tom avermelhado. - Quando nos separámos tão repentinamente no porto fui forçado a deixar para trás, mais concretamente num dos bolsos da vossa companheira, um pequeno artefacto. Preciso de o resgatar, por isso espiava-os na esperança que me dessem uma pista sobre o seu paradeiro.
- Mas que tem esse artefacto de tão especial?
- Alguma vez ouviram falar de uma raça chamada Ploensis?
- Não...
- Mas eu sim! - responde Lara entusiasmada. - Esse artefacto pertence-lhes?
- Sim.
- Esperem lá, mas quem são esses plo-não-sei-quantos?
- Ploensis, meu querido, eram uma raça muito poderosa que deixou o nosso plano de existência. Eles já eram considerados Antigos quando Gaia e Terra eram apenas uma só, a sua habilidade na magia era de tal forma grande que um dos seus feitiços mais simples só pode ser lançado por feiticeiros experientes e poderosos com o risco da própria vida. Um simples artefacto deles pode valer milhões, é o sonho de qualquer praticante de magia. - os olhos de Lara brilham de excitação.
- Isso quer dizer que a Diana leva no bolso uma fortuna e nem o sabe?
- Olha que não sei, Cav, agora que penso bem, aquela desculpa do "estou muito cansada" foi um pouco forçada. Eu acho que ela nos quis despachar.
- Não me acredito nisso. - respondo lançando um ar de reprovação à demónio. - Mas já agora, o que faz aquele artefacto?
- Não sei, encontrei-o juntamente com este papel, mas está escrito numa língua que eu não conheço. - Léon retira de uma pequena bolsa de veludo um rolo de papiro já muito gasto e parcialmente consumido.
A demónio solta um gemido ao ver o selo ainda bem impresso numa das partes do manuscrito e automaticamente arranca-o das mãos do ladrão.
- O que foi? - pergunto ao ver um sorriso a desenhar-se nos seus lábios enquanto o lê.
- Cav, meu querido, saíu-nos a sorte grande!! - grita ela excitada dando-me um beijo e correndo em direcção à casa da feiticeira.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Criaturas da Noite

Diana, ainda surpreendida com a súbita aparição desta nova personagem, abre a boca para responder, mas uns gritos furiosos vindos da viela para onde ainda há pouco os três marinheiros irritados se dirigiam cortam-lhe a palavra.
- Ora bolas! - diz Léon apressadamente olhando para trás. - Lamento ter que me despedir assim tão depressa, bonitona, mas o amor à pele fala mais alto.
- Bonitona!? - repete a feiticeira.
- Eu nunca me esquecerei de um rosto tão belo e tenho a certeza que nos voltaremos a encontrar. - diz ele saltando do barril e sorrindo encantadoramente para ela. - Afinal de contas ainda não me disseste o teu nome. - ao terminar de dizer isto Léon puxa a feiticeira para si e dá-lhe um valente beijo na boca antes de se esgueirar rapidamente pelo cais e desaparecer nas sombras.
- Que tipo tão estranho e atrevido! - diz Diana ligeiramente irritada passando os dedos sobre os lábios.
- Sim, e aposto que aquele beijo deve ter sido detestável. - diz Lara sarcasticamente.
- Então não se nota que foi? Já viste como ela ficou "vermelha de raiva". - digo sorrindo.
- Vocês devem ter a mania que têm piada, não é? Pois eu não gostei nem um pouco, achei aquele "miúdo" insolente e muito atrevido e se porventura o voltar a ver e ele me tentar beijar de novo, eu juro que lhe lanço um feitiço. - a feiticeira olha para nós com cara de poucos amigos e com um brilho estranho no olhar.

- Obrigado pela tua ajuda hoje de manhã, minha amiga, sem ti nunca teríamos encontrado o nosso homem mistério, infelizmente as coisas não correram tão bem como esperávamos. - digo assim que chegamos a casa da feiticeira.
- É verdade, mas amanhã é outro dia e quem sabe se a Fortuna não nos sorri. Aliás, pressinto que algo vai acontecer a esta cidade e o facto de hoje termos visto Aquileia chorar é uma prova disso.
- Isso é apenas uma lenda, Diana, nada mais.
- As lendas têm sempre um fundo de verdade, meu Cavaleiro, por vezes para as entendermos não podemos pensar com o cérebro mas sim com o coração. - a feiticeira sorri e abre a porta de casa. - Convidar-vos-ia para tomar um chá, mas peço que me perdoem, é que estou muito cansada, preciso mesmo de descansar.
- Não há problema, Diana, foi um longo dia e todos nós merecemos um pouco de descanso. - sorrio para ela e beijo-lhe a testa. - Até amanhã e dorme bem.
- Até amanhã, feiticeira, e sonha com o deditos. - diz Lara sorrindo maliciosamente.
A feiticeira sorri e olha para mim.
- Não desistas do sonho, pois uma pessoa que não sonha, nada é nesta vida.
- Eu sei, Diana, eu sei.
A feiticeira fecha a porta deixando-nos sozinhos numa rua deserta.
- Sabes, bem que lhe podias ter perguntado se podíamos dormir aqui hoje, estou farta daquele cubículo a que chamas quarto. - começa Lara.
- Pois vais ter que te habituar, minha cornuda, a não ser que queiras dormir na rua.
- Se só tenho essas duas hipóteses então escolho a primeira, humano, mas exijo-te algo em troca.
- Claro e já estou mesmo a ver o que é.
- Serei assim tão óbvia?
- Muito! - digo beijando os seus lábios e encostando-a a um pequeno muro.
- Aqui? No meio da rua? - pergunta a demónio retribuindo os beijos e mordiscando o meu pescoço.
- E porque não? Os cidadãos desta cidade têm medo do escuro, por isso não seremos interrompidos. - as minhas mãos percorrem o seu corpo desapertando as fivelas da sua armadura de couro.
- Adoro quando ficas assim, humano, tens a certeza que não tens sangue de demónio a correr nessas veias? - diz ela arrancando-me a camisa e mordendo vorazmente o meu peito.
- Absoluta! - a minha resposta é abafada pelos gemidos de Lara que vai ficando cada vez mais fora de si.
- Espera! - a demónio pára subitamente, os seus olhos movem-se em todas as direcções procurando algo que parece não existir. - Não estamos sós, Cav, algo nos observa.
- Tens a certeza? - pergundo puxando as calças para cima.
- Achas que iria parar de fazer o que eu mais gosto se não tivesse a certeza, humano? - responde ela com um sorriso malandro. - Deixa-me apenas concentrar que eu já apanho o voyeur. - o seu olhar volta a mover-se em todas as direcções detendo-se de repente num canto escuro e sujo da rua. - Ali!
A demónio desaparece subitamente nas sombras e volta a aparecer quase instantaneamente no local onde o seu olhar se deteve. Uma breve rixa foi tudo o que bastou para se desembaraçar do nosso espião pervertido.
- Já viste quem eu apanhei, meu querido, o nosso beijoqueiro de serviço, Léon DedosRápidos.

terça-feira, novembro 07, 2006

Anoitecer em Briseida

O pôr do Sol em Briseida é um evento no mínimo avassalador, o grande astro afunda-se majestosa e lentamente sobre as águas azuis e cristalinas que banham o Porto das Nereidas lançando sobre elas mil e uma cores antes de desaparecer por completo no horizonte.
- Uau, que espectáculo! - exclamo de boca aberta perante este cenário quase divino.
- Eu disse-te que ias gostar. - diz a feiticeira sorrindo. - Quando o dia não me corre bem, venho para aqui e contemplo este momento maravilhoso e, por breves minutos, esqueço tudo e sorrio.
- Mas qual é a piada disto? - interrompe Lara extremamente aborrecida e reprimindo um bocejo. - Não vai ser um pôr do Sol que irá criar um clima em volta de um casal, são os olhares, os movimentos corporais e o tom de voz usado que irão despertar o desejo e a luxúria. Mas vocês humanos têm de encontrar sempre algo mais, têm de encontrar algo mágico e maravilhoso para mostrar e transmitir os vossos sentimentos, que lamechas!
- Como podes dizer uma coisa dessas? - pergunta Diana escandalizada. - Como podes resumir tão insensivelmente sentimentos e momentos tão mágicos para nós, humanos? Nem tudo gira à volta do sexo, existe algo mais do que isso, algo bem mais interessante e satisfatório. Se não consegues ver isso, então tenho pena de ti, demónio, pois és pobre de espírito.
- Pena de mim? Pobre de espírito? Como te atreves a dizer-me isso, humana, esqueces-te que falas com um ser superior? - diz a demónio endireitando-se e lançando à feiticeira um olhar fulminante de poucos amigos.
- Um ser superior? Como te podes declarar superior a mim quando te reges por instintos primordiais, quando te deixas levar cegamente pelas vontades do teu corpo? Superior? Talvez apenas em termos de físico e agilidade, porque em termos de mentalidade és bastante inferior a mim, uma humana. - diz a feiticeira calmamente, mas com uma força na voz, encarando o olhar fatal da demónio.
Lara observa incrédula a feiticeira, aquela sua calma deixou-a completamente desarmada.
- Ou és louca, ou incrivelmente corajosa, para falares assim a um demónio. - diz ela.
- A loucura e a coragem andam de mãos dadas, Lara, e além disso, não sou engraxadora ou hipócrita, digo o que penso e o que sinto, sou muito honesta nesse sentido, um defeito que me tem isolado profundamente.
- És corajosa, humana, e gosto disso. - diz a demónio esboçando um sorriso que me deixa surpreendido. - Diana, acho que nos vamos dar lindamente.
Sorrio e deito-me sobre a areia observando as estrelas que começam timidamente a aparecer no céu, esta demónio não pára de me surpreender, quem diria que ela iria reagir desta forma...

Caminhamos os três de regresso à cidade tomando como rota o Porto das Nereidas quando subitamente os sons de uma violenta discussão fazem-se ouvir vindos de uma taberna chamada Barbas de Poseídon. Três marinheiros com caras de poucos amigos irrompem então de dentro da taberna e correm para uma viela preparados para uma luta.
- Eles já se foram? - pergunta uma voz vinda de um barril assim que o som dos passos se dissipa.
- Sim, já. - responde a feiticeira.
- Óptimo! - de dentro do barril sai um jovem de 20 anos, muito sorridente e bem disposto. - Obrigado pela dica, miúda, tava a ver que ia desta para melhor.
- Miúda!? - repete a feiticeira surpreendida.
- Já agora, sou o Léon DedosRápidos. - continua ele. - E tu quem és?

sexta-feira, novembro 03, 2006

O Jornal

A praça central é o principal afluente da cidade, todos os dias passam por ali milhares de pessoas que com um passo geralmente apressado se dirigem para os seus empregos ou para os seus compromissos. Aqui encontra-se um dos mais belos jardins de toda a região e a célebre estátua dos dois amantes que muitos juram que está encantada, à volta desta esplêndida praça podemos encontrar bancas de comerciantes ambulantes e várias casas de convívio que servem uma bebida exótica com um estranho nome, café. Completamente desiludidos com o desfecho da nossa investigação sentamo-nos numa das esplanadas e pedimos três destas bebidas tão esquisitas.
- Estamos num beco sem saída, quem quer que tenha morto o outro tipo, matou também o nosso homem mistério. - diz Lara desapontada bebendo um golinho deste líquido misterioso.
- Vocês têm a certeza que querem continuar esta investigação, é que se estão a meter com alguém muito poderoso. - pergunta Diana bebendo com mais à vontade o seu café.
- Claro! - responde Lara apressadamente. - Eu não gosto de ser manipulada e vou exigir explicações a quem quer que esteja por detrás de tudo isto.
A feiticeira vira-se para mim para tentar saber qual é a minha opinião.
- Faço minhas as palavras da Lara, Diana.
Ficamos por uns momentos em silêncio saboreando o café e uns bolinhos caseiros bastante apetitosos.
- Extra! Extra! Guerra cívil na República! Extra! - apregoa um vendedor de jornais.
Lara e eu olhamos um para o outro.
- Cav, tu não achas que...
- Tenho quase a certeza, Lara. Rapaz, um jornal.
- Tens a certeza do quê? - pergunta Diana sem perceber nada da conversa.
- É uma longa história. - respondo abrindo o jornal.

Parece incrível, mas após quase 2000 anos de paz a velha República entrou em guerra cívil. As notícias que nos chegam da capital são escassas e muito contraditórias, ao que parece tudo começou quando um homem tomou conta do Senado há alguns meses, desde então uma enorme instabilidade política tomou conta da República. Deram-se várias tentativas para depor este indivíduo misterioso que se auto-intitula de Iulius Caesar Magnus, mas todas falharam, ao que parece este homem possui um estranho sexto sentido que lhe permite reconhecer armadilhas.

- Sexto sentido uma ova, ele possui é o Olho! - diz Lara zangada.

Iniciou-se então um período bastante sangrento, uma era de prescrições como as realizadas pelo antigo Ditador romano Lucius Cornelius Sulla. Aqueles que não juravam fidelidade incondicional ao novo Imperador eram julgados e condenados à morte em plena praça pública. Os que conseguiram escapar criaram a facção republicana e reuniram um exército para destruir este vil homem.
O Mundo está dividido em dois e espera impaciente pelo resultado final. Será este o fim do mundo que conhecemos? Que consequências trará esta guerra para as cidades estado independentes como Briseida? Este jornalista não tem respostas para estas perguntas e muitas outras, só espera que todo este conflito termine rapidamente e que Gaia respire paz uma vez mais.


- És senador, não és, Cav? O que vais fazer, vais juntar-te à facção republicana? - pergunta a feiticeira.
- Desde a morte da Ela que esse mundo ficou para trás, sou um sonhador e acredito piamente em Roma e tudo o que representa, mas esta já não é a minha luta...
- Mas a Ela não morreu, está viva.
- Para mim continua morta, o que ela fez não tem perdão, pelo menos não ainda.
A feiticeira coloca a sua mão sobre a minha e sorri.
- Tás tão diferente, tão diferente.
Sorrio e coloco a minha outra mão sobre a dela.
- Como tu disseste, já não temos 15 anos.
- Vocês já olharam bem para o rosto da Aquileia? - interrompe Lara. - Ela está a chorar!

quinta-feira, novembro 02, 2006

O Homem Mistério

As investigações de Diana levam-nos à parte mais rica da cidade, uma zona composta por jardins magníficos e exuberantes e por luxuosas vivendas e villas. De acordo com as informações da feiticeira a casa que procuramos fica mesmo em frente ao Jardim dos Descobrimentos, um parque muito belo repleto de flores e árvores exóticas erigido em homenagem às descobertas de Aquileia e Éwon.
- Então é aqui que se esconde o nosso homem mistério? - pergunta Lara admirando o desenho e a arquitectura da villa.
- Sim. - responde Diana. - Mas como já vos disse não creio que este homem seja um feiticeiro, não senti magia na sua aura.
- Tens a certeza? Olha que a magia que matou o homem que recebeu o pacote parecia ser muito poderosa. - digo desconfiado.
- E era, mas de uma coisa tenho a certeza, não foi este homem que a criou.
- Então existe alguém por detrás de tudo isto? Alguém a quem este homem muito certamente serve? - pergunta Lara fitando a feiticeira.
- Sem dúvida.

A porta abre-se e um criado muito velho e curvado aparece no interior.
- O que desejam? - pergunta ele numa voz estranhamente forte.
- Falar com o teu senhor. - responde Lara altivamente entrando sem cerimónia.
- O que está a fazer? Retire-se imediatamente, não recebeu nenhuma autorização para entrar!
- Eu tenho assuntos sérios para tratar com o teu senhor, velho, por isso faz-te útil e vai chamá-lo, ok? - diz a demónio num tom que não tolera contestação.
- Como se atreve! - o velho servo agarra a demónio pelo manto e puxa-o com uma força surpreendente revelando o seu rosto. - Um demónio! - exclama ele assustado.
- Faz o que te mando! - remata Lara aproveitando a sua reacção. O servo afasta-se rapidamente indo cumprir as ordens desta visita inesperada. - Aqui está uma criatura inferior que conhece o seu lugar, se ao menos todos fossem assim...
- Ainda bem que não somos. - digo sorrindo.
A feiticeira aproxima-se de mim e sem que a demónio note sussurra-me ao ouvido.
- Ela é sempre assim?
- Nem por isso, ela hoje até está bem disposta.
Momentos depois surge o nosso homem mistério acompanhado pelo seu fiel servo, ao ver-nos fica ligeiramente nervoso.
- O que desejam? - pergunta ele numa voz bem mais frágil do que a do seu velho servo.
A demónio sem pensar duas vezes lança-se a ele agarrando-o pelo pescoço e encosta-o à parede.
- Sabes bem o que é que nós desejamos. - diz ela com uma voz autoritária.
- Bem disposta? - pergunta-me a feiticeira.
- Sim...
- Hm, imagino então como será ela maldisposta.
- E-eu, e-eu não tive a culpa, foram as ordens que recebi, por favor tentem entender, eu até vos paguei muito bem.
- Tu pagaste para entregar um pacote, não para matar um tipo. Diz-nos para quem trabalhas!
- E-eu n-não posso, se o fizer sou um homem morto. - o homem começa a suar em bica e a tremer desenfreadamente.
- Se não o fizeres também és um homem morto. - diz Lara sacando um punhal e apontando-o à barriga dele. - Sabias que sou uma assassina? Conheço muito bem a anatomia de todas as raças de Gaia, por exemplo, se te cravar o punhal aqui morres em questões de segundos, mas se por acaso to cravar aqui morres bem lentamente e com muitas dores. Por isso meu caro, é bom que cuspas o que sabes.
- V-vocês vão deixar que ela me mate? N-não têm piedade? - grita o homem para mim e para a Diana quase a perder os sentidos.
- Cav, tens a certeza que não é melhor intervires? - pergunta a feiticeira preocupada.
- Tenho, é tudo bluff, acredita.
- Cospe o que sabes. - rosna Lara pressionando o pescoço do homem já exasperada.
- Está bem, eu conto.
Lara sorri triunfantemente e liberta-o afastando-se uns passos. O homem massaja o seu pescoço dorido e olha para nós com um misto de raiva e de medo.
- Eu não tenho escolha, pois não? Pois bem, não fui eu o causador da morte daquele homem, eu fui apenas um intermediário.
- Quem era ele? - pergunto.
- Eu não sei bem, sei apenas que andou a meter o nariz onde não era chamado, a fazer muitas perguntas e a criar instabilidade na cidade.
- Quem o matou? - pergunta Lara impaciente.
O homem abre a boca para responder mas nenhum som se escapa da sua boca, ao principio parece que se sente com falta de ar, mas pouco depois a sua cara começa a ficar muito vermelha e o homem cai de joelhos no chão agarrando-se ao pescoço e tentando a todo o custo respirar.
- Magia! - grita Lara.
- E poderosa! - diz Diana.
Assim que tentamos fazer algo para o ajudar um som distinto de um pescoço a quebrar-se propaga-se pelo o ar e o homem cai no chão morto fitando o vazio.