Deixo-me ficar sentado numa pedra observando a demónio que mergulha despreocupadamente nas águas convidativas do lago. Contemplo os seus movimentos, as suas formas extremamente sedutoras e o seu sorriso de satisfação por saber que está a ser vista. Sinto uma vontade enorme de me juntar a ela, de beijar os seus lábios doces e de a possuir ali mesmo naquele lago, mas as memórias do que aconteceu ainda há pouco no vale voltam a assolar-me e esse desejo desaparece.
- Porque não te juntaste a mim, a água estava óptima. - diz Lara sorrindo minutos depois ao sair do lago.
- Precisamos de falar. - respondo.
- Diz. - a demónio senta-se nua ao meu lado e coloca o seu braço em volta do meu pescoço enquanto me mordisca a orelha.
- Como foste capaz de fazer aquilo? - pergunto indiferente aos seus avanços e carícias.
A demónio pára o que está a fazer e fita-me intensamente com os seus olhos dourados.
- Ela ousou tocar-me, ousou tentar transformar-me numa daquelas aberrações, ela mereceu totalmente aquilo que lhe fiz, mereceu cada grito que expeliu daquele corpo moribundo e decadente. No meu ponto de vista até acho que fui demasiado branda.
- Demasiado branda!? Demasiado branda!? Lara, os seus gritos ainda ecoam nos meus ouvidos, fiquei enojado com aquela cena. - respondo exaltado levantando-me num pulo. - Eu não quero que voltes a fazer uma coisa daquelas, ouviste, não quero!
- Não queres!? Não queres!? - grita a demónio irritada levantando-se também. - Mas quem és tu, humano, para me dizeres o que devo ou não fazer? Eu faço o que quero e o que me apetece e não serás tu que me vai dizer como agir.
- Vou sim, Lara, vou sim!
- Cav, eu já não sou a tua serva nem tu o meu senhor, sou livre, por isso vai dar ordens a outra!
- Lara, se queres torturar e fazer o que te apetece, então fá-lo, mas sozinha! Recuso-me a ser parceiro de alguém tão vil e baixo.
- Baixo!? Como te atreves, reles humano, eu sou uma demónio de pu...
- Eu sei bem o que tu és, Lara, já estás farta de mo dizer. - grito extremamente irritado em plenos pulmões. - Mas eu digo-te uma coisa, pouco me importa o teu sangue ou a tua classe, pouco me importam os teus feitos extraordinários e as tuas habilidades sem par, neste momento olho para ti e sinto nojo, percebes, nojo!
A demónio fita-me surpreendida sem saber o que dizer.
- Eu...
- Não digas nada! Queres fazer o que te apetece, não é? Pois então as nossas aventuras em conjunto terminam aqui, não quero pactuar contigo nestas coisas. - grito tirando a sua espada da bainha e atirando-a para o chão. - Agradeço esta tua oferta, mas já não vou precisar mais dela.
- Estás a ser precipitado e a criar uma tempestade num copo de água, pensa melhor, não é caso para nos separarmos.
- Lara, durante toda a minha vida combati criaturas como aquela em que te tornaste hoje de manhã e não será agora que irei ser companheiro de uma delas. - pego nas minhas coisas e coloco-as no dorso do meu cavalo.
- Espera, em nome da nossa velha amizade.
- É em nome da nossa velha amizade que eu estou a agir desta forma, senão as coisas seriam bem diferentes. - dito isto monto e preparo-me para partir.
- Não vás, eu mudo se for preciso, mas não vás...
Aquelas palavras caiem sobre mim como um balde de água gelada acalmando a minha ira e deixando-me confuso.
- Como?
A demónio não responde limitando-se a olhar para mim.
- Não te estou a perceber, explica-te!
- Eu não quero que vás, não quero que me vejas como um dos montros que combateste no passado, estou disposta a refrear os meus instintos mais animalescos, se for preciso.
- Continuo sem perceber, Lara, estás disposta a mudar por um reles humano?
- Estou disposta a mudar por ti e não por um reles humano.
Desmonto e sorrio para ela.
- Lara, Lara, estarás mesmo apaixonada?
A demónio olha-me de uma maneira tal que por pouco não me arrependo do que disse.
- Como te atreves! Eu não te amo apenas gosto de ti e nada mais, acho-te digno de partilhares a minha companhia e a minha cama, só isso!
- Sentirias a minha falta se porventura tivesse partido?
A demónio morde o lábio e desvia o seu olhar.
- Sim...
- Não digas mais, eu entendi. - digo sorrindo e aproximando-me dela.
- Como assim, percebeste?
- És um poço de contradições, sabias minha diabinha? Será por isso que te adoro tanto? - digo beijando os seus lábios e afagando os seus longos cabelos negros.
- Não sei, meu humano pervertido, mas algo me diz que não é só por isso. - diz ela sorrindo e tirando a minha camisa.
segunda-feira, outubro 09, 2006
quinta-feira, outubro 05, 2006
Unyard (4ª Parte)
Entro na câmara ansiando encontrar uma vez mais o espírito do feiticeiro, mas este não está lá, talvez tenha sido mesmo uma alucinação. Procuramos durante horas por uma saída ou por algo que nos possa ajudar, mas não encontramos nada de útil, apenas jóias e ouro, muito ouro, algumas armas encantadas mas que estão protegidas contra o roubo e muitos pergaminhos e livros repletos de feitiços.
- Caramba! - digo finalmente. - A Lilian iria adorar isto.
- Iria sim se ainda fosse uma feiticeira, mas ela agora é um anjo, já não faz magia. - diz Lara de costas para mim admirando as armas encantadas.
- A Lilian um anjo, hm, como gostaria de a ter visto nessa forma. - uma nuvem de pó grosso liberta-se quando fecho um livro de capa azul. - Bom, sem uma feiticeira estes livros e pergaminhos não nos irão ser úteis.
- Não há nada aqui que nos possa ser útil. - rosna Lara exasperada. - Armas encantadas que não podemos usar, magias que não sabemos controlar e ouro que nunca iremos poder gastar. Estamos aqui presos, Cav, presos!
- Calma, Lara, calma, ainda não vimos o sarcófago.
- Esse também não deve ter nada, apenas a gema que entregámos à Ursula.
- Não custa nada tentar, aliás, eu não te contei, mas quando resgatámos a gema eu vi-o.
- Viste o quê? O espírito do velho? - pergunta a demónio incrédula.
- Sim, por momentos vi-o, mas depois desapareceu. Estava a querer dizer-me algo, mas eu não percebi.
- E só agora é que mo dizes? Devias ter-me dito isso logo no início, Cav, não teríamos perdido este tempo todo.
- Como assim? Não me digas que consegues invocar e conversar com espíritos. - digo sorrindo.
- Hm, hm. - diz ela anuindo com a cabeça e aproximando-se do cadáver.
- Mas tu és um demónio e não um anjo, pensei que só os anjos tinham essa capacidade.
- Cav, os anjos e os demónios são feitos da mesma matéria, são como dois lados opostos da mesma moeda. Nós demónios fazemos o queremos, vivemos a vida de uma maneira egoísta, digamos assim, enquanto eles vivem para zelar pelo bem estar de todos, ou assim o dizem, pois no meu entender são uma cambada de orgulhosos que no fundo, no fundo querem é ser venerados. Basicamente temos os mesmos poderes, por isso é que as nossas guerras acabam sempre empatadas.
- Sim...
- Enfim, confia em mim humano, se eu te digo que sei falar com os mortos é porque o sei. Mais tarde conversaremos melhor, falar-te-ei de certas coisas sobre eles que vocês não sabem, vais ficar surpreendido e no final verás que eles não são assim tão bonzinhos como dizem ser. - a demónio pisca-me o olho e coloca a sua mão sobre o crâneo o feiticeiro começando a murmurar palavras incompreensíveis.
A sala fica gelada e um arrepio de frio percorre a minha espinha, a iluminação da câmara parece baixar consideravelmente e a sensação de um milhão de olhos a observarem-me de todos os lados invade-me. No canto da sala uma sombra começa a mexer-se, a princípio parece ser provocada pelo suave tremelicar da tocha, mas depois ganha forma e move-se na direcção da demónio.
- Quem me ousa acordar do meu sono eterno? - pergunta com uma voz sobrenatural.
A demónio morde o lábio e olha para mim antes de começar a falar.
- Uma demónio que precisa de ajuda. - diz ela num tom de voz quase imperceptível.
- Ajuda!? Um demónio? E porque haveria eu de ajudar uma criatura tão desprezível?
Noto um brilho de raiva no olhar de Lara que depressa desaparece.
- Porque os mortos-vivos que estavam presos neste vale foram libertados.
- Como? E quem foi que os libertou? Isto nunca deveria ter acontecido, nunca! Aquela bruxa não pode ficar à solta, tem de ser detida!
- Nós sabemos disso, mas precisamos de saber como é que a "matamos", se é que se pode matar algo que já está morto?
- Nós? Quem está aí contigo?
- Um humano. - diz Lara apontando na minha direcção.
Sem saber o que fazer, esboço um sorriso e cumprimento-o.
- E-eu conheço-te, t-tu devias estar morto. - diz ele numa voz trémula.
Lara e eu olhamos um para o outro.
- Mas garanto-lhe que estou bem vivo. Precisamos da sua ajuda, a gema branca foi destruída e agora não sabemos como deter esta ameaça.
- A gema... Sim, sim, temos de a impedir. Mas o preço vai ser alto de mais para mim.
- Como assim? - pergunta Lara.
A voz do velho feiticeiro torna-se fraca e cansada como se todo o peso do mundo fizesse pressão sobre ela.
- Terão de usar o diamante preto, uma jóia muito poderosa, mas que irá destruir todo este vale encantador. Quando digo tudo, digo mesmo tudo, vivos, mortos e almas.
- A Ursula e os seus esbirros afastaram-se quando o viram, parece que pressentiam o seu poder.
- Sim, ela sabe o que a pedra faz, mas desconhecia a sua presença. Aquela rameira, aquela traidora roubou-me tudo o que eu tinha de mais sagrado, por isso é que a amaldiçoei, a ela e a todos os seus seguidores. Infelizmente cresci nesta zona, este vale foi a minha casa durante longos anos, anos muito felizes, e por causa disso não fui capaz de o destruir. Mas esse era o meu destino, devia tê-lo cumprido, só os Deuses sabem quantos vivos foram corrompidos por ela...
- Como é que activamos o seu poder? - pergunta Lara pouco interessada na história do feiticeira.
- Hã? Paciência, minha filha, paciência. Eu sei que a minha história te aborrece, mas é tudo o que me resta.
- Não devemos ficar agarrados ao mundo dos vivos, feiticeiro, devemos aceitar a morte e partir.
- É fácil para ti dizê-lo, demónio, não conheces a morte nem a dor da separação de pessoas que amamos.
- Dizes tu, feiticeiro, dizes tu...
Olho para Lara intrigado, o que quererá ela dizer com aquilo?
- Mas tens razão, tudo não passa agora de memórias vãs, memórias de um espírito que já nem devia existir. Para activar a pedra terás de a colocar na mão de uma estatueta de ouro que se encontra na villa. A Ursula sempre desconheceu o propósito dessa estatueta e ainda bem, pois se soubesse o que ela faz muito certamente que já a tinha destruído.
- E como é que reconheço a estatueta?
- Simples, é uma réplica da Ursula. Irónico não acham?
- Muito. - digo sorrindo.
- E como é que saímos daqui, a entrada principal está guardada.
- Por debaixo do sarcófago existe uma passagem que irá dar directamente à villa, uma vez lá dentro procurem pela estatueta, que, tendo em conta o narcisismo da Ursula, deve estar no seu quarto.
- Obrigado. - diz Lara sorrindo.
- Uma vez activada a pedra esta ficará branca e terão apenas quinze minutos para fugir da aldeia, se não conseguirem serão totalmente destruídos.
O espírito desaparece momentos depois e seguindo as suas instruções afastamos o sarcófago e deparamo-nos com uma nova saída.
A villa parece estar desabitada, todos os cidadãos da cidade encontram-se à porta do templo esperando por nós. Não perdemos muito tempo a encontrar o quarto, este está logo ao lado daquele por onde entrámos, infelizmente, embora os seus esbirros estejam à nossa espera junto do templo, Ursula encontra-se no quarto admirando-se ao espelho.
- Ali está a estatueta. - sussurra Lara.
- Sim, mas como é que vamos passar pela feiticeira?
- Não te preocupes, eu trato disso, aquela cabra vai arrepender-se do dia em que ousou tocar-me.
Lara e eu entramos no quarto sem cerimónia, Ursula ao ver-nos lança um grito de espanto.
- Vocês? Mas como é que passaram pelos meus servos?
- Isso é uma longa história, mas se eu fosse a ti preocupava-me com o meu bem estar. - diz Lara desembainhando a espada.
Ursula sorri.
- És uma idiota se pensas que podes ferir-me com essa espada.
- Com esta espada? Não, só com ela não consigo, mas com a ajuda disto sim, aliás, com isto até te posso destruir. - a demónio sorri ao tirar de entre o seios o diamante negro.
A feiticeira solta um grito de terror ao vê-lo e recua tapando os olhos.
- Parece que o teu sorriso se desvaneceu, tu sabes bem que isto te pode matar, mas mais importante torna-te sensível aos meus golpes.
Ursula murmura um feitiço mas Lara desfere-lhe um golpe no braço descarnado quebrando a sua concentração e fazendo-a urrar de dor.
- Dói, não dói? - o olhar dourado de Lara parece deliciar-se com cada golpe e com cada grito de dor que é expelido do corpo moribundo da feiticeira. - Como te atreveste a tocar-me e a tentar matar-me? - grita a demónio deleitando-se com a tortura que inflingia na pobre mulher.
- Pára, pára, por favor pára. - implorava Ursula chorando copiosamente e encolhendo-se a um canto com as mãos protegendo o rosto, numa tentativa infrutífera de fazer parar a dor.
- Lara! - grito revoltado colocando a mão por cima do seu ombro. - Pára com isso, viemos aqui para a destruir, não para a torturar.
A demónio olha para mim, nos seus olhos dourados está estampado um brilho louco e nos seus lábios um sorriso de puro prazer.
- Ela merece, Cav, ela merece. - diz ela calmamente.
- Não, ninguém merece ser torturado, ninguém! - grito furioso arrancando-lhe das mãos o diamante.
A demónio não reage, observa-me sorrindo como se a minha fúria ainda a divertisse mais. Assim que coloco a pedra na estatueta esta torna-se branca e uma ligeira vibração faz tremer o candelabro.
- Pronto, agora é melhor fugirmos, não temos muito tempo.
- Antes de irmos há mais uma coisa que eu quero fazer. - diz a demónio olhando novamente para a Ursula. - Não a vamos deixar à solta, vamos acabar com ela.
Lara pega na feiticeira e sussurra-lhe algo ao ouvido, algo que não consigo ouvir mas que é dito com um sorriso nos lábios. Ursula geme e treme, mas antes que possa fazer algo a demónio aproxima-a da estatueta e encosta o seu rosto ao diamante. A feiticeira solta um grito pavoroso e eu sou obrigado a desviar o olhar enquanto o seu corpo é consumido por chamas brancas. Sorrindo maliciosamente Lara corre dali para fora na direcção da estalagem e dos nossos cavalos, sigo-a e minutos depois estamos fora da aldeia e do vale. Com um brilho intenso tudo é destruído e o vale outrora verde e cheio de vida torna-se agora negro e estéril.
- Caramba! - digo finalmente. - A Lilian iria adorar isto.
- Iria sim se ainda fosse uma feiticeira, mas ela agora é um anjo, já não faz magia. - diz Lara de costas para mim admirando as armas encantadas.
- A Lilian um anjo, hm, como gostaria de a ter visto nessa forma. - uma nuvem de pó grosso liberta-se quando fecho um livro de capa azul. - Bom, sem uma feiticeira estes livros e pergaminhos não nos irão ser úteis.
- Não há nada aqui que nos possa ser útil. - rosna Lara exasperada. - Armas encantadas que não podemos usar, magias que não sabemos controlar e ouro que nunca iremos poder gastar. Estamos aqui presos, Cav, presos!
- Calma, Lara, calma, ainda não vimos o sarcófago.
- Esse também não deve ter nada, apenas a gema que entregámos à Ursula.
- Não custa nada tentar, aliás, eu não te contei, mas quando resgatámos a gema eu vi-o.
- Viste o quê? O espírito do velho? - pergunta a demónio incrédula.
- Sim, por momentos vi-o, mas depois desapareceu. Estava a querer dizer-me algo, mas eu não percebi.
- E só agora é que mo dizes? Devias ter-me dito isso logo no início, Cav, não teríamos perdido este tempo todo.
- Como assim? Não me digas que consegues invocar e conversar com espíritos. - digo sorrindo.
- Hm, hm. - diz ela anuindo com a cabeça e aproximando-se do cadáver.
- Mas tu és um demónio e não um anjo, pensei que só os anjos tinham essa capacidade.
- Cav, os anjos e os demónios são feitos da mesma matéria, são como dois lados opostos da mesma moeda. Nós demónios fazemos o queremos, vivemos a vida de uma maneira egoísta, digamos assim, enquanto eles vivem para zelar pelo bem estar de todos, ou assim o dizem, pois no meu entender são uma cambada de orgulhosos que no fundo, no fundo querem é ser venerados. Basicamente temos os mesmos poderes, por isso é que as nossas guerras acabam sempre empatadas.
- Sim...
- Enfim, confia em mim humano, se eu te digo que sei falar com os mortos é porque o sei. Mais tarde conversaremos melhor, falar-te-ei de certas coisas sobre eles que vocês não sabem, vais ficar surpreendido e no final verás que eles não são assim tão bonzinhos como dizem ser. - a demónio pisca-me o olho e coloca a sua mão sobre o crâneo o feiticeiro começando a murmurar palavras incompreensíveis.
A sala fica gelada e um arrepio de frio percorre a minha espinha, a iluminação da câmara parece baixar consideravelmente e a sensação de um milhão de olhos a observarem-me de todos os lados invade-me. No canto da sala uma sombra começa a mexer-se, a princípio parece ser provocada pelo suave tremelicar da tocha, mas depois ganha forma e move-se na direcção da demónio.
- Quem me ousa acordar do meu sono eterno? - pergunta com uma voz sobrenatural.
A demónio morde o lábio e olha para mim antes de começar a falar.
- Uma demónio que precisa de ajuda. - diz ela num tom de voz quase imperceptível.
- Ajuda!? Um demónio? E porque haveria eu de ajudar uma criatura tão desprezível?
Noto um brilho de raiva no olhar de Lara que depressa desaparece.
- Porque os mortos-vivos que estavam presos neste vale foram libertados.
- Como? E quem foi que os libertou? Isto nunca deveria ter acontecido, nunca! Aquela bruxa não pode ficar à solta, tem de ser detida!
- Nós sabemos disso, mas precisamos de saber como é que a "matamos", se é que se pode matar algo que já está morto?
- Nós? Quem está aí contigo?
- Um humano. - diz Lara apontando na minha direcção.
Sem saber o que fazer, esboço um sorriso e cumprimento-o.
- E-eu conheço-te, t-tu devias estar morto. - diz ele numa voz trémula.
Lara e eu olhamos um para o outro.
- Mas garanto-lhe que estou bem vivo. Precisamos da sua ajuda, a gema branca foi destruída e agora não sabemos como deter esta ameaça.
- A gema... Sim, sim, temos de a impedir. Mas o preço vai ser alto de mais para mim.
- Como assim? - pergunta Lara.
A voz do velho feiticeiro torna-se fraca e cansada como se todo o peso do mundo fizesse pressão sobre ela.
- Terão de usar o diamante preto, uma jóia muito poderosa, mas que irá destruir todo este vale encantador. Quando digo tudo, digo mesmo tudo, vivos, mortos e almas.
- A Ursula e os seus esbirros afastaram-se quando o viram, parece que pressentiam o seu poder.
- Sim, ela sabe o que a pedra faz, mas desconhecia a sua presença. Aquela rameira, aquela traidora roubou-me tudo o que eu tinha de mais sagrado, por isso é que a amaldiçoei, a ela e a todos os seus seguidores. Infelizmente cresci nesta zona, este vale foi a minha casa durante longos anos, anos muito felizes, e por causa disso não fui capaz de o destruir. Mas esse era o meu destino, devia tê-lo cumprido, só os Deuses sabem quantos vivos foram corrompidos por ela...
- Como é que activamos o seu poder? - pergunta Lara pouco interessada na história do feiticeira.
- Hã? Paciência, minha filha, paciência. Eu sei que a minha história te aborrece, mas é tudo o que me resta.
- Não devemos ficar agarrados ao mundo dos vivos, feiticeiro, devemos aceitar a morte e partir.
- É fácil para ti dizê-lo, demónio, não conheces a morte nem a dor da separação de pessoas que amamos.
- Dizes tu, feiticeiro, dizes tu...
Olho para Lara intrigado, o que quererá ela dizer com aquilo?
- Mas tens razão, tudo não passa agora de memórias vãs, memórias de um espírito que já nem devia existir. Para activar a pedra terás de a colocar na mão de uma estatueta de ouro que se encontra na villa. A Ursula sempre desconheceu o propósito dessa estatueta e ainda bem, pois se soubesse o que ela faz muito certamente que já a tinha destruído.
- E como é que reconheço a estatueta?
- Simples, é uma réplica da Ursula. Irónico não acham?
- Muito. - digo sorrindo.
- E como é que saímos daqui, a entrada principal está guardada.
- Por debaixo do sarcófago existe uma passagem que irá dar directamente à villa, uma vez lá dentro procurem pela estatueta, que, tendo em conta o narcisismo da Ursula, deve estar no seu quarto.
- Obrigado. - diz Lara sorrindo.
- Uma vez activada a pedra esta ficará branca e terão apenas quinze minutos para fugir da aldeia, se não conseguirem serão totalmente destruídos.
O espírito desaparece momentos depois e seguindo as suas instruções afastamos o sarcófago e deparamo-nos com uma nova saída.
A villa parece estar desabitada, todos os cidadãos da cidade encontram-se à porta do templo esperando por nós. Não perdemos muito tempo a encontrar o quarto, este está logo ao lado daquele por onde entrámos, infelizmente, embora os seus esbirros estejam à nossa espera junto do templo, Ursula encontra-se no quarto admirando-se ao espelho.
- Ali está a estatueta. - sussurra Lara.
- Sim, mas como é que vamos passar pela feiticeira?
- Não te preocupes, eu trato disso, aquela cabra vai arrepender-se do dia em que ousou tocar-me.
Lara e eu entramos no quarto sem cerimónia, Ursula ao ver-nos lança um grito de espanto.
- Vocês? Mas como é que passaram pelos meus servos?
- Isso é uma longa história, mas se eu fosse a ti preocupava-me com o meu bem estar. - diz Lara desembainhando a espada.
Ursula sorri.
- És uma idiota se pensas que podes ferir-me com essa espada.
- Com esta espada? Não, só com ela não consigo, mas com a ajuda disto sim, aliás, com isto até te posso destruir. - a demónio sorri ao tirar de entre o seios o diamante negro.
A feiticeira solta um grito de terror ao vê-lo e recua tapando os olhos.
- Parece que o teu sorriso se desvaneceu, tu sabes bem que isto te pode matar, mas mais importante torna-te sensível aos meus golpes.
Ursula murmura um feitiço mas Lara desfere-lhe um golpe no braço descarnado quebrando a sua concentração e fazendo-a urrar de dor.
- Dói, não dói? - o olhar dourado de Lara parece deliciar-se com cada golpe e com cada grito de dor que é expelido do corpo moribundo da feiticeira. - Como te atreveste a tocar-me e a tentar matar-me? - grita a demónio deleitando-se com a tortura que inflingia na pobre mulher.
- Pára, pára, por favor pára. - implorava Ursula chorando copiosamente e encolhendo-se a um canto com as mãos protegendo o rosto, numa tentativa infrutífera de fazer parar a dor.
- Lara! - grito revoltado colocando a mão por cima do seu ombro. - Pára com isso, viemos aqui para a destruir, não para a torturar.
A demónio olha para mim, nos seus olhos dourados está estampado um brilho louco e nos seus lábios um sorriso de puro prazer.
- Ela merece, Cav, ela merece. - diz ela calmamente.
- Não, ninguém merece ser torturado, ninguém! - grito furioso arrancando-lhe das mãos o diamante.
A demónio não reage, observa-me sorrindo como se a minha fúria ainda a divertisse mais. Assim que coloco a pedra na estatueta esta torna-se branca e uma ligeira vibração faz tremer o candelabro.
- Pronto, agora é melhor fugirmos, não temos muito tempo.
- Antes de irmos há mais uma coisa que eu quero fazer. - diz a demónio olhando novamente para a Ursula. - Não a vamos deixar à solta, vamos acabar com ela.
Lara pega na feiticeira e sussurra-lhe algo ao ouvido, algo que não consigo ouvir mas que é dito com um sorriso nos lábios. Ursula geme e treme, mas antes que possa fazer algo a demónio aproxima-a da estatueta e encosta o seu rosto ao diamante. A feiticeira solta um grito pavoroso e eu sou obrigado a desviar o olhar enquanto o seu corpo é consumido por chamas brancas. Sorrindo maliciosamente Lara corre dali para fora na direcção da estalagem e dos nossos cavalos, sigo-a e minutos depois estamos fora da aldeia e do vale. Com um brilho intenso tudo é destruído e o vale outrora verde e cheio de vida torna-se agora negro e estéril.
sexta-feira, setembro 29, 2006
Unyard (3ª Parte)
As gargalhadas gélidas fazem-se ouvir novamente assim que eu e Lara desembainhamos as nossas espadas.
- Vocês são de facto uns autênticos heróis, mesmo sabendo que estão em inferioridade numérica não se dão por vencidos. Louvo a vossa atitude, mas o vosso destino está traçado. - Ursula sorri novamente e com um gesto ordena aos seus esbirros para nos cercarem e prenderem.
Lara e eu tentamos defender-nos mas eles são demasiados e acabamos por ser dominados. Ursula aproxima-se de nós com um sorriso triunfante e diabólico nos lábios - se é que se pode chamar àqueles pedaços de carne decomposta, de lábios -, com um movimento ligeiro coloca as suas mãos esqueléticas sobre as nossas cabeças e começa a murmurar palavras desconhecidas. Lara e eu debatemo-nos desesperadamente mas os nossos pulsos e as nossas pernas estão firmemente presas pelos restantes mortos-vivos que nos cercam. Um arrepio gelado percorre a minha espinha, começo a sentir a minha força a esvair-se, a minha energia vital a ser sugada por aquelas garras descarnadas; olho para a demónio e vejo que também ela está a sentir o mesmo que eu, os seus olhos dourados estão baços e a sua pele prateada está mais pálida do que é costume. Por momentos os nossos olhares cruzam-se e ambos sorrimos um para o outro como se nos estivéssemos a despedir, um sorriso sem malícia, sem desejo e sem segundas intenções, apenas um sorriso puro de amizade entre dois companheiros, amigos e amantes. Lara volta a debater-se num último acto de resistência e no processo a sua bolsa solta-se do seu cinto e cai no chão atirando cá para fora a gargantilha com o diamante negro. Ao vê-lo todos os mortos-vivos soltam um grito de pavor e recuam, a própria Ursula liberta-nos das suas garras medonhas e cambaleia para trás tapando os olhos com o braço.
Lara e eu aproveitamos a oportunidade para reagir, pegamos nas nossas espadas que jazem no chão e na bolsa com o diamante e corremos o mais depressa que podemos para o interior do templo fechando as pesadas portas atrás de nós.
Exaustos, sentamo-nos no chão ofegantes.
- Bolas, isto é que foi sorte. - diz Lara limpando o suor da testa.
- Sim, os Deuses estavam do nosso lado. - respondo tentando sorrir.
- Para a próxima, Cav, confia no meu instinto, eu bem te disse que estes tipos não eram o que pareciam, o meu faro nunca me engana.
- Ai, Lara, está bem, não me batas mais com esse assunto.
- É para ver se entra nessa cabeça dura.
Olhamos um para o outro e começamos a rir.
- Temos de encontrar uma maneira de sair daqui e de deter estes mortos-vivos. - digo momentos depois com uma expressão séria.
- Bom, ao menos sabemos que este diamante os assusta e isso já é bom. - diz Lara contemplando a pedra.
- Foi uma sorte teres roubado isso, se tivesses feito o que eu te tinha dito a esta hora éramos uns autênticos zombies.
- Vês, eu tenho sempre razão, meu querido, sempre. - Lara sorri para mim e beija-me na boca.
- Tu tens é um ego enorme, minha demónio, e uma sorte tremenda. - murmuro afagando-lhe o cabelo e retribuindo o beijo. - Temos de voltar à câmara, certamente que encontraremos algo lá que nos possa ser útil.
- E se encontrarmos o espírito do velho?
- Pedimos-lhe ajuda. - respondo levantando-me. - Depois do que passámos, estou por tudo...
- Vocês são de facto uns autênticos heróis, mesmo sabendo que estão em inferioridade numérica não se dão por vencidos. Louvo a vossa atitude, mas o vosso destino está traçado. - Ursula sorri novamente e com um gesto ordena aos seus esbirros para nos cercarem e prenderem.
Lara e eu tentamos defender-nos mas eles são demasiados e acabamos por ser dominados. Ursula aproxima-se de nós com um sorriso triunfante e diabólico nos lábios - se é que se pode chamar àqueles pedaços de carne decomposta, de lábios -, com um movimento ligeiro coloca as suas mãos esqueléticas sobre as nossas cabeças e começa a murmurar palavras desconhecidas. Lara e eu debatemo-nos desesperadamente mas os nossos pulsos e as nossas pernas estão firmemente presas pelos restantes mortos-vivos que nos cercam. Um arrepio gelado percorre a minha espinha, começo a sentir a minha força a esvair-se, a minha energia vital a ser sugada por aquelas garras descarnadas; olho para a demónio e vejo que também ela está a sentir o mesmo que eu, os seus olhos dourados estão baços e a sua pele prateada está mais pálida do que é costume. Por momentos os nossos olhares cruzam-se e ambos sorrimos um para o outro como se nos estivéssemos a despedir, um sorriso sem malícia, sem desejo e sem segundas intenções, apenas um sorriso puro de amizade entre dois companheiros, amigos e amantes. Lara volta a debater-se num último acto de resistência e no processo a sua bolsa solta-se do seu cinto e cai no chão atirando cá para fora a gargantilha com o diamante negro. Ao vê-lo todos os mortos-vivos soltam um grito de pavor e recuam, a própria Ursula liberta-nos das suas garras medonhas e cambaleia para trás tapando os olhos com o braço.
Lara e eu aproveitamos a oportunidade para reagir, pegamos nas nossas espadas que jazem no chão e na bolsa com o diamante e corremos o mais depressa que podemos para o interior do templo fechando as pesadas portas atrás de nós.
Exaustos, sentamo-nos no chão ofegantes.
- Bolas, isto é que foi sorte. - diz Lara limpando o suor da testa.
- Sim, os Deuses estavam do nosso lado. - respondo tentando sorrir.
- Para a próxima, Cav, confia no meu instinto, eu bem te disse que estes tipos não eram o que pareciam, o meu faro nunca me engana.
- Ai, Lara, está bem, não me batas mais com esse assunto.
- É para ver se entra nessa cabeça dura.
Olhamos um para o outro e começamos a rir.
- Temos de encontrar uma maneira de sair daqui e de deter estes mortos-vivos. - digo momentos depois com uma expressão séria.
- Bom, ao menos sabemos que este diamante os assusta e isso já é bom. - diz Lara contemplando a pedra.
- Foi uma sorte teres roubado isso, se tivesses feito o que eu te tinha dito a esta hora éramos uns autênticos zombies.
- Vês, eu tenho sempre razão, meu querido, sempre. - Lara sorri para mim e beija-me na boca.
- Tu tens é um ego enorme, minha demónio, e uma sorte tremenda. - murmuro afagando-lhe o cabelo e retribuindo o beijo. - Temos de voltar à câmara, certamente que encontraremos algo lá que nos possa ser útil.
- E se encontrarmos o espírito do velho?
- Pedimos-lhe ajuda. - respondo levantando-me. - Depois do que passámos, estou por tudo...
segunda-feira, setembro 25, 2006
Unyard (2ª Parte)
No dia seguinte Ursula guia-nos até ao templo, tanto eu como Lara ficamos um pouco admirados por este se encontrar em tão más condições, geralmente um templo é um dos edifícios mais importantes de uma cidade, vila, ou aldeia, é um local de culto e uma moradia temporária do Deus, ou Deuses, da região. Os seus jardins estão em péssimas condições, repletos de ervas daninhas e de árvores mortas; as colunas jónicas, outrora brancas, encontram-se partidas e negras; as telhas alaranjadas estão quebradas e cobertas de musgo e as colossais portas desta casa de culto estão seladas, intocáveis, e em seu redor podem ler-se uns caracteres estranhos, alguns consumidos pelo tempo, tornando impossível a leitura correcta da mensagem.
- Mandámos selar as portas logo depois do incidente. - começa Ursula como se tivesse lido o nosso pensamento. - Com medo deste espírito inquieto acabámos por evitar este local tão adorado para nós.
- Hm, o que diziam estas inscrições? - pergunta Lara passando os dedos sobre os caracteres firmemente marcados na parede.
- Eu não sei, este templo já aqui se encontrava quando o meu tetra-avô mandou construir a villa. - Ursula olha para mim tentando evitar o olhar de Lara. - Aqui está a chave que irá abrir as portas, segundo a lenda, a força do feiticeiro provinha de uma gema branca, se a destruirem, ou se ma entregarem, tenho a certeza que nos iremos livrar desta maldição. - Ursula sorri sedutoramente para mim e entrega-me a chave. - Serão bem recompensados se conseguirem salvar-nos.
As portas fecham-se atrás de nós, o estado interior do templo está bem pior do que o exterior, estátuas dedicadas a Deuses estão espalhadas pelo chão irremediavelmente quebradas e desfiguradas, nas paredes pouco se reconhece dos ricos frescos que as enfeitavam e por todo o lado estão depositadas camadas e camadas de pó.
- Viste a reacção dela quando lhe perguntei sobre a inscrição? - pergunta Lara virando-se para mim minutos depois de entrarmos. - Ela sabia muito bem o que estava ali escrito.
- Sim, eu reparei, e reparei também que este lugar está abandonado há muito mais do que um ano. Tinhas razão, Lara, há algo que não bate certo nisto tudo.
- Finalmente, Cav, começaste a pensar com o teu cérebro.
- Mais vale tarde que nunca, como se costuma dizer. - digo sorrindo. - Bom, o melhor é continuarmos, mas com cuidado.
Vamos penetrando cada vez mais no interior do templo, não encontramos nada de interesse, a maioria das coisas estão partidas ou simplesmente desfeitas pelo tempo. Passado uma hora sem encontrar nada de relevante, chegamos a uma abertura na rocha, à volta dela encontram-se novamente os caracteres que rodeavam a entrada deste edifício, mas infelizmente também estes se encontram ilegíveis. Após investigar por armadilhas ocultas, Lara dá-me o sinal de que podemos avançar, o que encontramos, deixa-nos sem palavras: uma sala forrada a ouro, repleta dos tesouros mais incríveis que podemos imaginar, no centro, encontra-se um enorme sarcófago de ouro, muito provavelmente a última residência do tal feiticeiro.
- Olha para isto! - diz Lara mergulhando as mãos nos caixotes recheados de moedas e jóias. - Estamos ricos!
- Não estamos aqui para roubar, Lara, estamos aqui para resgatar a tal gema.
- Fala por ti, Cav, eu vou levar tudo o que me apetecer. - diz Lara admirando uns brincos de ouro e prata com esmeraldas incrustadas e uma bela gargantilha com um enorme diamante negro pendurado. - Que tal, achas que me ficam bem?
- Lara, pára com isso e ajuda-me aqui a abrir o sarcófago.
A demónio coloca os seus novos pertences na sua bolsa e juntos empurramos a pesada tampa. Lá dentro está um esqueleto segurando uma gema branca.
- Eureka, encontrámo-la. - digo tirando a gema das garras do esqueleto.
Assim que o faço um vulto negro aparece à nossa frente, os seus olhos estão tristes e os seus lábios movem-se, mas nenhum som se propaga.
- O que é que se passa? - pergunta Lara batendo-me no ombro.
- Não estás a vê-lo?
- A ver o quê? Estou é a ver-te a ti com uma cara de parvo a olhar para o vazio.
- Ali! Não o estás a ver? Está mesmo à nossa frente.
- Cav, estás a começar a preocupar-me, explica-te!
Esfrego os meus olhos e volto a olhar para o local onde se encontra o vulto, mas ele já lá não está, terá sido impressão minha? Talvez fruto da minha imaginação devido àquelas histórias do espírito do velho feiticeiro.
- N-não é nada, Lara, vamos embora!
Ursula e todos os outros habitantes da pequena povoação esperam por nós cá fora, ao verem a gema nas minhas mãos soltam gritos e uivos de alegria.
- Vocês são uns heróis, salvaram-nos. - diz Ursula não tirando os olhos da gema. - Agora por favor dêem-ma, para que a possa destruir e libertar finalmente o vale da maldição.
Lara olha para mim e de certa forma compreendo-a, mas sorrio para ela tentando tranquiliza-la.
- Aqui tem! - digo entregando-lhe a gema.
No preciso momento em que o faço o céu escurece e aquela mão pálida e bela transforma-se rapidamente numa garra esquelética com pedaços de carne agarrada.
- Finalmente! - grita Ursula. - Finalmente estamos livres! - e com uma palavra a gema desfaz-se. À nossa frente já não se encontra uma bela mulher, mas sim um morto vivo cujo olhar esverdeado se deleita com a nossa presença. - Agora vamos tratar de negócios, prometi-vos uma recompensa e tê-la-ão, o que pensam da vida eterna? - Uma gargalhada gélida é expelida do seu corpo sem vida e imitada por todos os outros habitantes, também estes mortos-vivos.
- Vês, Cav, vês? Eu bem te dizia que havia algo de errado aqui! - grita a demónio sacando a espada.
- Mandámos selar as portas logo depois do incidente. - começa Ursula como se tivesse lido o nosso pensamento. - Com medo deste espírito inquieto acabámos por evitar este local tão adorado para nós.
- Hm, o que diziam estas inscrições? - pergunta Lara passando os dedos sobre os caracteres firmemente marcados na parede.
- Eu não sei, este templo já aqui se encontrava quando o meu tetra-avô mandou construir a villa. - Ursula olha para mim tentando evitar o olhar de Lara. - Aqui está a chave que irá abrir as portas, segundo a lenda, a força do feiticeiro provinha de uma gema branca, se a destruirem, ou se ma entregarem, tenho a certeza que nos iremos livrar desta maldição. - Ursula sorri sedutoramente para mim e entrega-me a chave. - Serão bem recompensados se conseguirem salvar-nos.
As portas fecham-se atrás de nós, o estado interior do templo está bem pior do que o exterior, estátuas dedicadas a Deuses estão espalhadas pelo chão irremediavelmente quebradas e desfiguradas, nas paredes pouco se reconhece dos ricos frescos que as enfeitavam e por todo o lado estão depositadas camadas e camadas de pó.
- Viste a reacção dela quando lhe perguntei sobre a inscrição? - pergunta Lara virando-se para mim minutos depois de entrarmos. - Ela sabia muito bem o que estava ali escrito.
- Sim, eu reparei, e reparei também que este lugar está abandonado há muito mais do que um ano. Tinhas razão, Lara, há algo que não bate certo nisto tudo.
- Finalmente, Cav, começaste a pensar com o teu cérebro.
- Mais vale tarde que nunca, como se costuma dizer. - digo sorrindo. - Bom, o melhor é continuarmos, mas com cuidado.
Vamos penetrando cada vez mais no interior do templo, não encontramos nada de interesse, a maioria das coisas estão partidas ou simplesmente desfeitas pelo tempo. Passado uma hora sem encontrar nada de relevante, chegamos a uma abertura na rocha, à volta dela encontram-se novamente os caracteres que rodeavam a entrada deste edifício, mas infelizmente também estes se encontram ilegíveis. Após investigar por armadilhas ocultas, Lara dá-me o sinal de que podemos avançar, o que encontramos, deixa-nos sem palavras: uma sala forrada a ouro, repleta dos tesouros mais incríveis que podemos imaginar, no centro, encontra-se um enorme sarcófago de ouro, muito provavelmente a última residência do tal feiticeiro.
- Olha para isto! - diz Lara mergulhando as mãos nos caixotes recheados de moedas e jóias. - Estamos ricos!
- Não estamos aqui para roubar, Lara, estamos aqui para resgatar a tal gema.
- Fala por ti, Cav, eu vou levar tudo o que me apetecer. - diz Lara admirando uns brincos de ouro e prata com esmeraldas incrustadas e uma bela gargantilha com um enorme diamante negro pendurado. - Que tal, achas que me ficam bem?
- Lara, pára com isso e ajuda-me aqui a abrir o sarcófago.
A demónio coloca os seus novos pertences na sua bolsa e juntos empurramos a pesada tampa. Lá dentro está um esqueleto segurando uma gema branca.
- Eureka, encontrámo-la. - digo tirando a gema das garras do esqueleto.
Assim que o faço um vulto negro aparece à nossa frente, os seus olhos estão tristes e os seus lábios movem-se, mas nenhum som se propaga.
- O que é que se passa? - pergunta Lara batendo-me no ombro.
- Não estás a vê-lo?
- A ver o quê? Estou é a ver-te a ti com uma cara de parvo a olhar para o vazio.
- Ali! Não o estás a ver? Está mesmo à nossa frente.
- Cav, estás a começar a preocupar-me, explica-te!
Esfrego os meus olhos e volto a olhar para o local onde se encontra o vulto, mas ele já lá não está, terá sido impressão minha? Talvez fruto da minha imaginação devido àquelas histórias do espírito do velho feiticeiro.
- N-não é nada, Lara, vamos embora!
Ursula e todos os outros habitantes da pequena povoação esperam por nós cá fora, ao verem a gema nas minhas mãos soltam gritos e uivos de alegria.
- Vocês são uns heróis, salvaram-nos. - diz Ursula não tirando os olhos da gema. - Agora por favor dêem-ma, para que a possa destruir e libertar finalmente o vale da maldição.
Lara olha para mim e de certa forma compreendo-a, mas sorrio para ela tentando tranquiliza-la.
- Aqui tem! - digo entregando-lhe a gema.
No preciso momento em que o faço o céu escurece e aquela mão pálida e bela transforma-se rapidamente numa garra esquelética com pedaços de carne agarrada.
- Finalmente! - grita Ursula. - Finalmente estamos livres! - e com uma palavra a gema desfaz-se. À nossa frente já não se encontra uma bela mulher, mas sim um morto vivo cujo olhar esverdeado se deleita com a nossa presença. - Agora vamos tratar de negócios, prometi-vos uma recompensa e tê-la-ão, o que pensam da vida eterna? - Uma gargalhada gélida é expelida do seu corpo sem vida e imitada por todos os outros habitantes, também estes mortos-vivos.
- Vês, Cav, vês? Eu bem te dizia que havia algo de errado aqui! - grita a demónio sacando a espada.
Unyard (1ª Parte)
A pequena povoação de Unyard está situada num belo e fértil vale, é um local pacato com meia dúzia de casas, uma estalagem, um templo e um modesto bordel. Toda a vida da localidade centra-se à volta de uma enorme villa que funciona como uma espécie de câmara municipal e é a residência da dona das terras, a Dama Ursula Justa. Decididos a comprar mantimentos frescos e dormir, nem que seja por uma noite, numa cama macia e confortável, Lara e eu saímos da estrada para Briseida e tomámos o rumo desta povoação.
- Ai, que bom que é voltar a dormir numa estalagem. - digo atirando-me sem cerimónia sobre a cama.
- Sim, também já estava com saudades, mas... - a demónio olha para mim com um semblante carregado.
- ... Mas ainda estás com aquele pressentimento, não é?
- É! Cav, há algo de errado aqui, eu não sei o que é mas consigo senti-lo.
- Isso deve ser cansaço, as pessoas pareceram-me bastante simpáticas, até aquela tal de Ursula.
- Oh sim, essa então foi simpaticíssima, não parava de te lançar olhares e sorrisinhos. Bolas, Cav, será que não te importas de pensar com a cabeça de cima para variar?
Solto uma gargalhada
- Olha quem fala, tu que estás sempre a pensar em perversões a dar-me lições de moral.
Lara lança-me um olhar fulminante carregado de irritação.
- Isto é sério, há algo neste local que me dá arrepios.
- Hm, quem te vai dar arrepios sou eu, minha demónio, mas de prazer. - levanto-me e abraço-a por trás beijando maliciosamente a sua nuca e sussurrando-lhe ao ouvido. - Esquece isso e concentra-te noutra coisa.
A demónio sorri e nada mais diz.
As roupas voam pelo ar enquanto as nossas línguas dançam ao ritmo do desejo, os nossos corpos anseiam um pelo outro de uma forma louca e incontrolável. A demónio atira-me sobre a cama e com um sorriso que só ela consegue fazer começa a lamber e a chupar o meu falo duro. Eu deixo-me levar pelas ondas de prazer que percorrem o meu corpo obrigando-me a soltar espasmos de incontrolável deleite, as minhas mãos afagam e puxam o seu cabelo acompanhando os movimentos ascendentes e descendentes e controlando de certa forma o ritmo e a intensidade.
Subitamente ouve-se um bater na porta.
- Que merda! - diz Lara irritada. - Não podiam ter escolhido uma melhor altura?
- Ignora... - digo olhando para ela completamente rendido.
As pancadas tornam-se mais fortes e insistentes e acabamos por ter de interromper o que começámos.
- Mas o que é que se passa! - grita Lara abrindo a porta furiosa.
Do outro lado encontra-se um rapaz de quinze anos que fica quase sem palavras ao ver uma demónio nua e furiosa à sua frente.
- E-eu, v-venho entregar uma m-mensagem u-urgente. - diz o rapaz gaguejante e mais vermelho que um tomate. - A Senhora U-Ursula precisa de v-vos falar, pede para que v-venham imediatamente a c-casa dela.
Lara bufa de raiva e o rapaz aproveita a deixa para fugir dali para fora.
- Bom, é melhor irmos. - digo começando a vestir-me.
- Ainda não. - diz Lara fechando a porta e sorrindo maliciosamente. - Temos algo para acabar.
- Concordo, acho que o que quer que ela queira de nós poderá esperar mais uns quinze minutos...
Ursula Justa é uma mulher que gosta de conforto, a sua villa é um exemplo disso, recheada com as melhores tapeçarias, quadros, móveis e tudo o mais que uma pessoa abastada possa querer. É uma mulher de 35 anos, muito bela e atraente, os seus olhos azuis reflectem uma personalidade forte e a sua roupa e jóias exibem a sua condição e classe.
Somos recebidos com toda a cortesia, Ursula não poupa a esforços para nos agradar e para nos fazer sentir confortáveis, ao nosso dispor são colocados vários vinhos e iguarias. Ao ver que recusamos delicadamente tudo o que nos oferece expõe imediatamente o assunto.
- Primeiro que tudo - começa ela com uma voz doce e agradável. - quero pedir-vos desculpa por vos ter interrompido, mas o assunto que vos traz aqui é deveras urgente. - faz uma pausa para bebericar um pouco da sua bebida e depois continua. - Esta pequena povoação está em perigo e eu não sei o que fazer, estou desesperada. Há um ano um dos meus empregados encontrou um túmulo muito antigo por debaixo do templo, levado pela cobiça e não lendo as inscrições nas paredes, decidiu abri-lo; pobre coitado, foi a última coisa que fez. Segundo a lenda, um temível feiticeiro foi ali enterrado e agora que foi acordado do seu sono eterno decidiu lançar uma maldição sobre todo o vale. Somos obrigados a ficar aqui, não podemos sair e se o tentarmos morremos. E-eu já não sei o que fazer - diz ela levando as mãos à cara e começando a chorar. -, as nossas colheitas estão a definhar, o nosso gado está a morrer, a caça e o peixe fugiram e os poços estão a secar, se isto continuar acabamos por morrer à fome e à sede. Mandei chamar-vos porque vocês parecem o estilo de pessoas que está habituado a este tipo de coisas, por isso eu peço-vos, não, eu imploro-vos, ajudem-nos!
- Ora aí está porque é que pressentias algo de errado - digo baixinho virando-me para a demónio. -, o vale está amaldiçoado.
- Sim, deve ser isso... - diz ela fitando intensamente a mulher. - Seja como for, devemos investigar.
- Óptimo! Cara Senhora Ursula Justa, não se preocupe que nós vamos ajudá-la.
- Ai, que bom que é voltar a dormir numa estalagem. - digo atirando-me sem cerimónia sobre a cama.
- Sim, também já estava com saudades, mas... - a demónio olha para mim com um semblante carregado.
- ... Mas ainda estás com aquele pressentimento, não é?
- É! Cav, há algo de errado aqui, eu não sei o que é mas consigo senti-lo.
- Isso deve ser cansaço, as pessoas pareceram-me bastante simpáticas, até aquela tal de Ursula.
- Oh sim, essa então foi simpaticíssima, não parava de te lançar olhares e sorrisinhos. Bolas, Cav, será que não te importas de pensar com a cabeça de cima para variar?
Solto uma gargalhada
- Olha quem fala, tu que estás sempre a pensar em perversões a dar-me lições de moral.
Lara lança-me um olhar fulminante carregado de irritação.
- Isto é sério, há algo neste local que me dá arrepios.
- Hm, quem te vai dar arrepios sou eu, minha demónio, mas de prazer. - levanto-me e abraço-a por trás beijando maliciosamente a sua nuca e sussurrando-lhe ao ouvido. - Esquece isso e concentra-te noutra coisa.
A demónio sorri e nada mais diz.
As roupas voam pelo ar enquanto as nossas línguas dançam ao ritmo do desejo, os nossos corpos anseiam um pelo outro de uma forma louca e incontrolável. A demónio atira-me sobre a cama e com um sorriso que só ela consegue fazer começa a lamber e a chupar o meu falo duro. Eu deixo-me levar pelas ondas de prazer que percorrem o meu corpo obrigando-me a soltar espasmos de incontrolável deleite, as minhas mãos afagam e puxam o seu cabelo acompanhando os movimentos ascendentes e descendentes e controlando de certa forma o ritmo e a intensidade.
Subitamente ouve-se um bater na porta.
- Que merda! - diz Lara irritada. - Não podiam ter escolhido uma melhor altura?
- Ignora... - digo olhando para ela completamente rendido.
As pancadas tornam-se mais fortes e insistentes e acabamos por ter de interromper o que começámos.
- Mas o que é que se passa! - grita Lara abrindo a porta furiosa.
Do outro lado encontra-se um rapaz de quinze anos que fica quase sem palavras ao ver uma demónio nua e furiosa à sua frente.
- E-eu, v-venho entregar uma m-mensagem u-urgente. - diz o rapaz gaguejante e mais vermelho que um tomate. - A Senhora U-Ursula precisa de v-vos falar, pede para que v-venham imediatamente a c-casa dela.
Lara bufa de raiva e o rapaz aproveita a deixa para fugir dali para fora.
- Bom, é melhor irmos. - digo começando a vestir-me.
- Ainda não. - diz Lara fechando a porta e sorrindo maliciosamente. - Temos algo para acabar.
- Concordo, acho que o que quer que ela queira de nós poderá esperar mais uns quinze minutos...
Ursula Justa é uma mulher que gosta de conforto, a sua villa é um exemplo disso, recheada com as melhores tapeçarias, quadros, móveis e tudo o mais que uma pessoa abastada possa querer. É uma mulher de 35 anos, muito bela e atraente, os seus olhos azuis reflectem uma personalidade forte e a sua roupa e jóias exibem a sua condição e classe.
Somos recebidos com toda a cortesia, Ursula não poupa a esforços para nos agradar e para nos fazer sentir confortáveis, ao nosso dispor são colocados vários vinhos e iguarias. Ao ver que recusamos delicadamente tudo o que nos oferece expõe imediatamente o assunto.
- Primeiro que tudo - começa ela com uma voz doce e agradável. - quero pedir-vos desculpa por vos ter interrompido, mas o assunto que vos traz aqui é deveras urgente. - faz uma pausa para bebericar um pouco da sua bebida e depois continua. - Esta pequena povoação está em perigo e eu não sei o que fazer, estou desesperada. Há um ano um dos meus empregados encontrou um túmulo muito antigo por debaixo do templo, levado pela cobiça e não lendo as inscrições nas paredes, decidiu abri-lo; pobre coitado, foi a última coisa que fez. Segundo a lenda, um temível feiticeiro foi ali enterrado e agora que foi acordado do seu sono eterno decidiu lançar uma maldição sobre todo o vale. Somos obrigados a ficar aqui, não podemos sair e se o tentarmos morremos. E-eu já não sei o que fazer - diz ela levando as mãos à cara e começando a chorar. -, as nossas colheitas estão a definhar, o nosso gado está a morrer, a caça e o peixe fugiram e os poços estão a secar, se isto continuar acabamos por morrer à fome e à sede. Mandei chamar-vos porque vocês parecem o estilo de pessoas que está habituado a este tipo de coisas, por isso eu peço-vos, não, eu imploro-vos, ajudem-nos!
- Ora aí está porque é que pressentias algo de errado - digo baixinho virando-me para a demónio. -, o vale está amaldiçoado.
- Sim, deve ser isso... - diz ela fitando intensamente a mulher. - Seja como for, devemos investigar.
- Óptimo! Cara Senhora Ursula Justa, não se preocupe que nós vamos ajudá-la.
quinta-feira, setembro 21, 2006
Uma Noite de Lua Cheia
O suave crepitar de uma fogueira e o saboroso aroma de um guisado acabadinho de fazer espalham-se pelo ar fresco da noite. Uma figura solitária mantém-se sentada perto do lume envergando um prático manto de viagem e segurando um prato de guisado quentinho, o seu olhar perde-se no céu estrelado e na enorme Lua cheia como se tivesse sido privado de uma tal visão durante um longo período de tempo.
- É linda, não é? - pergunta uma voz.
A figura vira-se imediatamente deixando cair o prato, instintivamente leva a mão direita à cintura como se procurasse o punho de uma espada, mas essa já lá não se encontra, foi, contra todas as expectativas, quebrada por uma magia muito forte.
- Quem está aí?
Uns olhos dourados emergem subitamente das sombras fitando com um prazer indescritível a figura que agora se coloca de pé.
- Ora, ora, mas será que já não reconheces a minha voz, Cav? - Uma mulher muito bela materializa-se à minha frente, os seus olhos cor de âmbar continuam presos nos meus, os seus lábios negros muito bem delineados exibem um sorriso sedutor mostrando os seus caninos afiados e uma língua marota, dos seus longos e lisos cabelos pretos emergem dois cornos retorcidos e a sua pele prateada parece reagir com a luz do luar dando-lhe um ar sobrenatural. Veste uma armadura de couro preto reforçado com metais, na cintura estão presas duas espadas curtas e nas botas acham-se escondidos dois punhais.
- Lara?
Ela avança para mim e lança-se nos meus braços dando-me um beijo na boca.
- Sentiste saudades minhas, humano? - pergunta ela lançando um olhar esfaimado para o guisado.
- O que estás aqui a fazer? Pensei que te tivesses ido embora para nunca mais voltar.
- E era isso que eu queria fazer, mas depois encontrei a Melissa e o Orfeu e eles disseram-me que agora estavas sozinho, por isso decidi juntar-me a ti. - diz ela piscando-me o olho e servindo-se de um pouco de comida.
- Mas como é que me encontraste, já não estamos ligados um ao outro.
- Que pergunta parva, Cav, sou uma assassina, sei muito bem como encontrar os meus alvos. E devo dizer que vocês humanos sempre foram fáceis de encontrar, basta seguir o vosso cheiro fedorento.
Sorrio para ela, não mudou nada, continua tão "adorável" como sempre.
- Se "cheiro" assim tão mal, então porque é que gostas da minha companhia? - sento-me ao seu lado servindo-me também de um pouco mais de guisado.
Ela limita-se a sorrir, mas não responde.
- Olha lá, - pergunta ela momentos depois. - o que é que aconteceu entre ti e a Ela? Pensei que por esta altura estivessem bem instalados num quarto a matar saudades.
- É uma longa história, depois eu conto-te. - bebo um pouco de água e depois olho para ela. - Porque é que o fizeste?
- Fazer o quê? - pergunta a demónio fitando-me intensamente como se soubesse perfeitamente do que eu estava a falar.
- Tu sabes, não te faças de parva, porque é que tu me salvaste? Não é teu costume teres estes rompantes de altruísmo.
- Eu era a tua serva e tu o meu senhor, fiz apenas a minha obrigação.
A demónio cala-se e percebo pelo seu olhar que não vale a pena insistir.
- Ainda bem que aqui estás, tive saudades tuas.
- Claro que tiveste, humano, serias louco se não sentisses a minha falta.
- Quanta modéstia, quanta modéstia...
- Já sabes o que vais fazer? - pergunta ela colocando o prato de lado e deitando-se na erva observando-me.
- Vou para Briseida, talvez lá arrange algum trabalho.
- Óptimo, vamos tornar-nos uma dupla temível. - diz ela sorrindo. - Ainda agora percebi que ainda não te habituaste à ausência da Elektra, levaste a mão à espada mas ela não estava lá.
- É verdade, sinto-me nú sem ela, mas quando chegarmos à cidade irei comprar uma nova.
- Até lá, podes ficar com uma das minhas. - diz ela pondo-se em pé e tirando uma das suas espadas curtas da cintura.
- Lara, eu não posso aceitar, elas são tuas e sei como as estimas.
- Cav, aceita, eu sei que contigo estará em boas mãos.
- Ai, Lara, salvas-me da morte, corres para te juntar a mim e agora ofereces-me aquilo que mais prezas nesta vida, se não te conhecesse tão bem até diria que estavas apaixonada por mim. - digo piscando-lhe o olho.
- Ah! deliras, só podes. Deves estar com sono, por isso toca a dormir que amanhã partimos cedo.
A demónio volta a deitar-se e prepara-se para dormir, eu imito-a.
- Lara, ainda bem que voltaste. - olho para ela ao dizer estas palavras e apesar de tudo iria jurar que um ligeiro sorriso se desenha nos seus lábios.
- É linda, não é? - pergunta uma voz.
A figura vira-se imediatamente deixando cair o prato, instintivamente leva a mão direita à cintura como se procurasse o punho de uma espada, mas essa já lá não se encontra, foi, contra todas as expectativas, quebrada por uma magia muito forte.
- Quem está aí?
Uns olhos dourados emergem subitamente das sombras fitando com um prazer indescritível a figura que agora se coloca de pé.
- Ora, ora, mas será que já não reconheces a minha voz, Cav? - Uma mulher muito bela materializa-se à minha frente, os seus olhos cor de âmbar continuam presos nos meus, os seus lábios negros muito bem delineados exibem um sorriso sedutor mostrando os seus caninos afiados e uma língua marota, dos seus longos e lisos cabelos pretos emergem dois cornos retorcidos e a sua pele prateada parece reagir com a luz do luar dando-lhe um ar sobrenatural. Veste uma armadura de couro preto reforçado com metais, na cintura estão presas duas espadas curtas e nas botas acham-se escondidos dois punhais.
- Lara?
Ela avança para mim e lança-se nos meus braços dando-me um beijo na boca.
- Sentiste saudades minhas, humano? - pergunta ela lançando um olhar esfaimado para o guisado.
- O que estás aqui a fazer? Pensei que te tivesses ido embora para nunca mais voltar.
- E era isso que eu queria fazer, mas depois encontrei a Melissa e o Orfeu e eles disseram-me que agora estavas sozinho, por isso decidi juntar-me a ti. - diz ela piscando-me o olho e servindo-se de um pouco de comida.
- Mas como é que me encontraste, já não estamos ligados um ao outro.
- Que pergunta parva, Cav, sou uma assassina, sei muito bem como encontrar os meus alvos. E devo dizer que vocês humanos sempre foram fáceis de encontrar, basta seguir o vosso cheiro fedorento.
Sorrio para ela, não mudou nada, continua tão "adorável" como sempre.
- Se "cheiro" assim tão mal, então porque é que gostas da minha companhia? - sento-me ao seu lado servindo-me também de um pouco mais de guisado.
Ela limita-se a sorrir, mas não responde.
- Olha lá, - pergunta ela momentos depois. - o que é que aconteceu entre ti e a Ela? Pensei que por esta altura estivessem bem instalados num quarto a matar saudades.
- É uma longa história, depois eu conto-te. - bebo um pouco de água e depois olho para ela. - Porque é que o fizeste?
- Fazer o quê? - pergunta a demónio fitando-me intensamente como se soubesse perfeitamente do que eu estava a falar.
- Tu sabes, não te faças de parva, porque é que tu me salvaste? Não é teu costume teres estes rompantes de altruísmo.
- Eu era a tua serva e tu o meu senhor, fiz apenas a minha obrigação.
A demónio cala-se e percebo pelo seu olhar que não vale a pena insistir.
- Ainda bem que aqui estás, tive saudades tuas.
- Claro que tiveste, humano, serias louco se não sentisses a minha falta.
- Quanta modéstia, quanta modéstia...
- Já sabes o que vais fazer? - pergunta ela colocando o prato de lado e deitando-se na erva observando-me.
- Vou para Briseida, talvez lá arrange algum trabalho.
- Óptimo, vamos tornar-nos uma dupla temível. - diz ela sorrindo. - Ainda agora percebi que ainda não te habituaste à ausência da Elektra, levaste a mão à espada mas ela não estava lá.
- É verdade, sinto-me nú sem ela, mas quando chegarmos à cidade irei comprar uma nova.
- Até lá, podes ficar com uma das minhas. - diz ela pondo-se em pé e tirando uma das suas espadas curtas da cintura.
- Lara, eu não posso aceitar, elas são tuas e sei como as estimas.
- Cav, aceita, eu sei que contigo estará em boas mãos.
- Ai, Lara, salvas-me da morte, corres para te juntar a mim e agora ofereces-me aquilo que mais prezas nesta vida, se não te conhecesse tão bem até diria que estavas apaixonada por mim. - digo piscando-lhe o olho.
- Ah! deliras, só podes. Deves estar com sono, por isso toca a dormir que amanhã partimos cedo.
A demónio volta a deitar-se e prepara-se para dormir, eu imito-a.
- Lara, ainda bem que voltaste. - olho para ela ao dizer estas palavras e apesar de tudo iria jurar que um ligeiro sorriso se desenha nos seus lábios.
quinta-feira, setembro 14, 2006
O Grupo Separa-se
Os primeiros raios de Sol penetram no quarto despertando-me do meu sono inquieto, os lençóis amarrotados e a almofada completamente empapada reflectem o meu estado de espírito durante aquela que considero a pior noite da minha vida. Felizmente a vida também tem coisas boas e não há nada como um bom banho quente para relaxar e colocar as ideias em ordem, deixo-me por isso ficar uma boa meia hora deitado na banheira inalando o vapor de água misturado com o cheirinho de sais de frutos. O meu coração ainda bate depressa quando penso na Ela, por minha vontade deixava tudo e entrava de rompante pelo seu quarto adentro colando os meus lábios aos dela e gritando bem alto o quanto a amava e que lhe perdoaria tudo, mas não posso, não consigo, algo dentro de mim impede-me de o fazer, o meu orgulho quiçá... Deixo-me afundar soltando poderosos suspiros dentro de água.
Momentos depois desço para o salão, a falta da Elektra faz-me sentir nú e incompleto, durante estes anos habituei-me a tê-la sempre ao meu lado e agora, sem ela, é como se tivesse perdido um braço ou outra parte de mim. Encontro Melissa e Orfeu sentados numa mesa ao pé de uma janela, é incrível, ainda ontem isto parecia um campo de batalha com mesas viradas e corpos por todo o lado, e agora é como se o que aconteceu ontem nunca tivesse acontecido, as pesadas mesas de madeira estão bem pregadas ao chão e muito bem tratadas, os candelabros e candeeiros encontram-se bem firmes nos tectos e nas paredes, as janelas e as portas permanecem intactas e o piso de madeira lustroso e reluzente. Sento-me ao lado deles com um sorriso, eles retribuem-no, mas apenas por delicadeza e não por gosto.
- Será que me podiam pôr a par de tudo o que aconteceu desde que defrontámos Gorath no deserto? - Pergunto calmamente enquanto devoro as torradas com manteiga e bebo o leite morno.
Eles olham um para o outro incrédulos.
- Não te lembras? - perguntam em conjunto.
- Não...
- De nada? - pergunta Melissa desconfiada.
- Já te disse que não, e aliás, tu és uma sacerdotisa, devias saber que as vitimas de possessão raramente se lembram de alguma coisa. - atiro-lhe um bocadinho irritado com a desconfiança.
Respirando fundo, Orfeu inicia o seu relato.
- ... E foi basicamente isto que aconteceu.
- Sim, muito resumidamente. - Diz Melissa sorrindo.
- Hm, então a Lilian foi-se embora, a minha espada está partida e esta tatuagem é na realidade uma armadura? Bonito, bonito... E a Lara, onde está?
- A Lara foi-se embora. - Diz Melissa bebendo o seu sumo.
- Como assim, foi-se embora?
- Ela não se despediu de ti? - Pergunta Orfeu.
- Não, não me disse nada.
- Esquisito...
- Ela disse para onde ia?
- Não, simplesmente disse que ia embora e hoje de manhã o seu quarto já estava vago.
Acabo de beber o meu leite quando a Ela se senta mesmo à minha frente, os seus olhos estavam vermelhos, provavelmente de ter estado a chorar durante a noite, tal como eu. O seu cumprimento é quente e um sorriso tímido forma-se nos seus lábios, no seu dedo anelar encontro as alianças que lhe atirei, ao vê-las o meu coração dispara e coro involuntariamente.
- Dormiste bem? - Pergunta ela lendo a resposta nos meus olhos.
- Na medida do possível... E tu?
- Também... Ouve, será que podemos falar um pouco melhor sobre a conversa de ontem?
- Não há mais nada para falar, está tudo dito.
- Está bem. - diz ela visivelmente entristecida.
Um silêncio profundo instala-se na nossa mesa, por fim, Melissa diz qualquer coisa.
- Cav, eu e o Orfeu decidimos partir, vamos para Luthein, existe lá um templo e quem sabe talvez precisem dos serviços de uma sacerdotisa e das histórias de um bardo.
Tendo em conta o estado das coisas, esta declaração não me surpreendeu.
- Eu compreendo, espero sinceramente que consigam arranjar alguma coisa por lá. Quando partem?
- Daqui a uma hora. Bom, agora vamos preparar as nossas coisas, até já!
E sem dizerem mais nada levantam-se e seguem para o quarto.
- Bom, parece que ficámos só nós os dois, como antigamente. - diz Eleanora piscando-me o olho.
- Eu também tomei uma decisão, Ela, vou partir, procurar aventuras por esse mundo fora.
- Eu posso ir contigo, éramos e podemos voltar a ser uma dupla. Ainda te lembras das nossas aventuras?
- Como me poderia esquecer, está tudo gravado na minha mente, tintim por tintim, mas tudo isso passou, tu morreste e eu tive de continuar sem ti.
- Mas estou aqui agora, à tua frente, eu amo-te Cav e eu consigo ler nos teus olhos que tu também me amas, nós...
- Por favor, Ela! Não dificultes ainda mais as coisas. Eu, ainda sinto algo por ti, mas isso vai mudar, tem de mudar. Tudo o que quero agora é recomeçar do zero, viver cada momento como se fosse a primeira vez e depois, só muito depois, se tu ainda ocupares o meu coração então eu procurar-te-ei e retomaremos de onde acabámos, até lá, deixa-me sozinho e em paz.
Levanto-me e dirijo-me para as escadas.
- Só mais uma coisa, vou acompanhá-los até saírmos do Mundo Inferior, se quiseres vir connosco não colocarei objecções, mas depois cada um seguirá o seu caminho.
Momentos depois desço para o salão, a falta da Elektra faz-me sentir nú e incompleto, durante estes anos habituei-me a tê-la sempre ao meu lado e agora, sem ela, é como se tivesse perdido um braço ou outra parte de mim. Encontro Melissa e Orfeu sentados numa mesa ao pé de uma janela, é incrível, ainda ontem isto parecia um campo de batalha com mesas viradas e corpos por todo o lado, e agora é como se o que aconteceu ontem nunca tivesse acontecido, as pesadas mesas de madeira estão bem pregadas ao chão e muito bem tratadas, os candelabros e candeeiros encontram-se bem firmes nos tectos e nas paredes, as janelas e as portas permanecem intactas e o piso de madeira lustroso e reluzente. Sento-me ao lado deles com um sorriso, eles retribuem-no, mas apenas por delicadeza e não por gosto.
- Será que me podiam pôr a par de tudo o que aconteceu desde que defrontámos Gorath no deserto? - Pergunto calmamente enquanto devoro as torradas com manteiga e bebo o leite morno.
Eles olham um para o outro incrédulos.
- Não te lembras? - perguntam em conjunto.
- Não...
- De nada? - pergunta Melissa desconfiada.
- Já te disse que não, e aliás, tu és uma sacerdotisa, devias saber que as vitimas de possessão raramente se lembram de alguma coisa. - atiro-lhe um bocadinho irritado com a desconfiança.
Respirando fundo, Orfeu inicia o seu relato.
- ... E foi basicamente isto que aconteceu.
- Sim, muito resumidamente. - Diz Melissa sorrindo.
- Hm, então a Lilian foi-se embora, a minha espada está partida e esta tatuagem é na realidade uma armadura? Bonito, bonito... E a Lara, onde está?
- A Lara foi-se embora. - Diz Melissa bebendo o seu sumo.
- Como assim, foi-se embora?
- Ela não se despediu de ti? - Pergunta Orfeu.
- Não, não me disse nada.
- Esquisito...
- Ela disse para onde ia?
- Não, simplesmente disse que ia embora e hoje de manhã o seu quarto já estava vago.
Acabo de beber o meu leite quando a Ela se senta mesmo à minha frente, os seus olhos estavam vermelhos, provavelmente de ter estado a chorar durante a noite, tal como eu. O seu cumprimento é quente e um sorriso tímido forma-se nos seus lábios, no seu dedo anelar encontro as alianças que lhe atirei, ao vê-las o meu coração dispara e coro involuntariamente.
- Dormiste bem? - Pergunta ela lendo a resposta nos meus olhos.
- Na medida do possível... E tu?
- Também... Ouve, será que podemos falar um pouco melhor sobre a conversa de ontem?
- Não há mais nada para falar, está tudo dito.
- Está bem. - diz ela visivelmente entristecida.
Um silêncio profundo instala-se na nossa mesa, por fim, Melissa diz qualquer coisa.
- Cav, eu e o Orfeu decidimos partir, vamos para Luthein, existe lá um templo e quem sabe talvez precisem dos serviços de uma sacerdotisa e das histórias de um bardo.
Tendo em conta o estado das coisas, esta declaração não me surpreendeu.
- Eu compreendo, espero sinceramente que consigam arranjar alguma coisa por lá. Quando partem?
- Daqui a uma hora. Bom, agora vamos preparar as nossas coisas, até já!
E sem dizerem mais nada levantam-se e seguem para o quarto.
- Bom, parece que ficámos só nós os dois, como antigamente. - diz Eleanora piscando-me o olho.
- Eu também tomei uma decisão, Ela, vou partir, procurar aventuras por esse mundo fora.
- Eu posso ir contigo, éramos e podemos voltar a ser uma dupla. Ainda te lembras das nossas aventuras?
- Como me poderia esquecer, está tudo gravado na minha mente, tintim por tintim, mas tudo isso passou, tu morreste e eu tive de continuar sem ti.
- Mas estou aqui agora, à tua frente, eu amo-te Cav e eu consigo ler nos teus olhos que tu também me amas, nós...
- Por favor, Ela! Não dificultes ainda mais as coisas. Eu, ainda sinto algo por ti, mas isso vai mudar, tem de mudar. Tudo o que quero agora é recomeçar do zero, viver cada momento como se fosse a primeira vez e depois, só muito depois, se tu ainda ocupares o meu coração então eu procurar-te-ei e retomaremos de onde acabámos, até lá, deixa-me sozinho e em paz.
Levanto-me e dirijo-me para as escadas.
- Só mais uma coisa, vou acompanhá-los até saírmos do Mundo Inferior, se quiseres vir connosco não colocarei objecções, mas depois cada um seguirá o seu caminho.
Ilusões Desfeitas
A Eleanora abriu-me a porta com um grande sorriso nos lábios, seus olhos verdes miravam-me de alto a baixo brilhando com puro deleite. Ela está ainda mais magnífica do que aquilo que me lembrava, os seus cabelos cor de fogo estão apanhados com um gancho de madrepérola em forma de cisne, seus lábios bem delineados conservam ainda um pouco daquele batôn tão gostoso que tantas vezes saboreei nos nossos demorados e molhados beijos, a sua pele macia e sedosa ainda exala o seu perfume característico, o odor de orquídeas selvagens e aquela voz, aquela voz tão deliciosa que nos encanta e nos prende logo na primeira sílaba, faz-me simplesmente estremecer. O meu coração parece que vai explodir, parece que me vai saltar pela boca e por uns momentos esqueço-me do pergaminho e do que lhe venho perguntar, apenas anseio, não, desejo, beijá-la e possuí-la ali mesmo, ao pé da porta, e retomar as loucuras que fizemos num passado agora tão distante.
A elfo ajeita o seu fino robe de seda vermelha e convida-me para entrar, dois pauzinhos de incenso queimam lentamente ao pé da cama impregnando o ar com o seu odor curioso. Eleanora senta-se calmamente sobre a cama e pede para que me sente num pequeno sofá de verga, suspiro pesadamente e olho em volta admirando o seu quarto, dou por mim, por diversas vezes, a olhar por entre as abertas do seu robe, contemplando o seu corpo nú e as suas formas quase divinas, ela sorri ao apanhar-me num desses olhares mas nada faz para se cobrir um pouco melhor. Coro e decido finalmente inciar a conversa.
- Ela, eu estive a ler a carta que a Tela te pediu para me entregares e...
- ... e queres saber aquilo que ela escreveu é verdade, queres saber se a minha morte foi apenas uma encenação. - Finaliza ela.
- Sim, é isso mesmo. Caramba, mesmo depois deste tempo todo ainda consegues prever as minhas acções. - Digo sorrindo enquanto me coloco mais confortável.
Ela sorri e de seguida olha para mim com uma expressão muito séria.
- Nunca te menti, e agora não iria ser a primeira vez, por isso, é tudo verdade, eu ajudei-a e a minha morte foi apenas uma encenação.
Fico estarrecido ao ouvir aquilo, é como se um balde de água gelada tivesse acabado de ser despejado em cima de mim.
- Eu... eu não posso crer...
- Por favor, tenta entender a minha posição. - diz ela afagando a minha mão. - Eu sempre pensei que tudo iria acabar bem, que dentro de uns dias o tal Geon estaria morto e eu regressaria de novo ao mundo dos vivos. Eu apenas fiz aquilo que julguei melhor para ti.
- Durante todo este tempo... - murmuro olhando o vazio - durante todo este tempo sempre me culpei pela tua morte e afinal de contas tudo isto não passou de uma ilusão!?
- Por favor, tenta compreender, tu tinhas um espírito maléfico dentro de ti, eu própria conseguia senti-lo.
- Eu abandonei tudo por tua causa, abandonei os meus homens, a minha carreira no Senado, o meu estilo de vida...
- Cav, por favor, olha para mim e tenta entender-me, diz-me que me perdoas, que podemos começar tudo de novo.
- Perdoar-te? Perdoar-te por durante dois anos ter praticamente morrido para o mundo? Por praticamente durante dois anos ter ficado com um enorme buraco no peito? Por descobrir que afinal de contas a mulher que eu mais amava nesta vida me traiu desta forma, que me causou tanta dor e desgosto? Diz-me, Ela, haverá perdão possível?
A elfo deixa-se cair de joelhos fitando-me com os olhos marejados de lágrimas.
- Não, não há perdão possível. O que te fiz não se faz, mas por favor, tenta entender, foi para te ajudar, foi por amor.
- Por amor!? - Levanto-me irado - Por AMOR!? Pelos Deuses, Ela, como eu sofri ao ter que te enterrar, como eu sofri ao entrar na nossa casa, no nosso quarto e sentir o teu cheiro em cada divisão, em cada peça de roupa. Como podes ousar dizer que o que fizeste foi por amor, COMO?
Ela fita-me em silêncio sem saber o que responder.
- Tudo na minha vida foi uma ilusão, até tu, aquela que eu considerava uma âncora, um porto de abrigo, não passaste de uma ilusão!
- Não, não...
- Pois bem, tudo termina hoje! Se foi para me torturar desta forma que regressaste mais valia teres continuado morta, "meu amor"! - Dirijo-me para a porta em passadas grandes e furiosas.
- Espera, por favor... - a sua voz é tão frágil que mal se pode ouvir.
- Está tudo acabado, Eleanora, tudo! Toma, já não quero mais estas porcarias, já não significam nada. - Com os olhos cravejados de lágrimas atiro-lhe as duas alianças que mantive sempre com tanto carinho no meu dedo anelar.
Fecho a porta com um estrondo e corro para o meu quarto sem saber o que fazer. Diz o ditado que a noite é boa conselheira, pois bem, esperarei pelo seu conselho, mas tudo o que mais anseio agora é chorar, chorar por ter sido um enorme idiota e ter sofrido tanto por alguém que não merecia.
A elfo ajeita o seu fino robe de seda vermelha e convida-me para entrar, dois pauzinhos de incenso queimam lentamente ao pé da cama impregnando o ar com o seu odor curioso. Eleanora senta-se calmamente sobre a cama e pede para que me sente num pequeno sofá de verga, suspiro pesadamente e olho em volta admirando o seu quarto, dou por mim, por diversas vezes, a olhar por entre as abertas do seu robe, contemplando o seu corpo nú e as suas formas quase divinas, ela sorri ao apanhar-me num desses olhares mas nada faz para se cobrir um pouco melhor. Coro e decido finalmente inciar a conversa.
- Ela, eu estive a ler a carta que a Tela te pediu para me entregares e...
- ... e queres saber aquilo que ela escreveu é verdade, queres saber se a minha morte foi apenas uma encenação. - Finaliza ela.
- Sim, é isso mesmo. Caramba, mesmo depois deste tempo todo ainda consegues prever as minhas acções. - Digo sorrindo enquanto me coloco mais confortável.
Ela sorri e de seguida olha para mim com uma expressão muito séria.
- Nunca te menti, e agora não iria ser a primeira vez, por isso, é tudo verdade, eu ajudei-a e a minha morte foi apenas uma encenação.
Fico estarrecido ao ouvir aquilo, é como se um balde de água gelada tivesse acabado de ser despejado em cima de mim.
- Eu... eu não posso crer...
- Por favor, tenta entender a minha posição. - diz ela afagando a minha mão. - Eu sempre pensei que tudo iria acabar bem, que dentro de uns dias o tal Geon estaria morto e eu regressaria de novo ao mundo dos vivos. Eu apenas fiz aquilo que julguei melhor para ti.
- Durante todo este tempo... - murmuro olhando o vazio - durante todo este tempo sempre me culpei pela tua morte e afinal de contas tudo isto não passou de uma ilusão!?
- Por favor, tenta compreender, tu tinhas um espírito maléfico dentro de ti, eu própria conseguia senti-lo.
- Eu abandonei tudo por tua causa, abandonei os meus homens, a minha carreira no Senado, o meu estilo de vida...
- Cav, por favor, olha para mim e tenta entender-me, diz-me que me perdoas, que podemos começar tudo de novo.
- Perdoar-te? Perdoar-te por durante dois anos ter praticamente morrido para o mundo? Por praticamente durante dois anos ter ficado com um enorme buraco no peito? Por descobrir que afinal de contas a mulher que eu mais amava nesta vida me traiu desta forma, que me causou tanta dor e desgosto? Diz-me, Ela, haverá perdão possível?
A elfo deixa-se cair de joelhos fitando-me com os olhos marejados de lágrimas.
- Não, não há perdão possível. O que te fiz não se faz, mas por favor, tenta entender, foi para te ajudar, foi por amor.
- Por amor!? - Levanto-me irado - Por AMOR!? Pelos Deuses, Ela, como eu sofri ao ter que te enterrar, como eu sofri ao entrar na nossa casa, no nosso quarto e sentir o teu cheiro em cada divisão, em cada peça de roupa. Como podes ousar dizer que o que fizeste foi por amor, COMO?
Ela fita-me em silêncio sem saber o que responder.
- Tudo na minha vida foi uma ilusão, até tu, aquela que eu considerava uma âncora, um porto de abrigo, não passaste de uma ilusão!
- Não, não...
- Pois bem, tudo termina hoje! Se foi para me torturar desta forma que regressaste mais valia teres continuado morta, "meu amor"! - Dirijo-me para a porta em passadas grandes e furiosas.
- Espera, por favor... - a sua voz é tão frágil que mal se pode ouvir.
- Está tudo acabado, Eleanora, tudo! Toma, já não quero mais estas porcarias, já não significam nada. - Com os olhos cravejados de lágrimas atiro-lhe as duas alianças que mantive sempre com tanto carinho no meu dedo anelar.
Fecho a porta com um estrondo e corro para o meu quarto sem saber o que fazer. Diz o ditado que a noite é boa conselheira, pois bem, esperarei pelo seu conselho, mas tudo o que mais anseio agora é chorar, chorar por ter sido um enorme idiota e ter sofrido tanto por alguém que não merecia.
domingo, setembro 10, 2006
Revelações
Acordo num pequeno quarto parcamente mobilado, em cima de uma mesa está o velho pergaminho, ainda por abrir, que Tela pediu a Ela para me entregar. Sorrio pensando na alegria que tive ao ver a elfo uma vez mais, parecia um sonho encontrar de novo aqueles olhos verdes tão expressivos e inteligentes, sentir outra vez o perfume doce da sua pele e ouvir aquela inesquecível voz que só de me lembrar causa um nó no meu coração. Por estar fraco e debilitado, não percebi muito bem como é que ela regressou, ou o que teve Tela haver com tudo isto, apenas outra imagem assombra o meu espírito, os olhos de Lara, tristes e distantes.
Afasto o seu rosto da minha mente e levanto-me da cama, lá fora a tempestade continua a mostrar a sua força, e pelo que me parece, não se vai dissipar tão cedo. O som dos trovões e o flash dos relâmpagos são tão fortes e intensos que uma pessoa parece que vai ficar surda e cega ao mesmo tempo, a chuva, essa, cai sem piedade, com uma força e violência tal que os telhados mais fracos e os tecidos mais frágeis se desfazem ante a sua fúria. Abro a torneira da banheira e indiferente a este lamento da Natureza preparo um banho quente e relaxante. Antes de o saborear olho-me ao espelho, para satisfazer muito certamente aquele lado narcisista que existe em todos nós, o que vejo deixa-me espantado: no meu peito encontra-se uma tatuagem negra com a forma de um dragão e logo por baixo dela a cicatriz recente de uma ferida de flecha. Mal posso acreditar, mas verdade seja dita, não me lembro de nada, lembro-me apenas de ver Lilian a cair inconsciente sobre a areia escaldante do deserto e depois a ser ajudado pela minha amada Eleanora sob o atento olhar de Lara. Instigado pela curiosidade fecho a torneira e marcho para o quarto na esperança que aquele pergaminho me dê as respostas.
O pergaminho é velho, o seu papel está amarelado e em algumas partes parece ter sido queimado, o seu selo é bem peculiar, impresso na cera vermelha está um brasão de armas em forma de dragão segurando com a boca a letra T e com a cauda a letra L. Assim que lhe toco com o propósito de o quebrar uma faísca vermelha é libertada e como por magia o pergaminho abre-se sozinho e umas letras igualmente vermelhas aparecem vindas do nada. Eis o seu conteúdo:
Bravo guerreiro,
Se estás a ler esta carta é porque o meu tempo de vida no teu mundo esgotou-se e a minha triste missão chegou finalmente ao fim. Quero primeiro que tudo pedir-te perdão pelo que te fiz e pela mágoa e dor que te causei, mas quero também que saibas, que se fiz o que fiz foi em nome de um Bem maior.
Chamo-me Tela Leon e pertenço a uma raça muito antiga e poderosa cujo nome perdeu-se nas areias do tempo. Sou aquilo a que podes chamar de Vigilante, a minha missão é vigiar e eliminar possíveis ameaças ao bem estar dos habitantes de Gaia, tanto mortais como imortais.
Infelizmente para ti os nossos caminhos cruzaram-se, e não, não foi em Kin que nos encontrámos pela primeira vez, embora essa tenha sido a primeira vez que me viste sob a forma humana. Tenho acompanhado os teus passos desde o teu nascimento, desde o momento em que abriste os olhos e contemplaste com profunda curiosidade o novo mundo que agora se deparava diante de ti.
Imagino-te a perguntar o porquê de seres alvo da minha atenção, a resposta, meu caro, é simples, não era a ti que eu observava mas sim uma outra entidade que se escondeu dentro do teu corpo para fugir ao julgamento que o esperava. O seu nome era Geon, o meu grande amor, e foi precisamente graças à minha fraqueza que o deixei escapar e esconder-se dentro de uma criatura inferior, tu! Ai, como fui tola, como pensei que dando-lhe esta oportunidade ele redimir-se-ia de todos os males que fez, mas tudo o que fiz foi torná-lo mais forte e o seu espírito mais perverso e maléfico.
Fui julgada pelo que fiz e como castigo fui forçada a caçar e destruir aquele que eu amava mais que a própria vida. A única maneira de o eliminar e cumprir a minha missão era enfraquecer o teu espírito de forma a que Geon tomasse o controlo. Uma tarefa dura, pois provaste quase sempre ser senhor de uma vontade inabalável e de uma força espiritual bastante forte. Finalmente consegui-o a 2 de Júlio de 2004DR, mas precisei da ajuda da tua amada Eleanora que na noite anterior concordou em auxiliar-me.
Leio e releio vezes sem conta esta última parte, mal posso acreditar, a Ela nunca faria uma coisa destas, simplesmente não o faria. Inspiro profundamente e continuo a ler o que resta da mensagem.
A sua "morte" possibilitou a libertação de Geon, mas não da maneira que eu esperava, o seu controlo era apenas parcial, no fundo eras tu que continuavas a controlar grande parte das acções, mesmo as mais desagradáveis, o teu objectivo era descer aos Infernos e libertar a tua amada, como tantos anos antes fizera Orfeu. Ela estava sob a minha influência e apesar de todos os meus esforços Geon não se libertou e tu recuperaste o total controlo das tuas capacidades, embora o meu amor começasse a ganhar forças.
Decidi apresentar-me e oferecer-me a ti na pequena cidade de Kin, precisava de descobrir o estado de Geon, se estava ou não preparado para se libertar, vi que sim e uma vez mais usei uma outra amiga tua, a Meg, para desferir um novo golpe no teu espírito. O teu controlo ia caindo dia após dia, Geon ganhava força e a minha missão iria estar finalmente completa. Guiei-te até à pequena cabana de Lilian, um anjo orgulhoso que perdera as suas asas de uma maneira traumatizante, outra coisa de que não me orgulho de ter feito... Deixei que ambos se apaixonassem um pelo outro e na altura certa, usei-a como instrumento para libertar o meu amado.
Finalmente obtive sucesso e Geon libertou-se apoderando-se completamente do teu corpo.
Preparo-me agora para o combate final, pressinto que vai ser uma luta difícil pois cometi um erro ao esconder Geon dentro de ti, o teu sangue é antigo e poderoso e este meu descuido pode custar-me a vida e selar o destino de Gaia. Mais não digo a teu respeito, em boa hora o saberás...
Pela última vez te peço perdão.
Cordialmente,
Tela Leon
O som dos trovões havia parado e a chuva e vento pareciam agora mais calmos, infelizmente dentro de mim um turbilhão de sentimentos assolava-me causando mais estragos do que a violenta tempestade que ainda há poucas horas se abatia sobre a cidade. Levanto-me e rasgo aquele infame pergaminho, recuso-me a acreditar nele, especialmente na parte em que se refere à morte da Ela. Visto um robe e saio pela porta procurando pelo quarto da elfo em busca de explicações.
Afasto o seu rosto da minha mente e levanto-me da cama, lá fora a tempestade continua a mostrar a sua força, e pelo que me parece, não se vai dissipar tão cedo. O som dos trovões e o flash dos relâmpagos são tão fortes e intensos que uma pessoa parece que vai ficar surda e cega ao mesmo tempo, a chuva, essa, cai sem piedade, com uma força e violência tal que os telhados mais fracos e os tecidos mais frágeis se desfazem ante a sua fúria. Abro a torneira da banheira e indiferente a este lamento da Natureza preparo um banho quente e relaxante. Antes de o saborear olho-me ao espelho, para satisfazer muito certamente aquele lado narcisista que existe em todos nós, o que vejo deixa-me espantado: no meu peito encontra-se uma tatuagem negra com a forma de um dragão e logo por baixo dela a cicatriz recente de uma ferida de flecha. Mal posso acreditar, mas verdade seja dita, não me lembro de nada, lembro-me apenas de ver Lilian a cair inconsciente sobre a areia escaldante do deserto e depois a ser ajudado pela minha amada Eleanora sob o atento olhar de Lara. Instigado pela curiosidade fecho a torneira e marcho para o quarto na esperança que aquele pergaminho me dê as respostas.
O pergaminho é velho, o seu papel está amarelado e em algumas partes parece ter sido queimado, o seu selo é bem peculiar, impresso na cera vermelha está um brasão de armas em forma de dragão segurando com a boca a letra T e com a cauda a letra L. Assim que lhe toco com o propósito de o quebrar uma faísca vermelha é libertada e como por magia o pergaminho abre-se sozinho e umas letras igualmente vermelhas aparecem vindas do nada. Eis o seu conteúdo:
Bravo guerreiro,
Se estás a ler esta carta é porque o meu tempo de vida no teu mundo esgotou-se e a minha triste missão chegou finalmente ao fim. Quero primeiro que tudo pedir-te perdão pelo que te fiz e pela mágoa e dor que te causei, mas quero também que saibas, que se fiz o que fiz foi em nome de um Bem maior.
Chamo-me Tela Leon e pertenço a uma raça muito antiga e poderosa cujo nome perdeu-se nas areias do tempo. Sou aquilo a que podes chamar de Vigilante, a minha missão é vigiar e eliminar possíveis ameaças ao bem estar dos habitantes de Gaia, tanto mortais como imortais.
Infelizmente para ti os nossos caminhos cruzaram-se, e não, não foi em Kin que nos encontrámos pela primeira vez, embora essa tenha sido a primeira vez que me viste sob a forma humana. Tenho acompanhado os teus passos desde o teu nascimento, desde o momento em que abriste os olhos e contemplaste com profunda curiosidade o novo mundo que agora se deparava diante de ti.
Imagino-te a perguntar o porquê de seres alvo da minha atenção, a resposta, meu caro, é simples, não era a ti que eu observava mas sim uma outra entidade que se escondeu dentro do teu corpo para fugir ao julgamento que o esperava. O seu nome era Geon, o meu grande amor, e foi precisamente graças à minha fraqueza que o deixei escapar e esconder-se dentro de uma criatura inferior, tu! Ai, como fui tola, como pensei que dando-lhe esta oportunidade ele redimir-se-ia de todos os males que fez, mas tudo o que fiz foi torná-lo mais forte e o seu espírito mais perverso e maléfico.
Fui julgada pelo que fiz e como castigo fui forçada a caçar e destruir aquele que eu amava mais que a própria vida. A única maneira de o eliminar e cumprir a minha missão era enfraquecer o teu espírito de forma a que Geon tomasse o controlo. Uma tarefa dura, pois provaste quase sempre ser senhor de uma vontade inabalável e de uma força espiritual bastante forte. Finalmente consegui-o a 2 de Júlio de 2004DR, mas precisei da ajuda da tua amada Eleanora que na noite anterior concordou em auxiliar-me.
Leio e releio vezes sem conta esta última parte, mal posso acreditar, a Ela nunca faria uma coisa destas, simplesmente não o faria. Inspiro profundamente e continuo a ler o que resta da mensagem.
A sua "morte" possibilitou a libertação de Geon, mas não da maneira que eu esperava, o seu controlo era apenas parcial, no fundo eras tu que continuavas a controlar grande parte das acções, mesmo as mais desagradáveis, o teu objectivo era descer aos Infernos e libertar a tua amada, como tantos anos antes fizera Orfeu. Ela estava sob a minha influência e apesar de todos os meus esforços Geon não se libertou e tu recuperaste o total controlo das tuas capacidades, embora o meu amor começasse a ganhar forças.
Decidi apresentar-me e oferecer-me a ti na pequena cidade de Kin, precisava de descobrir o estado de Geon, se estava ou não preparado para se libertar, vi que sim e uma vez mais usei uma outra amiga tua, a Meg, para desferir um novo golpe no teu espírito. O teu controlo ia caindo dia após dia, Geon ganhava força e a minha missão iria estar finalmente completa. Guiei-te até à pequena cabana de Lilian, um anjo orgulhoso que perdera as suas asas de uma maneira traumatizante, outra coisa de que não me orgulho de ter feito... Deixei que ambos se apaixonassem um pelo outro e na altura certa, usei-a como instrumento para libertar o meu amado.
Finalmente obtive sucesso e Geon libertou-se apoderando-se completamente do teu corpo.
Preparo-me agora para o combate final, pressinto que vai ser uma luta difícil pois cometi um erro ao esconder Geon dentro de ti, o teu sangue é antigo e poderoso e este meu descuido pode custar-me a vida e selar o destino de Gaia. Mais não digo a teu respeito, em boa hora o saberás...
Pela última vez te peço perdão.
Cordialmente,
Tela Leon
O som dos trovões havia parado e a chuva e vento pareciam agora mais calmos, infelizmente dentro de mim um turbilhão de sentimentos assolava-me causando mais estragos do que a violenta tempestade que ainda há poucas horas se abatia sobre a cidade. Levanto-me e rasgo aquele infame pergaminho, recuso-me a acreditar nele, especialmente na parte em que se refere à morte da Ela. Visto um robe e saio pela porta procurando pelo quarto da elfo em busca de explicações.
sábado, setembro 09, 2006
Instantes Finais
O Cavaleiro encara a nova adversária com um olhar de puro espanto esquecendo-se por completo de Lilian que jaz à sua frente ainda inconsciente. Tela, aproveitando o impacto que provocou no espírito dele, avança temerariamente na sua direcção, completamente encharcada, devido à chuva que cai incessantemente lá fora, o seu aspecto em nada se assemelha a uma criatura deste mundo, o seu rosto outrora terno enfeitado com deliciosas sardas, encontra-se agora desfigurado pela pintura que se desfaz em contacto com as gotas de água, seus cabelos negros encaracolados, anteriormente bem arranjados, caiem agora pesadamente sobre os seus ombros e sobre o seu rosto e seus olhos castanhos, tão belos e puros que pareciam pulsar de vida, são agora frios e carregados de dor e ódio. Atrás dela entra uma segunda personagem que se mantém silenciosa e é praticamente ignorada por todos, excepto por Lara.
- Tudo termina hoje, meu caro! - diz Tela secamente - Garanto-te que desta vez acabarei contigo!
O Cavaleiro recompõe-se e sorri encantadoramente.
- Duvido, meu amor, da última vez não foste capaz, o que te leva a pensar que irás conseguir agora? Aceita o facto que ainda me amas! - ele cala-se fazendo uma pausa estratégica para observar a reacção da sua rival, esta estremece involuntariamente dando a conhecer que o golpe fora certeiro. - Ah, o amor, que sentimento chato esse. Sofremos tanto em nome dele, cometemos loucuras em nome dele e perdoamos tudo em nome dele. E o pior de tudo, é que por vezes a distância e a ausência ainda o tornam mais forte. Somos de facto criaturas patéticas...
Tela pára, esquecendo-se momentaneamente do que viera fazer e rende-se àquela voz tão cativante.
- Junta-te a mim, meu amor, juntos poderemos conquistar o Universo, reinar para sempre como amantes que nunca deixámos de ser e tomar o lugar que é nosso por direito, o Trono Celestial!
Ele aproxima-se dela tocando-lhe no rosto e afagando os seus cabelos, ante este toque quente e suave, sentindo o seu perfume, ela simplesmente fecha os olhos e sorri docemente como fez tantas vezes ao seu lado. Os seus lábios tocam-se trocando um beijo carregado de paixão e ternura, libertando toda a saudade genuína que os seus corações mantinham cativa. Mas desta vez é diferente, e Tela sabe-o, no meio do beijo uma pequena lágrima de dor escapa-se traindo-a e trazendo de volta as razões que a levaram até ele.
- Pára! - diz ela quebrando a magia daquele beijo. - Por favor, pára! Só os Deuses sabem o quanto eu te amo, fomos feitos um para o outro e mesmo nesta hora tão amarga para mim eu não consigo deixar de sentir outra coisa senão amor. Mas tu tens de pagar pelos teus crimes e por um cruel destino, serei eu que terei de os expiar. Eu lamento imenso, mas tenho que cumprir a minha missão! - O seu rosto estava transfigurado pela dor, as lágrimas corriam como uma cascata pela sua face ante a ironia deste destino tão cruel.
- Eu também lamento - diz ele limpando-lhe em vão as lágrimas. -, acabemos então com isto.
O combate travado por estas duas personagens é intenso, durante algumas horas nenhum dos dois parecia ter ganho vantagem, a sua destreza e habilidade na magia era inigualável, nem mesmo alguns dos mais poderosos e lendários feiticeiros do mundo conseguiria aguentar-se por tanto tempo lançando magias tão poderosas que abalavam as fundações do prédio e até da própria cidade. Um espectacular e alucinante efeito de cores, fumos e sons é expelido por toda a cidade até que por fim, tudo acaba tão depressa como começou. Tela, está de joelhos ofegante e o seu rival, embora exausto, sorri mostrando a sua superioridade.
- Meu amor, eu disse-te que n irias conseguir, mas de uma coisa eu estou realmente espantado, não te contiveste, desta vez quiseste mesmo acabar comigo.
- Eu... disse-te... isso... - diz Tela arfando e limpando as pesadas gotas de suor que lhe cobriam o rosto.
- Tenho muita pena, sinceramente, mas vou acabar contigo.
O Cavaleiro avança para ela soltando as garras dos seus punhos.
- Espera... antes de me matares, eu quero saber como é que aumentaste e dominaste tão rapidamente este poder.
- Foi a minha armadura, uma maravilha, feita de escamas de dragão, os verdadeiros mestres de magia.
- Como eu suspeitava. - Tela fixa o seu olhar no dele e sorri. - Ela, faz o que tens a fazer.
A figura silenciosa obedece imediatamente e colocando uma flecha no seu arco, aponta-a directamente ao peito do Cavaleiro.
- Uma flecha? Tela, sinceramente esperava mais de ti! As armaduras de dragão são as mais poderosas do mundo, nada as afecta, nada! - diz ele sorrindo.
- Errado! - diz Tela tão confiante que espalha a dúvida no seu adversário. - Existe algo que afecta uma armadura de dragão, uma flecha criada a partir de um dente deles.
A flecha parte imediatamente, certeira em direcção ao peito do Cavaleiro. Este mal tem tempo de reagir, apenas de ouvir o som da sua armadura quebrar-se e de sentir a sua ponta penetrar a sua carne. Sem ter plena consciência do que aconteceu ele recua uns passos e leva a mão à ferida que acabara de sofrer. As suas pernas ficam bambas e sem se poder aguentar por mais tempo em pé cai no chão sentindo o sangue quente escorrendo pelo seu corpo.
Satine que assistia a tudo deleitada, solta um grito de dor e corre na direcção do seu adorado amante, suas mãos nervosas arrancam a flecha do seu peito libertando ainda mais o fluxo da hemorragia.
- Cabra! - grita ela chorando copiosamente. - Vais pagar!
E sem pensar duas vezes atira-se a Tela com o intuito de acabar com a sua vida. Uma outra seta é disparada e crava-se no pescoço da vampira detendo o seu avanço e cortando-lhe a voz.
- Tenho pena de ti, criatura das trevas, pois tal como eu, és prisioneira do amor. - diz Tela levantando a mão e conjurando um feitiço. - Espero que encontres a paz no local para onde te vou mandar.
Uma luz azul é libertada da sua mão cobrindo por completo a vampira. O seu corpo contorce-se convulsivamente e depois desaparece deixando no seu lugar cinzas, a flecha e um pequeno anel.
Tela levanta-se e aproxima-se do corpo de Cavaleiro que ainda respira mas com dificuldade.
- Agora nós, meu amor. - diz ela beijando carinhosamente a fronte dele.
Colocando a mão por cima do peito dele, Tela invoca mais uma vez o seu poder, dos seus dedos uma luz lilás é expelida e cobre por completo tanto o seu corpo como o do Cavaleiro. Ele estremece e um vulto negro levita no ar olhando em volta tristemente.
- Aqui estás tu, meu amor. - diz Tela com amargura. - Como te prometi, irei cumprir a minha missão até ao fim.
Os seus lábios movem-se mas nenhuma palavra é expelida.
- Lilian - diz esta mulher poderosa virando-se para o anjo já desperto e assistindo a tudo isto fascinado. -, vou precisar da tua ajuda. Lembras-te do que te disse sobre as tuas asas? Pois bem, chegou a altura de o provares, o teu amado está neste momento entre a vida e a morte e não há feitiço no mundo capaz de o retirar do limbo, apenas tu o poderás salvar, mas para isso terás que abdicar da tua condição de anjo para o trazer de volta.
Lilian olha para ela receosa, desde que a deixara que temia aquela escolha.
- Eu... Eu não sei... - diz a anjo hesitante.
- O tempo urge, Lilian, tens que te decidir, vais abdicar ou não!
- Mas isto é tudo tão repentino, as minhas asas voltaram e agora tenho que as perder de novo?
- Sim ou não! - repete impacientemente Tela.
- NÂO! - responde Lilian nervosamente e libertando lágrimas de dor. - Não, não e não, eu amo-o, mas não sou capaz de me separar das minhas asas de novo, simplesmente não consigo.
E dizendo isto sai do salão e afasta-se daquela estalagem voando para parte incerta.
- E agora? - Pergunta Lara.
- Agora, querida demónio, o Cavaleiro está perdido.
- Mas não há nada que possamos fazer? - Pergunta Eleanora.
- Não, o anjo era a única opção, sem ele, o vosso amigo está perdido. Para o trazer de volta é preciso uma força bem poderosa.
- E eu? - Pergunta Lara aproximando-se e ajoelhando-se junto do Cavaleiro.
- Como assim?
- Eu e o Cav estamos ligados através de magia, eu sou a escrava dele e ele é o meu senhor, não poderá ser essa uma opção?
- Talvez... Não tinha pensado nisso, essas magias são bem poderosas e são capazes de unir duas pessoas para o resto da vida. - diz Tela pensativamente. - Estarás disposta a cortar o teu elo com ele? É a única forma...
A demónio estremece ao ouvir isto e fixa o seu olhar no rosto quase puro do seu amante.
- Sim...
Usando a ligação que une os dois, Tela consegue puxar de volta o espírito perdido do Cavaleiro. A magia que liga a demónio ao seu amante desfaz-se imediatamente e uma sensação estranha invade o corpo de Lara. É livre finalmente e deveria estar contente, mas então porque razão sente um profundo pesar e mágoa? Porque se sente como se um buraco acabara de se abrir no peito? Estas e outras perguntas e sensações são rapidamente afastadas quando o seu companheiro volta a respirar livremente e a sua ferida fecha-se como por magia.
- O meu trabalho está concluído. - diz Tela. - Ela, entrega isto ao Cavaleiro. Agora tenho de partir.
A elfo recebe um pergaminho muito velho e observa o desenlace do triste destino da sua amiga. Envolta ainda numa luz lilás, Tela termina a sua magia, o espírito do seu amor dissolve-se por completo libertando um medonho grito. Deixando cair a cabeça e abrindo as portas do seu coração, a feiticeira deixa-se consumir pela sua própria magia.
- Triste destino, o meu... - Diz ela antes de se suicidar.
- Tudo termina hoje, meu caro! - diz Tela secamente - Garanto-te que desta vez acabarei contigo!
O Cavaleiro recompõe-se e sorri encantadoramente.
- Duvido, meu amor, da última vez não foste capaz, o que te leva a pensar que irás conseguir agora? Aceita o facto que ainda me amas! - ele cala-se fazendo uma pausa estratégica para observar a reacção da sua rival, esta estremece involuntariamente dando a conhecer que o golpe fora certeiro. - Ah, o amor, que sentimento chato esse. Sofremos tanto em nome dele, cometemos loucuras em nome dele e perdoamos tudo em nome dele. E o pior de tudo, é que por vezes a distância e a ausência ainda o tornam mais forte. Somos de facto criaturas patéticas...
Tela pára, esquecendo-se momentaneamente do que viera fazer e rende-se àquela voz tão cativante.
- Junta-te a mim, meu amor, juntos poderemos conquistar o Universo, reinar para sempre como amantes que nunca deixámos de ser e tomar o lugar que é nosso por direito, o Trono Celestial!
Ele aproxima-se dela tocando-lhe no rosto e afagando os seus cabelos, ante este toque quente e suave, sentindo o seu perfume, ela simplesmente fecha os olhos e sorri docemente como fez tantas vezes ao seu lado. Os seus lábios tocam-se trocando um beijo carregado de paixão e ternura, libertando toda a saudade genuína que os seus corações mantinham cativa. Mas desta vez é diferente, e Tela sabe-o, no meio do beijo uma pequena lágrima de dor escapa-se traindo-a e trazendo de volta as razões que a levaram até ele.
- Pára! - diz ela quebrando a magia daquele beijo. - Por favor, pára! Só os Deuses sabem o quanto eu te amo, fomos feitos um para o outro e mesmo nesta hora tão amarga para mim eu não consigo deixar de sentir outra coisa senão amor. Mas tu tens de pagar pelos teus crimes e por um cruel destino, serei eu que terei de os expiar. Eu lamento imenso, mas tenho que cumprir a minha missão! - O seu rosto estava transfigurado pela dor, as lágrimas corriam como uma cascata pela sua face ante a ironia deste destino tão cruel.
- Eu também lamento - diz ele limpando-lhe em vão as lágrimas. -, acabemos então com isto.
O combate travado por estas duas personagens é intenso, durante algumas horas nenhum dos dois parecia ter ganho vantagem, a sua destreza e habilidade na magia era inigualável, nem mesmo alguns dos mais poderosos e lendários feiticeiros do mundo conseguiria aguentar-se por tanto tempo lançando magias tão poderosas que abalavam as fundações do prédio e até da própria cidade. Um espectacular e alucinante efeito de cores, fumos e sons é expelido por toda a cidade até que por fim, tudo acaba tão depressa como começou. Tela, está de joelhos ofegante e o seu rival, embora exausto, sorri mostrando a sua superioridade.
- Meu amor, eu disse-te que n irias conseguir, mas de uma coisa eu estou realmente espantado, não te contiveste, desta vez quiseste mesmo acabar comigo.
- Eu... disse-te... isso... - diz Tela arfando e limpando as pesadas gotas de suor que lhe cobriam o rosto.
- Tenho muita pena, sinceramente, mas vou acabar contigo.
O Cavaleiro avança para ela soltando as garras dos seus punhos.
- Espera... antes de me matares, eu quero saber como é que aumentaste e dominaste tão rapidamente este poder.
- Foi a minha armadura, uma maravilha, feita de escamas de dragão, os verdadeiros mestres de magia.
- Como eu suspeitava. - Tela fixa o seu olhar no dele e sorri. - Ela, faz o que tens a fazer.
A figura silenciosa obedece imediatamente e colocando uma flecha no seu arco, aponta-a directamente ao peito do Cavaleiro.
- Uma flecha? Tela, sinceramente esperava mais de ti! As armaduras de dragão são as mais poderosas do mundo, nada as afecta, nada! - diz ele sorrindo.
- Errado! - diz Tela tão confiante que espalha a dúvida no seu adversário. - Existe algo que afecta uma armadura de dragão, uma flecha criada a partir de um dente deles.
A flecha parte imediatamente, certeira em direcção ao peito do Cavaleiro. Este mal tem tempo de reagir, apenas de ouvir o som da sua armadura quebrar-se e de sentir a sua ponta penetrar a sua carne. Sem ter plena consciência do que aconteceu ele recua uns passos e leva a mão à ferida que acabara de sofrer. As suas pernas ficam bambas e sem se poder aguentar por mais tempo em pé cai no chão sentindo o sangue quente escorrendo pelo seu corpo.
Satine que assistia a tudo deleitada, solta um grito de dor e corre na direcção do seu adorado amante, suas mãos nervosas arrancam a flecha do seu peito libertando ainda mais o fluxo da hemorragia.
- Cabra! - grita ela chorando copiosamente. - Vais pagar!
E sem pensar duas vezes atira-se a Tela com o intuito de acabar com a sua vida. Uma outra seta é disparada e crava-se no pescoço da vampira detendo o seu avanço e cortando-lhe a voz.
- Tenho pena de ti, criatura das trevas, pois tal como eu, és prisioneira do amor. - diz Tela levantando a mão e conjurando um feitiço. - Espero que encontres a paz no local para onde te vou mandar.
Uma luz azul é libertada da sua mão cobrindo por completo a vampira. O seu corpo contorce-se convulsivamente e depois desaparece deixando no seu lugar cinzas, a flecha e um pequeno anel.
Tela levanta-se e aproxima-se do corpo de Cavaleiro que ainda respira mas com dificuldade.
- Agora nós, meu amor. - diz ela beijando carinhosamente a fronte dele.
Colocando a mão por cima do peito dele, Tela invoca mais uma vez o seu poder, dos seus dedos uma luz lilás é expelida e cobre por completo tanto o seu corpo como o do Cavaleiro. Ele estremece e um vulto negro levita no ar olhando em volta tristemente.
- Aqui estás tu, meu amor. - diz Tela com amargura. - Como te prometi, irei cumprir a minha missão até ao fim.
Os seus lábios movem-se mas nenhuma palavra é expelida.
- Lilian - diz esta mulher poderosa virando-se para o anjo já desperto e assistindo a tudo isto fascinado. -, vou precisar da tua ajuda. Lembras-te do que te disse sobre as tuas asas? Pois bem, chegou a altura de o provares, o teu amado está neste momento entre a vida e a morte e não há feitiço no mundo capaz de o retirar do limbo, apenas tu o poderás salvar, mas para isso terás que abdicar da tua condição de anjo para o trazer de volta.
Lilian olha para ela receosa, desde que a deixara que temia aquela escolha.
- Eu... Eu não sei... - diz a anjo hesitante.
- O tempo urge, Lilian, tens que te decidir, vais abdicar ou não!
- Mas isto é tudo tão repentino, as minhas asas voltaram e agora tenho que as perder de novo?
- Sim ou não! - repete impacientemente Tela.
- NÂO! - responde Lilian nervosamente e libertando lágrimas de dor. - Não, não e não, eu amo-o, mas não sou capaz de me separar das minhas asas de novo, simplesmente não consigo.
E dizendo isto sai do salão e afasta-se daquela estalagem voando para parte incerta.
- E agora? - Pergunta Lara.
- Agora, querida demónio, o Cavaleiro está perdido.
- Mas não há nada que possamos fazer? - Pergunta Eleanora.
- Não, o anjo era a única opção, sem ele, o vosso amigo está perdido. Para o trazer de volta é preciso uma força bem poderosa.
- E eu? - Pergunta Lara aproximando-se e ajoelhando-se junto do Cavaleiro.
- Como assim?
- Eu e o Cav estamos ligados através de magia, eu sou a escrava dele e ele é o meu senhor, não poderá ser essa uma opção?
- Talvez... Não tinha pensado nisso, essas magias são bem poderosas e são capazes de unir duas pessoas para o resto da vida. - diz Tela pensativamente. - Estarás disposta a cortar o teu elo com ele? É a única forma...
A demónio estremece ao ouvir isto e fixa o seu olhar no rosto quase puro do seu amante.
- Sim...
Usando a ligação que une os dois, Tela consegue puxar de volta o espírito perdido do Cavaleiro. A magia que liga a demónio ao seu amante desfaz-se imediatamente e uma sensação estranha invade o corpo de Lara. É livre finalmente e deveria estar contente, mas então porque razão sente um profundo pesar e mágoa? Porque se sente como se um buraco acabara de se abrir no peito? Estas e outras perguntas e sensações são rapidamente afastadas quando o seu companheiro volta a respirar livremente e a sua ferida fecha-se como por magia.
- O meu trabalho está concluído. - diz Tela. - Ela, entrega isto ao Cavaleiro. Agora tenho de partir.
A elfo recebe um pergaminho muito velho e observa o desenlace do triste destino da sua amiga. Envolta ainda numa luz lilás, Tela termina a sua magia, o espírito do seu amor dissolve-se por completo libertando um medonho grito. Deixando cair a cabeça e abrindo as portas do seu coração, a feiticeira deixa-se consumir pela sua própria magia.
- Triste destino, o meu... - Diz ela antes de se suicidar.
quinta-feira, setembro 07, 2006
O Prenúncio do Fim
O homem caminha calmamente para o centro da sala detendo-se logo a seguir junto do corpo inanimado de Lilian, pouco se pode ver do seu rosto à excepção de um brilho sinistro no seu olhar. Atrás dele, uma segunda figura aparece vinda do nada, uma bela mulher com uma rude cicatriz, ainda recente, no rosto. A sala permance no mais profundo silêncio, assistindo com um misto de interesse e medo a estas duas novas personagens. O Cavaleiro agacha-se descobrindo o seu rosto e fitando o anjo inconsciente com um ligeiro sorriso nos lábios, seus dedos desapertam os botões da camisa de linho da doce Lilian, expondo à vista de todos os seus seios e a pérfida cicatriz que ele próprio criou.
- Pára de lhe tocar! - grita Melissa que não mais podia conter o seu ódio por tal pessoa. - Tira essas tuas patas sujas de cima dela, seu nojento!
Os olhos dele fixam-se na direcção da voz, são frios e calculistas, desprovidos de qualquer sentimento.
- Ora, ora, se não é a sacerdotisa de Juno. - diz ele afectando um sorriso. - Descansa, minha cara, eu já vou tratar de ti, deixa-me apenas enviar esta mulher para o local de onde nunca deveria ter saído.
Dizendo isto, a espada que se mantinha imóvel a pairar no ar, estremece e move-se lentamente.
- Serás assim tão cobarde, Cav? Matar uma criatura inconsciente é desprezível, até mesmo para um demónio. - diz Lara.
- Os fins justificam os meios, minha querida. - diz ele forçando a espada a colocar-se numa posição capaz de desferir um golpe mortal.
- E vocês idiotas que estão a ver, vão deixá-lo matar o anjo? Não terão vocês a primazia de lhe tirar a vida? Irão deixar que este reles humano vos retire esse prazer? - continua a demónio incitando os seus irmãos de raça.
O silêncio é quebrado e mais uma vez um burburinho inquietante faz-se ouvir, os demónios fixam os seus olhares irados no Cavaleiro e na sua concubina.
- Ela tem razão! Afasta-te humano, a anja é nossa! - grita um deles.
Todos os outros emitem gritos de apoio e sacam das suas armas para mostrar que os seus intentos são sérios. O Cavaleiro olha para cada um deles e ergue-se sem mostrar receio, calmamente despe o seu manto e revela a sua armadura esverdeada que o cobre por inteiro.
- Se a querem - diz ele calmamente e com um ligeiro sorriso nos lábios. -, venham então buscá-la!
O salão enche-se de gritos de guerra e desta vez todos se lançam contra o seu inimigo. Melissa, Lara e Orfeu vendo-se livres dos seus carcereiros temporários apressam-se a puxar Lilian para si enquanto todos se concentram naquele humano insolente. Assim q o anjo é posto a salvo a demónio vira-se para observar o combate, o seu coração bate forte ao ver o seu antigo amante defrontando com uma calma inexplicável aquela turba louca e furiosa que se atira para cima dele como ondas num mar tempestuoso. Os seus punhos cerram-se involuntariamente ante o desejo de o ajudar, de lutar sem medo ao seu lado e sentir, nem que por um segundo, a sua respiração ofegante, o toque da sua pele e a sua voz decidida bramindo ordens e inquirindo indirectamente se estava bem. Mas tudo isso é agora apenas uma memória vã, uma lembrança longinqua que pode ser remetida até àquele infame dia no deserto.
Subitamente tudo termina tão rápido como começou, o vencedor ergue-se no meio daquela pilha de cadáveres que se amontoa no enorme salão da famosa estalagem. O Cavaleiro, coberto de sangue e de cinzas demoníacas, mantém a sua calma recolhendo as garras que lhe apareceram como por magia dos punhos, os seus olhos frios perscrutam primeiro pela sua concubina, achando-a num canto deleitando-se com o sangue de um demónio ainda vivo, a seguir procuram incessantemente por Lilian, encontrando-a no outro lado da sala protegida pelos seus companheiros. Ele sorri maldosamente e caminha na sua direcção preparado para acabar o serviço.
- Não te vou deixar matar a anjo! - grita Lara atirando-se a ele.
Um acto inútil, pois assim como afastamos com apenas um gesto uma mosca, assim fez ele com a demónio, atirando-a para cima das escadas e abrindo de novo a ferida no seu ombro. Melissa e Orfeu tentam igualmente detê-lo, mas com igual sorte. Lilian acha-se assim desprotegida e o nosso Cavaleiro, lambendo os lábios com uma satisfação tremenda, prepara-se para desferir o golpe final.
- Ainda não! - grita uma voz conhecida. - Primeiro terás de nos enfrentar!
Arrepiado, ele vira-se na direcção da voz.
- Tu! - diz ele num tom quase inumano. - Não pode ser, tu estás morta!
- Tu também deverias estar - diz Tela aproximando-se. -, talvez tenha sido por isso que eu tenha voltado a este Mundo, para acabar contigo de uma vez por todas!
- Pára de lhe tocar! - grita Melissa que não mais podia conter o seu ódio por tal pessoa. - Tira essas tuas patas sujas de cima dela, seu nojento!
Os olhos dele fixam-se na direcção da voz, são frios e calculistas, desprovidos de qualquer sentimento.
- Ora, ora, se não é a sacerdotisa de Juno. - diz ele afectando um sorriso. - Descansa, minha cara, eu já vou tratar de ti, deixa-me apenas enviar esta mulher para o local de onde nunca deveria ter saído.
Dizendo isto, a espada que se mantinha imóvel a pairar no ar, estremece e move-se lentamente.
- Serás assim tão cobarde, Cav? Matar uma criatura inconsciente é desprezível, até mesmo para um demónio. - diz Lara.
- Os fins justificam os meios, minha querida. - diz ele forçando a espada a colocar-se numa posição capaz de desferir um golpe mortal.
- E vocês idiotas que estão a ver, vão deixá-lo matar o anjo? Não terão vocês a primazia de lhe tirar a vida? Irão deixar que este reles humano vos retire esse prazer? - continua a demónio incitando os seus irmãos de raça.
O silêncio é quebrado e mais uma vez um burburinho inquietante faz-se ouvir, os demónios fixam os seus olhares irados no Cavaleiro e na sua concubina.
- Ela tem razão! Afasta-te humano, a anja é nossa! - grita um deles.
Todos os outros emitem gritos de apoio e sacam das suas armas para mostrar que os seus intentos são sérios. O Cavaleiro olha para cada um deles e ergue-se sem mostrar receio, calmamente despe o seu manto e revela a sua armadura esverdeada que o cobre por inteiro.
- Se a querem - diz ele calmamente e com um ligeiro sorriso nos lábios. -, venham então buscá-la!
O salão enche-se de gritos de guerra e desta vez todos se lançam contra o seu inimigo. Melissa, Lara e Orfeu vendo-se livres dos seus carcereiros temporários apressam-se a puxar Lilian para si enquanto todos se concentram naquele humano insolente. Assim q o anjo é posto a salvo a demónio vira-se para observar o combate, o seu coração bate forte ao ver o seu antigo amante defrontando com uma calma inexplicável aquela turba louca e furiosa que se atira para cima dele como ondas num mar tempestuoso. Os seus punhos cerram-se involuntariamente ante o desejo de o ajudar, de lutar sem medo ao seu lado e sentir, nem que por um segundo, a sua respiração ofegante, o toque da sua pele e a sua voz decidida bramindo ordens e inquirindo indirectamente se estava bem. Mas tudo isso é agora apenas uma memória vã, uma lembrança longinqua que pode ser remetida até àquele infame dia no deserto.
Subitamente tudo termina tão rápido como começou, o vencedor ergue-se no meio daquela pilha de cadáveres que se amontoa no enorme salão da famosa estalagem. O Cavaleiro, coberto de sangue e de cinzas demoníacas, mantém a sua calma recolhendo as garras que lhe apareceram como por magia dos punhos, os seus olhos frios perscrutam primeiro pela sua concubina, achando-a num canto deleitando-se com o sangue de um demónio ainda vivo, a seguir procuram incessantemente por Lilian, encontrando-a no outro lado da sala protegida pelos seus companheiros. Ele sorri maldosamente e caminha na sua direcção preparado para acabar o serviço.
- Não te vou deixar matar a anjo! - grita Lara atirando-se a ele.
Um acto inútil, pois assim como afastamos com apenas um gesto uma mosca, assim fez ele com a demónio, atirando-a para cima das escadas e abrindo de novo a ferida no seu ombro. Melissa e Orfeu tentam igualmente detê-lo, mas com igual sorte. Lilian acha-se assim desprotegida e o nosso Cavaleiro, lambendo os lábios com uma satisfação tremenda, prepara-se para desferir o golpe final.
- Ainda não! - grita uma voz conhecida. - Primeiro terás de nos enfrentar!
Arrepiado, ele vira-se na direcção da voz.
- Tu! - diz ele num tom quase inumano. - Não pode ser, tu estás morta!
- Tu também deverias estar - diz Tela aproximando-se. -, talvez tenha sido por isso que eu tenha voltado a este Mundo, para acabar contigo de uma vez por todas!
quarta-feira, setembro 06, 2006
Uma Ajuda Inesperada
O salão fica silencioso e todos os olhares convergem para aquela imponente figura alada que se mantém em cima da mesa empunhando vitoriosamente a sua espada. Lara não é excepção, mesmo ferida gravemente no ombro não deixa de soltar um grito de espanto ao ver, no seu ponto de vista, a completa burrice da sua companheira e outrora amante.
- Mas tu estás LOUCA!? - grita a demónio pondo-se em pé mantendo a todo o custo a pressão sobre a sua ferida.
- Não. - diz calmamente o anjo. - Ouvimos os teus gritos e pensámos que precisavas de ajuda, e não nos enganámos, mas, querida Lara, escusas de agradecer. - diz ela sorrindo.
Estas palavras ferem de morte o orgulho da demónio.
- Agradecer pelo quê? Pela morte te ter deixado apenas um neurónio nessa cabecinha? - diz Lara sarcasticamente e vermelha de raiva.
Lilian prepara-se para responder, mas Melissa intromete-se evitando assim uma discussão entre as duas.
Pela sala um burburinho inquietante faz-se ouvir, embora as tréguas entre demónios e anjos tenham sido assinadas, o ódio secular ainda perdura e muitos demónios não iriam perder a oportunidade de ceifar a vida a um destes guerreiros alados. Lilian, indiferente ao barulho de fundo, dirige-se para as escadas na esperança de poder finalmente entrar no seu quarto e dormir, mas tal tarefa revela-se impossível pois dois demónios colocam-se entre ela e a escada cortando a sua passagem, lá em cima, como que lendo os pensamentos do anjo, outros dois montam guarda no corredor lançando olhares de poucos amigos na sua direcção.
- Dão-me licença? - Pede calmamente o anjo aos demónios que se colocam intencionalmente no seu caminho.
- Não queremos anjos na nossa estalagem! - diz um deles.
- É melhor saíres, queridinha, porque se deres mais um passo, darás o último. - diz o outro.
Lilian estremece ao ouvi-los e um ligeiro rubor de irritação afloresce no seu rosto.
- Hey, Lila, será que é demasiado tarde para te dizer «Eu avisei-te»? - grita a demónio triunfantemente.
Lilian fita Lara com uma irritação crescente e volta-se de novo para os dois demónios.
- Deixem-me passar! - diz ela dando um passo em frente.
- Vais passar sim, mas para o outro Mundo. - diz um deles desembainhando a sua espada e lançando-se na sua direcção.
O salão enche-se de gritos e de assobios, como se de uma arena se tratasse, ninguém se move mas todos se ajeitam para assistir ao espectáculo. O demónio ataca freneticamente o seu oponente, seus olhos injectados de sangue reflectem o seu ódio por tal criatura. Lilian, pouco mais faz do que defender-se e aparar os golpes, cada vez mais rápidos e precisos, embora tenha regressado à sua forma anterior o seu conhecimento no manejo da espada ainda não está bem assente na sua mente nem nos seus músculos destreinados. Cercados, Melissa e Orfeu assistem desesperados ao combate desigual enquanto que Lara assiste com deleite os erros básicos de Lilian.
Finalmente, e sem surpresa, o anjo é desarmado e deitado ao chão.
- Agora, minha querida, é hora de implorares pela tua vida. - Diz sorrindo o demónio erguendo bem alto a sua lâmina.
- NUNCA! - Grita Lilian dando um pontapé nas partes baixas do demónio.
O sorriso de triunfo desaparece-lhe imediatamente do rosto e é substituído por uma expressão mista de dor e confusão. Aproveitando estes segundos, Lilian apanha a sua espada e crava a lâmina no coração do demónio. Um som de choque e surpresa ecoa pela sala enquanto o este se desfaz em chamas. O segundo demónio vendo o triste destino do seu companheiro atira-se a Lilian esmurrando-a no rosto e deixando-a inconsciente com o seu impacto levando a sala a uivar de alegria. Gritando palavras incompreensíveis e cuspindo para cima do anjo, o demónio apanha a espada do seu amigo e prepara-se para desferir um golpe mortal.
A lâmina cai tomando a direcção do pescoço de Lilian, mas subitamente pára a escassos centímetros do alvo. O demónio sem perceber o que se passa, tenta com toda a sua força movê-la e desferir o seu golpe, mas a espada, presa por uma força invisível, recusa-se a mover.
Uma vez mais um burburinho ecoa pelo salão, todos olham para a lâmina que se encontra de pé em pleno ar, presa muito certamente por uma magia poderosa.
- O... O que se passa? - pergunta o demónio assustado olhando à sua volta.
- Magia! - grita alguém.
- E poderosa. - grita outro.
- A culpa deve ser dos amigos do anjo! - afirma ainda outro.
Todos os olhares se viram na direcção de Melissa, Orfeu e Lara.
Subitamente, uma voz forte faz-se ouvir vinda da porta, os olhares são desviados na sua direcção e detêm-se numa figura coberta por um manto negro.
- A culpa, meus caros, é minha! Esse "anjo" será morto por mim e por mais ninguém, e se algum de vocês tiver um problema com isso, então que avance!
- Quem és, estranho? - Pergunta o demónio que ainda há pouco lutava com Lilian.
- Tenho muitos nomes, mas podes tratar-me por Cavaleiro!
- Mas tu estás LOUCA!? - grita a demónio pondo-se em pé mantendo a todo o custo a pressão sobre a sua ferida.
- Não. - diz calmamente o anjo. - Ouvimos os teus gritos e pensámos que precisavas de ajuda, e não nos enganámos, mas, querida Lara, escusas de agradecer. - diz ela sorrindo.
Estas palavras ferem de morte o orgulho da demónio.
- Agradecer pelo quê? Pela morte te ter deixado apenas um neurónio nessa cabecinha? - diz Lara sarcasticamente e vermelha de raiva.
Lilian prepara-se para responder, mas Melissa intromete-se evitando assim uma discussão entre as duas.
Pela sala um burburinho inquietante faz-se ouvir, embora as tréguas entre demónios e anjos tenham sido assinadas, o ódio secular ainda perdura e muitos demónios não iriam perder a oportunidade de ceifar a vida a um destes guerreiros alados. Lilian, indiferente ao barulho de fundo, dirige-se para as escadas na esperança de poder finalmente entrar no seu quarto e dormir, mas tal tarefa revela-se impossível pois dois demónios colocam-se entre ela e a escada cortando a sua passagem, lá em cima, como que lendo os pensamentos do anjo, outros dois montam guarda no corredor lançando olhares de poucos amigos na sua direcção.
- Dão-me licença? - Pede calmamente o anjo aos demónios que se colocam intencionalmente no seu caminho.
- Não queremos anjos na nossa estalagem! - diz um deles.
- É melhor saíres, queridinha, porque se deres mais um passo, darás o último. - diz o outro.
Lilian estremece ao ouvi-los e um ligeiro rubor de irritação afloresce no seu rosto.
- Hey, Lila, será que é demasiado tarde para te dizer «Eu avisei-te»? - grita a demónio triunfantemente.
Lilian fita Lara com uma irritação crescente e volta-se de novo para os dois demónios.
- Deixem-me passar! - diz ela dando um passo em frente.
- Vais passar sim, mas para o outro Mundo. - diz um deles desembainhando a sua espada e lançando-se na sua direcção.
O salão enche-se de gritos e de assobios, como se de uma arena se tratasse, ninguém se move mas todos se ajeitam para assistir ao espectáculo. O demónio ataca freneticamente o seu oponente, seus olhos injectados de sangue reflectem o seu ódio por tal criatura. Lilian, pouco mais faz do que defender-se e aparar os golpes, cada vez mais rápidos e precisos, embora tenha regressado à sua forma anterior o seu conhecimento no manejo da espada ainda não está bem assente na sua mente nem nos seus músculos destreinados. Cercados, Melissa e Orfeu assistem desesperados ao combate desigual enquanto que Lara assiste com deleite os erros básicos de Lilian.
Finalmente, e sem surpresa, o anjo é desarmado e deitado ao chão.
- Agora, minha querida, é hora de implorares pela tua vida. - Diz sorrindo o demónio erguendo bem alto a sua lâmina.
- NUNCA! - Grita Lilian dando um pontapé nas partes baixas do demónio.
O sorriso de triunfo desaparece-lhe imediatamente do rosto e é substituído por uma expressão mista de dor e confusão. Aproveitando estes segundos, Lilian apanha a sua espada e crava a lâmina no coração do demónio. Um som de choque e surpresa ecoa pela sala enquanto o este se desfaz em chamas. O segundo demónio vendo o triste destino do seu companheiro atira-se a Lilian esmurrando-a no rosto e deixando-a inconsciente com o seu impacto levando a sala a uivar de alegria. Gritando palavras incompreensíveis e cuspindo para cima do anjo, o demónio apanha a espada do seu amigo e prepara-se para desferir um golpe mortal.
A lâmina cai tomando a direcção do pescoço de Lilian, mas subitamente pára a escassos centímetros do alvo. O demónio sem perceber o que se passa, tenta com toda a sua força movê-la e desferir o seu golpe, mas a espada, presa por uma força invisível, recusa-se a mover.
Uma vez mais um burburinho ecoa pelo salão, todos olham para a lâmina que se encontra de pé em pleno ar, presa muito certamente por uma magia poderosa.
- O... O que se passa? - pergunta o demónio assustado olhando à sua volta.
- Magia! - grita alguém.
- E poderosa. - grita outro.
- A culpa deve ser dos amigos do anjo! - afirma ainda outro.
Todos os olhares se viram na direcção de Melissa, Orfeu e Lara.
Subitamente, uma voz forte faz-se ouvir vinda da porta, os olhares são desviados na sua direcção e detêm-se numa figura coberta por um manto negro.
- A culpa, meus caros, é minha! Esse "anjo" será morto por mim e por mais ninguém, e se algum de vocês tiver um problema com isso, então que avance!
- Quem és, estranho? - Pergunta o demónio que ainda há pouco lutava com Lilian.
- Tenho muitos nomes, mas podes tratar-me por Cavaleiro!
quinta-feira, agosto 31, 2006
Minutos Antes
Lara abandonou o quarto furiosa batendo violentamente com a porta, a sua fúria não era dirigida a Lilian, mas sim a si mesma. Durante toda a sua vida sempre fez o que quis, nunca se importando com o prazer ou a felicidade dos outros excepto a sua, todos os seus amantes, tanto machos como fêmeas, eram apenas objectos temporários de prazer em que por escassas horas, ou dias, se entregava totalmente a prazeres indescritíveis. Mas agora, sem saber como ou porquê, começava a sentir, a ter sentimentos pelos seus parceiros, a vê-los como realmente são e não apenas como objectos. E tudo começou com o Cavaleiro, um humano que a libertou das garras do seu antigo mestre e a tomou para si, desde esse dia que algo dentro do seu peito mudou e agora a velha Lara é apenas uma memória distante.
- Ai, deves estar a ficar velha, Lara, onde já se viu uma demónio de puro sangue a preocupar-se com reles humanos!? - murmura a ela encostando-se à parede e baixando a cabeça de tal forma que os seus cabelos negros lhe cobriam o rosto - Humanos, reles humanos, deixam-se influenciar por sentimentos inúteis e ainda se gabam disso. Incrível, os seus machos que passam o tempo todo a pensar com a cabeça que têm entre as pernas dominam a arte da guerra e as suas fêmeas, muitas vezes mais inteligentes que eles, entregam-se a intrigas sem fim. Que raça estúpida! - A demónio levanta a cabeça e fita o vazio - Mas se é assim tão estúpida então porque é que eu estou a sentir isto por este grupo de falhados? Especialmente pelo Cav... Ai, Lara, Lara, talvez esteja na altura de partires, de o esqueceres e voltar a colocar essa raça parva onde ela merece, debaixo da tua bota, como escravos. - Um ligeiro sorriso desenha-se em seus lábios e um brilho intenso ilumina os seus olhos dourados.
Sorrindo aliviada por ter chegado a uma decisão, a demónio desce as escadas e dirige-se para o salão com o intuito de tomar um bom pequeno almoço e iniciar os preparativos para a sua partida. Escolhe uma mesa grande e bem iluminada e nela abre um mapa da região onde se entretem a traçar rotas e caminhos enquanto bebe um café e devora vagarosamente o seu prato de carnes frias. Lara, que se encontra totalmente concentrada nesta tarefa, excitada por iniciar uma vez mais uma viagem a solo, nem se dá conta de que por detrás dela se aproxima uma figura envolta num manto negro.
- Parece que vais viajar. - diz a figura com uma voz doce colocando as mãos sobre os ombros da demónio - É pena que não vivas o tempo suficiente para a fazer.
Um arrepio gelado percorre a espinha de Lara ao reconhecer a voz.
- Satine!? - Diz ela semi-espantada virando-se na direcção da vampira.
- Sim! Tenho um presente do teu querido Cavaleiro, espero que gostes.
Os olhos cinzentos da vampira cintilam com um brilho estranho prendendo a sua vítima num transe momentâneo. A lâmina de um pequeno punhal revela-se sob o pesado manto negro e prepara-se para desferir um golpe mortal no coração da demónio. Lara, resistindo à influência mental da sua oponente, apercebe-se a tempo do vil presente que está prestes a receber e desvia bruscamente o alvo. A lâmina enterra-se no ombro esquerdo obrigando a demónio a soltar um grito de dor pavoroso, Satine, admirada por ter falhado um alvo tão fácil, deixa-se ficar por uns segundos sem reacção, dando tempo a Lara a oportunidade necessária para se afastar dela.
- É impossível!!! Nunca ninguém escapou ao meu olhar!! - Rosna a vampira bem alto.
- Agora percebo porque é que nunca conseguiste ser algo mais que prostituta, Satine, és estúpida demais!!!! - grita Lara arrancando o punhal do seu ombro e atirando-o ao chão - Não sabes que os demónios são imunes ao charme mental?
Satine fica vermelha de cólera por ignorar tal coisa.
- Não interessa, vou acabar contigo à maneira antiga, e depois vou deleitar-me com o teu sangue!! - A vampira desfaz-se do seu pesado manto e coloca-se em posição de combate soltando as suas garras letais e aumentando os seus caninos aguçados e mortíferos.
- Minha querida, não sabes há quanto tempo espero por este momento, - diz Lara sorrindo - vou mostrar-te aquilo que um demónio é capaz!!
Lara e Satine atiram-se uma à outra iniciando uma luta intensa corpo a corpo. Embora o seu braço esteja ferido, a agilidade e destreza de Lara são muito superiores às de Satine, que é perita na luta de emboscada e não numa luta aberta. Rapidamente o salão se torna num campo de batalha entre estas duas mulheres, ninguém se mete, todos ficam a ver, alguns até apostando na possível vencedora, observando atentamente cada golpe e cada movimento. Embora a demónio leve a melhor nos primeiros minutos, a verdade é que a perda de sangue começa a fazer os seus efeitos e os seus movimentos tornam-se mais lentos e menos eficazes, a vampira vai-se apercebendo deste facto e usa-o a seu favor, aparando os golpes e esperando pacientemente pelo final.
Subitamente, e no preciso momento em que Lara cai no chão e em que Satine se prepara para lhe dar um golpe final, um anjo sobrevoa o salão e desfere um golpe no rosto da vampira, pousando imediatamente sobre uma mesa e apontando-lhe a sua espada preparando-se para um novo ataque. Satine grita de dor e vira-se na direcção do seu novo inimigo. No alto da escada uma voz forte entoa uns encantamentos e a vampira percebe que é melhor retirar e lutar num outro dia. Assim, e quando Lilian se prepara desferir um novo golpe, Satine desaparece misteriosamente, como fez da última vez.
- Ai, deves estar a ficar velha, Lara, onde já se viu uma demónio de puro sangue a preocupar-se com reles humanos!? - murmura a ela encostando-se à parede e baixando a cabeça de tal forma que os seus cabelos negros lhe cobriam o rosto - Humanos, reles humanos, deixam-se influenciar por sentimentos inúteis e ainda se gabam disso. Incrível, os seus machos que passam o tempo todo a pensar com a cabeça que têm entre as pernas dominam a arte da guerra e as suas fêmeas, muitas vezes mais inteligentes que eles, entregam-se a intrigas sem fim. Que raça estúpida! - A demónio levanta a cabeça e fita o vazio - Mas se é assim tão estúpida então porque é que eu estou a sentir isto por este grupo de falhados? Especialmente pelo Cav... Ai, Lara, Lara, talvez esteja na altura de partires, de o esqueceres e voltar a colocar essa raça parva onde ela merece, debaixo da tua bota, como escravos. - Um ligeiro sorriso desenha-se em seus lábios e um brilho intenso ilumina os seus olhos dourados.
Sorrindo aliviada por ter chegado a uma decisão, a demónio desce as escadas e dirige-se para o salão com o intuito de tomar um bom pequeno almoço e iniciar os preparativos para a sua partida. Escolhe uma mesa grande e bem iluminada e nela abre um mapa da região onde se entretem a traçar rotas e caminhos enquanto bebe um café e devora vagarosamente o seu prato de carnes frias. Lara, que se encontra totalmente concentrada nesta tarefa, excitada por iniciar uma vez mais uma viagem a solo, nem se dá conta de que por detrás dela se aproxima uma figura envolta num manto negro.
- Parece que vais viajar. - diz a figura com uma voz doce colocando as mãos sobre os ombros da demónio - É pena que não vivas o tempo suficiente para a fazer.
Um arrepio gelado percorre a espinha de Lara ao reconhecer a voz.
- Satine!? - Diz ela semi-espantada virando-se na direcção da vampira.
- Sim! Tenho um presente do teu querido Cavaleiro, espero que gostes.
Os olhos cinzentos da vampira cintilam com um brilho estranho prendendo a sua vítima num transe momentâneo. A lâmina de um pequeno punhal revela-se sob o pesado manto negro e prepara-se para desferir um golpe mortal no coração da demónio. Lara, resistindo à influência mental da sua oponente, apercebe-se a tempo do vil presente que está prestes a receber e desvia bruscamente o alvo. A lâmina enterra-se no ombro esquerdo obrigando a demónio a soltar um grito de dor pavoroso, Satine, admirada por ter falhado um alvo tão fácil, deixa-se ficar por uns segundos sem reacção, dando tempo a Lara a oportunidade necessária para se afastar dela.
- É impossível!!! Nunca ninguém escapou ao meu olhar!! - Rosna a vampira bem alto.
- Agora percebo porque é que nunca conseguiste ser algo mais que prostituta, Satine, és estúpida demais!!!! - grita Lara arrancando o punhal do seu ombro e atirando-o ao chão - Não sabes que os demónios são imunes ao charme mental?
Satine fica vermelha de cólera por ignorar tal coisa.
- Não interessa, vou acabar contigo à maneira antiga, e depois vou deleitar-me com o teu sangue!! - A vampira desfaz-se do seu pesado manto e coloca-se em posição de combate soltando as suas garras letais e aumentando os seus caninos aguçados e mortíferos.
- Minha querida, não sabes há quanto tempo espero por este momento, - diz Lara sorrindo - vou mostrar-te aquilo que um demónio é capaz!!
Lara e Satine atiram-se uma à outra iniciando uma luta intensa corpo a corpo. Embora o seu braço esteja ferido, a agilidade e destreza de Lara são muito superiores às de Satine, que é perita na luta de emboscada e não numa luta aberta. Rapidamente o salão se torna num campo de batalha entre estas duas mulheres, ninguém se mete, todos ficam a ver, alguns até apostando na possível vencedora, observando atentamente cada golpe e cada movimento. Embora a demónio leve a melhor nos primeiros minutos, a verdade é que a perda de sangue começa a fazer os seus efeitos e os seus movimentos tornam-se mais lentos e menos eficazes, a vampira vai-se apercebendo deste facto e usa-o a seu favor, aparando os golpes e esperando pacientemente pelo final.
Subitamente, e no preciso momento em que Lara cai no chão e em que Satine se prepara para lhe dar um golpe final, um anjo sobrevoa o salão e desfere um golpe no rosto da vampira, pousando imediatamente sobre uma mesa e apontando-lhe a sua espada preparando-se para um novo ataque. Satine grita de dor e vira-se na direcção do seu novo inimigo. No alto da escada uma voz forte entoa uns encantamentos e a vampira percebe que é melhor retirar e lutar num outro dia. Assim, e quando Lilian se prepara desferir um novo golpe, Satine desaparece misteriosamente, como fez da última vez.
segunda-feira, agosto 28, 2006
Relatos
Melissa mal podia acreditar em seus olhos, durante tantos anos ouvira, nos templos, histórias sobre guerreiros alados que em nome da justiça e do bem lutavam, arriscando as próprias vidas, contra as forças das trevas, mas nunca chegou a ver um com os seus próprios olhos. O simples facto de Lilian pertencer a essa classe tão restrita fazia crescer no seu peito um sentimento de orgulho e ao mesmo tempo uma pontinha de inveja. Orfeu, sentindo esta dicotomia de sentimentos na sua amada, dá-lhe a mão e aperta-a carinhosamente levando Melissa a afastar aquele ciúme parvo que sentia pela sua amiga.
- E então minha amiga, o que achas do meu novo "look"? - Pergunta Lilian sorrindo como uma criança.
- Lilian, eu estou sem palavras, tu estás simplesmente fantástica. - a sacerdotisa lança-se nos braços da sua amiga apertando-a cheia de saudades - Ai, tu não sabes como me deixaste preocupada. Eu odeio admitir, mas a Lara tem razão, a voar sobre uma cidade de demónios, ai, Lil, onde estavas tu com a cabeça?
- Mel, tu não compreendes, foi superior a mim, senti-me completa uma vez mais e tinha que voar, saborear o vento fresco na minha pele, sentir o leve bater das minhas asas... - Lilian cala-se por uns momentos comovida - Foi fantástico, minha amiga, simplesmente fantástico!
- Para onde foste? Porque demoraste tanto? Aconteceu alguma coisa?
Lilian sorri e olha para a chuva que começava a cair.
- Sim, eu conheci-a.
- Quem? Conheceste quem?
- A Eleanora, aquela que eu vi quando estive morta.
Melissa olha para Orfeu sem querer acreditar.
- Mas como é isso possível, conta-me tudo, tintim por tintim.
- Esta bem. - Lilian senta-se na cama e fita as negras nuvens e a chuva que cai com cada vez mais intensidade - Enquanto voava algo me chamou a atenção, uma mulher muito bonita estava sentada numa nuvem observando-me. Achei aquilo muito estranho e aproximei-me dela. Com a sua voz doce disse-me que se chamava Tela e que era amiga do Cav, ficámos a conversar durante algum tempo, até que ela me disse que a mulher que eu salvara da árvore queria falar comigo, mas eu teria que confiar nela para me levar até ela. Eu disse que sim, não sei porquê mas aquela mulher transmitia-me confiança e, colocando apenas a sua mão sobre a minha, transportou-me até um belo bosque e aí, perto de uma grande árvore, eu encontrei a Eleanora. - Lilian pára por uns momentos e volta a sorrir docemente - Ai, Mel, mas que mulher fenomenal, tão confiante e cheia de vida... Falámos durante horas, sobre tantos assuntos e em especial sobre ele, claro. Por fim, a Tela disse-me que estava na altura de regressar e assim o fiz, despedi-me da Ela e voltei.
- Hm, que interessante... - Diz a sacerdotisa pensativa.
- Antes de me abandonar a Tela perguntou-me, "Amas assim tanto as tuas asas? Mais do que o amor que sentes por ele?", eu olhei para ela sem compreender o significado daquelas perguntas, mas ela simplesmente sorriu e desapareceu. O que achas que ela queria dizer com isto?
- Será que terás que escolher entre elas e o Cav? - Responde Orfeu dando voz ao pensamento das duas mulheres.
Um grito feminino arranca os três amigos das suas reflexões, é um grito de dor e de fúria que provoca arrepios por ser tão familiar. Logo a seguir o som de um aceso combate faz-se ouvir e sentir por toda a estalagem.
- Mas, não é a Lara que está a gritar? - Pergunta Melissa.
- É... - Diz Lilian correndo para a porta.
- E então minha amiga, o que achas do meu novo "look"? - Pergunta Lilian sorrindo como uma criança.
- Lilian, eu estou sem palavras, tu estás simplesmente fantástica. - a sacerdotisa lança-se nos braços da sua amiga apertando-a cheia de saudades - Ai, tu não sabes como me deixaste preocupada. Eu odeio admitir, mas a Lara tem razão, a voar sobre uma cidade de demónios, ai, Lil, onde estavas tu com a cabeça?
- Mel, tu não compreendes, foi superior a mim, senti-me completa uma vez mais e tinha que voar, saborear o vento fresco na minha pele, sentir o leve bater das minhas asas... - Lilian cala-se por uns momentos comovida - Foi fantástico, minha amiga, simplesmente fantástico!
- Para onde foste? Porque demoraste tanto? Aconteceu alguma coisa?
Lilian sorri e olha para a chuva que começava a cair.
- Sim, eu conheci-a.
- Quem? Conheceste quem?
- A Eleanora, aquela que eu vi quando estive morta.
Melissa olha para Orfeu sem querer acreditar.
- Mas como é isso possível, conta-me tudo, tintim por tintim.
- Esta bem. - Lilian senta-se na cama e fita as negras nuvens e a chuva que cai com cada vez mais intensidade - Enquanto voava algo me chamou a atenção, uma mulher muito bonita estava sentada numa nuvem observando-me. Achei aquilo muito estranho e aproximei-me dela. Com a sua voz doce disse-me que se chamava Tela e que era amiga do Cav, ficámos a conversar durante algum tempo, até que ela me disse que a mulher que eu salvara da árvore queria falar comigo, mas eu teria que confiar nela para me levar até ela. Eu disse que sim, não sei porquê mas aquela mulher transmitia-me confiança e, colocando apenas a sua mão sobre a minha, transportou-me até um belo bosque e aí, perto de uma grande árvore, eu encontrei a Eleanora. - Lilian pára por uns momentos e volta a sorrir docemente - Ai, Mel, mas que mulher fenomenal, tão confiante e cheia de vida... Falámos durante horas, sobre tantos assuntos e em especial sobre ele, claro. Por fim, a Tela disse-me que estava na altura de regressar e assim o fiz, despedi-me da Ela e voltei.
- Hm, que interessante... - Diz a sacerdotisa pensativa.
- Antes de me abandonar a Tela perguntou-me, "Amas assim tanto as tuas asas? Mais do que o amor que sentes por ele?", eu olhei para ela sem compreender o significado daquelas perguntas, mas ela simplesmente sorriu e desapareceu. O que achas que ela queria dizer com isto?
- Será que terás que escolher entre elas e o Cav? - Responde Orfeu dando voz ao pensamento das duas mulheres.
Um grito feminino arranca os três amigos das suas reflexões, é um grito de dor e de fúria que provoca arrepios por ser tão familiar. Logo a seguir o som de um aceso combate faz-se ouvir e sentir por toda a estalagem.
- Mas, não é a Lara que está a gritar? - Pergunta Melissa.
- É... - Diz Lilian correndo para a porta.
sábado, agosto 26, 2006
O Regresso
O dia amanhece cinzento e sombrio com pesadas e negras nuvens vagueando lentamente pelo céu trazendo consigo um prenúncio de uma violenta tempestade. Um vento húmido oriundo do Oeste sopra moderadamente fazendo com que os cortinados escarlates do pequeno quarto de Lilian se agitem levemente e provocando um ligeiro tiritar de frio em Melissa e Orfeu que haviam adormecido sobre a cama após uma longa noite de vigília. Lara, envolta nas sombras, mantém-se desperta, seus olhos dourados fitam atentamente a janela aberta e a sua cauda agita-se levemente numa tentativa de fazer escoar a irritação crescente que lhe vai no peito.
Um som, um som que deixa a demónio com os sentidos alerta, aproxima-se da janela. Um leve bater de asas de uma criatura alada, mas tão característico que uma sensação de inquietude invade o espírito de Lara. É um anjo que se aproxima, o inimigo natural de um demónio e, mesmo agora em tempo de paz, ela não consegue deixar de sentir um profundo ódio e desprezo por tal criatura, mas ao mesmo tempo, um certo receio.
Um vulto penetra suavemente no quarto, suas asas brancas encolhem-se de forma a permitir a sua entrada através da janela, seus longos cabelos castanhos encaracolados completamente desalinhados, caiem pelas suas costas como uma cascata e seus olhos verdes esmeralda, muito intensos e vivos, perscrutam o quarto detendo-se sobre a cama e observando com visível deleite os dois amantes adormecidos.
- Tu deves ser é louca! - sussurra Lara atrás dela -, onde é que já se viu, um anjo a sobrevoar calma e livremente uma cidade de demónios. Tu queres morrer!?
Lilian vira-se soltando um grito surdo de espanto ao ver dois olhos dourados fitando-a das trevas.
- Lara!? Eu...
- Sim, já deu para ver que viraste anjinha de novo, mas parece que ao receber umas asas perdeste parte dos teus miolos!! Como podes ser tão estúpida!?
Lilian abre a boca para responder, mas a demónio continua o seu discurso.
- Desapareces assim, sem mais nem menos, deixando-nos preocupados. Melissa passou a noite de pé, imaginando o que te poderia ter acontecido, estava tão nervosa quem nem o Orfeu a conseguiu acalmar. Para onde foste? O que é que se passou pela tua cabeça?
- "Deixando-nos preocupados"? - repete a feiticeira com um sorriso nos lábios - Acaso, cara Lara, estavas preocupada comigo? Eu sempre pensei que vocês demónios não se preocupassem com ninguém, excepto com vocês mesmos, é claro.
Lara morde o lábio ante esta resposta, sua cauda enervada bate violentamente contra uma mesinha quebrando um pote com água fresca e despertando a sacerdotisa e o bardo.
- Deves estar a imaginar coisas!! - grita Lara irritada - Eu não disse isso, ou pelo menos não quis dizer isso, eu... AH, mas porque é que estou a dar conversa a uma rapariga parva e tonta como tu!?
E dizendo isto, vira-lhe as costas e sai do quarto batendo a porta com violência.
- Vocês viram isto? A Lara estava mesmo preocupada comigo. - Diz Lilian sorrindo.
Um som, um som que deixa a demónio com os sentidos alerta, aproxima-se da janela. Um leve bater de asas de uma criatura alada, mas tão característico que uma sensação de inquietude invade o espírito de Lara. É um anjo que se aproxima, o inimigo natural de um demónio e, mesmo agora em tempo de paz, ela não consegue deixar de sentir um profundo ódio e desprezo por tal criatura, mas ao mesmo tempo, um certo receio.
Um vulto penetra suavemente no quarto, suas asas brancas encolhem-se de forma a permitir a sua entrada através da janela, seus longos cabelos castanhos encaracolados completamente desalinhados, caiem pelas suas costas como uma cascata e seus olhos verdes esmeralda, muito intensos e vivos, perscrutam o quarto detendo-se sobre a cama e observando com visível deleite os dois amantes adormecidos.
- Tu deves ser é louca! - sussurra Lara atrás dela -, onde é que já se viu, um anjo a sobrevoar calma e livremente uma cidade de demónios. Tu queres morrer!?
Lilian vira-se soltando um grito surdo de espanto ao ver dois olhos dourados fitando-a das trevas.
- Lara!? Eu...
- Sim, já deu para ver que viraste anjinha de novo, mas parece que ao receber umas asas perdeste parte dos teus miolos!! Como podes ser tão estúpida!?
Lilian abre a boca para responder, mas a demónio continua o seu discurso.
- Desapareces assim, sem mais nem menos, deixando-nos preocupados. Melissa passou a noite de pé, imaginando o que te poderia ter acontecido, estava tão nervosa quem nem o Orfeu a conseguiu acalmar. Para onde foste? O que é que se passou pela tua cabeça?
- "Deixando-nos preocupados"? - repete a feiticeira com um sorriso nos lábios - Acaso, cara Lara, estavas preocupada comigo? Eu sempre pensei que vocês demónios não se preocupassem com ninguém, excepto com vocês mesmos, é claro.
Lara morde o lábio ante esta resposta, sua cauda enervada bate violentamente contra uma mesinha quebrando um pote com água fresca e despertando a sacerdotisa e o bardo.
- Deves estar a imaginar coisas!! - grita Lara irritada - Eu não disse isso, ou pelo menos não quis dizer isso, eu... AH, mas porque é que estou a dar conversa a uma rapariga parva e tonta como tu!?
E dizendo isto, vira-lhe as costas e sai do quarto batendo a porta com violência.
- Vocês viram isto? A Lara estava mesmo preocupada comigo. - Diz Lilian sorrindo.
quarta-feira, agosto 23, 2006
Recompensa
Satine deixa-se ficar nas sombras mordiscando o lábio inferior enquanto assiste à fusão entre o seu amante e a armadura. Seus olhos vivos observam atentamente aquela mancha negra que percorre o braço dele e se aloja no peito formando uma tatuagem invulgar. Seu coração palpita ao vê-lo cambalear, ao ouvi-lo soltar um gemido fraco e senti-lo quase a perder os sentidos. Num acto inconsciente ela salta das trevas e abraça-o sentindo o calor do seu peito e o doce perfume da sua pele. Como uma mãe que protege a sua cria e como uma amante que anseia pelo seu amor, ela deixa-se cair para trás, suavemente, sentando-se num tapete fofo e agradável, levando-o consigo e colocando a sua cabeça sobre o seu ventre quente e acolhedor. Seus dedos brincam com os cabelos do seu amado, entrelaçando-se neles e acariciando-os gentil e ternamente dando-lhe uma sensação de segurança. Por longos minutos deixa-se ficar assim, em silêncio, trocando com ele sorrisos e olhares sedutores e pequenas carícias no rosto e no pescoço.
- Como te sentes? - Pergunta ela com uma voz doce e suave como o mel.
Ele sorri e fecha os olhos, apreciando as carícias da sua amante.
- Parece que morri e fui para o Hades.
- Folgo em ouvir isso, meu guerreiro - diz ela beijando os seus lábios -, mas diz-me, o que achas do meu presente?
Ele abre os olhos e fita intensamente os dela.
- Adorei-o! Sinto uma força, uma energia dentro de mim, que não consigo explicar, é simplesmente maravilhoso.
Ela sorri e passa os seus dedos sobre a nova tatuagem do seu amante.
- Eu sabia que irias conseguir, eu sabia...
- Obrigado, Satine, obrigado por ficares do meu lado e me ajudares. - Diz ele segurando a mão dela e levando-a aos seus lábios beijando-a.
- Não precisas de agradecer, apenas fiz o que o meu coração me disse para fazer. Eu... eu amo-te, Cav, amo-te desde o momento em que te vi, desde o momento em que me escolheste, de entre todas as outras prostitutas, para ser tua.
Ela beija-o intensamente, despejando tudo o que sente naquele toque, naquela dança ardente de duas línguas.
- Mas eu não te amo, Satine, nunca te amei. Adoro-te, és uma mulher extraordinária, uma louca na cama, mas nunca senti algo mais por ti do que desejo carnal.
- Eu sei... Eu faria qualquer coisa por ti, Cav, daria a minha vida se fosse preciso, só para ter um sorriso ou um beijo teu. É engraçado, só nos apaixonamos por pessoas que não nos querem...
Ele levanta-se levando-a consigo e abraça-a sentidamente, beijando em seguida os seus lábios e afagando o seu cabelo.
- Eu nunca te disse que não te queria, Sat, apenas te disse que não te amo. Tu és das poucas fêmeas que me deixam louco. - Diz ele beijando e mordiscando o seu pescoço e desapertando o fino robe de seda transparente. - E eu quero-te, quero-te muito.
Ele volta a beijá-la, desta vez com uma intensidade e desejo crescentes, suas mãos percorrem o corpo da vampira com uma volúpia e luxúria indescritíveis ansiando ardentemente o toque suave da sua pele na dele. O robe cai no chão sem barulho e ambos soltam um gemido de vitória sem no entanto descolarem a boca uma da outra. As suas mãos voltam a percorrer o corpo de Satine como se tivessem vida própria, detendo-se nos seus seios e no seu sexo já húmido e preparado para o receber. Ela sorri ao sentir os dedos dele brincando com o seu clitóris e forçando a entrada e geme ao sentir o seu falo duro roçando em sua pele ansioso por a penetrar. Sem controlar o desejo ele leva-a para uma zona da sala onde várias peles de urso estão dispostas e, sem o mínimo de cerimónia, atira-a para o chão com violência. Ela deixa-se cair sem resistência, esboçando um sorriso sedutor na sua direcção e fitando com prazer aquele falo erecto que avança sobre ela. Ele ajoelha-se diante dela retribuindo o sorriso e beija e lambe o seu sexo provocando em Satine gemidos incontroláveis de pura luxúria. Vendo que está preparada para o receber ele abandona o seu sexo e percorre com a língua um tortuoso caminho até aos seios e por fim ao até aos lábios sensuais da vampira, deixando para trás um rasto quente de saliva. Beijando os seus lábios, ele penetra-a forçando-a a soltar um gemido de puro deleite, um gemido que ecoa por entre os corredores das sombrias catacumbas e que até ao raiar do Sol na superfície seria apenas o primeiros de muitos outros...
- Como te sentes? - Pergunta ela com uma voz doce e suave como o mel.
Ele sorri e fecha os olhos, apreciando as carícias da sua amante.
- Parece que morri e fui para o Hades.
- Folgo em ouvir isso, meu guerreiro - diz ela beijando os seus lábios -, mas diz-me, o que achas do meu presente?
Ele abre os olhos e fita intensamente os dela.
- Adorei-o! Sinto uma força, uma energia dentro de mim, que não consigo explicar, é simplesmente maravilhoso.
Ela sorri e passa os seus dedos sobre a nova tatuagem do seu amante.
- Eu sabia que irias conseguir, eu sabia...
- Obrigado, Satine, obrigado por ficares do meu lado e me ajudares. - Diz ele segurando a mão dela e levando-a aos seus lábios beijando-a.
- Não precisas de agradecer, apenas fiz o que o meu coração me disse para fazer. Eu... eu amo-te, Cav, amo-te desde o momento em que te vi, desde o momento em que me escolheste, de entre todas as outras prostitutas, para ser tua.
Ela beija-o intensamente, despejando tudo o que sente naquele toque, naquela dança ardente de duas línguas.
- Mas eu não te amo, Satine, nunca te amei. Adoro-te, és uma mulher extraordinária, uma louca na cama, mas nunca senti algo mais por ti do que desejo carnal.
- Eu sei... Eu faria qualquer coisa por ti, Cav, daria a minha vida se fosse preciso, só para ter um sorriso ou um beijo teu. É engraçado, só nos apaixonamos por pessoas que não nos querem...
Ele levanta-se levando-a consigo e abraça-a sentidamente, beijando em seguida os seus lábios e afagando o seu cabelo.
- Eu nunca te disse que não te queria, Sat, apenas te disse que não te amo. Tu és das poucas fêmeas que me deixam louco. - Diz ele beijando e mordiscando o seu pescoço e desapertando o fino robe de seda transparente. - E eu quero-te, quero-te muito.
Ele volta a beijá-la, desta vez com uma intensidade e desejo crescentes, suas mãos percorrem o corpo da vampira com uma volúpia e luxúria indescritíveis ansiando ardentemente o toque suave da sua pele na dele. O robe cai no chão sem barulho e ambos soltam um gemido de vitória sem no entanto descolarem a boca uma da outra. As suas mãos voltam a percorrer o corpo de Satine como se tivessem vida própria, detendo-se nos seus seios e no seu sexo já húmido e preparado para o receber. Ela sorri ao sentir os dedos dele brincando com o seu clitóris e forçando a entrada e geme ao sentir o seu falo duro roçando em sua pele ansioso por a penetrar. Sem controlar o desejo ele leva-a para uma zona da sala onde várias peles de urso estão dispostas e, sem o mínimo de cerimónia, atira-a para o chão com violência. Ela deixa-se cair sem resistência, esboçando um sorriso sedutor na sua direcção e fitando com prazer aquele falo erecto que avança sobre ela. Ele ajoelha-se diante dela retribuindo o sorriso e beija e lambe o seu sexo provocando em Satine gemidos incontroláveis de pura luxúria. Vendo que está preparada para o receber ele abandona o seu sexo e percorre com a língua um tortuoso caminho até aos seios e por fim ao até aos lábios sensuais da vampira, deixando para trás um rasto quente de saliva. Beijando os seus lábios, ele penetra-a forçando-a a soltar um gemido de puro deleite, um gemido que ecoa por entre os corredores das sombrias catacumbas e que até ao raiar do Sol na superfície seria apenas o primeiros de muitos outros...
segunda-feira, agosto 21, 2006
Aragoth
O seu sono é agitado e por diversas vezes ela o ouve gritar coisas sem nexo. Com extremo cuidado ela afaga o seu cabelo coberto de suor e tenta esfriar com um pouco de água a sua pele quente e escaldante. Ela não entende o que se está a passar, desde que o viu a manejar aquela força invisível, a libertar aquele poder extraordinário, que ela está confusa e indecisa, apenas segue o seu instinto e os seus sentimentos e reza aos seus Deuses para que tudo termine bem. De alguma forma a sua presença e o seu cuidado trazem-lhe a paz de que ele precisa e, a pouco e pouco, ele acalma-se até voltar a dormir delicadamente como se nada tivesse acontecido. Ela sorri, de seus lábios sai um agradecimento timido, dirigido não se sabe a quem ou ao quê, ternamente acaricia-lhe o rosto e pousa gentilmente a sua cabeça sobre o seu peito sentindo o leve bater do seu coração. Ao compasso desta música ela adormece esperando que ao acordar o veja bem e revigorado.
Um arrepio de frio percorre o seu corpo e Satine procura em vão o corpo quente do seu amante, seus dedos tacteantes perscrutam instintivamente a cama mas tudo o que encontram é uma almofada já fria. Intrigada ela desperta e confirma com os seus olhos aquilo que os seus dedos já lhe haviam dito. Ela levanta-se vestindo um leve robe de seda transparente e procura-o curiosa.
- Estás à minha procura?
Ela vira-se e encontra-o atrás de si, nú e molhado.
- Fui tomar um banho, o treino de ontem deixou-me exausto e com um cheiro pouco agradável.
- Nós vampiras gostamos do cheiro a suor de um macho, é simplesmente irresistível. - Diz ela aproximando-se dele sorrindo.
- Hm, não sabia, nesse caso é melhor ter cuidado, não vás tu chupar-me o sangue enquanto estiver a dormir.
- E logo o teu que é tão delicioso e suave, hm, seria um banquete divinal. - Ela beija-lhe o pescoço mordiscando-o ao de leve.
- Talvez mais logo o faças, agora tenho que voltar aos treinos. - Diz ele afastando-a.
- Eu vi o que fizeste ontem, não sabia que eras capaz de fazer aquilo.
- Há muita coisa sobre mim que não sabes, cara Satine.
- Mas conheço o principal, sei o que te excita e sei o que te dá prazer.
Ela volta a aproximar-se dele e beija-o no canto da boca. Ele sorri dando-lhe razão.
- Talvez os treinos possam esperar. - Diz ele agarrando-a violentamente e beijando-lhe o pescoço.
- Podem sim e isto também. - ela empurra-o para trás e sorri-lhe - tenho algo para te mostrar, algo que vais gostar muito. Segue-me.
Ele faz uma careta como se fosse uma criança a quem tiram um brinquedo, mas a curiosidade fala mais alto e encolhendo os ombros segue-a. Ela leva-o até um beco sem saída.
- É aqui, segue-me.
- Aqui!? Mas isto não tem saída.
Ela sorri.
- Ai, meu querido, tens de aprender que nesta vida nem tudo é o que parece. - Ela pisca-lhe o olho e atravessa como por magia a parede de tijolos. - Vês, é uma ilusão, agora vem, há muito que te quero mostrar isto.
Ele segue-a e atravessa com facilidade aquela parede ilusória. O que está escondido por detrás daquela parede deixa-o sem palavras, pilhas enormes de ouro, baús cheios de pedras preciosas, finas armas espalhadas pelo chão e diversas peças de protecção corporal espalhadas igualmente pela sala.
- Pelos Deuses, mas para onde me trouxeste, para a casa de um dragão? - Diz ele atónito.
- Mais ou menos, mas eu trouxe-te aqui para te oferecer isto. - Ela aponta para um dos cantos da sala.
- Mas isto é...
- Uma armadura completa feita de escamas de dragão, é uma armadura mágica, ela funde-se à tua própria pele criando uma marca, uma tatuagem e quando tu a invocares ou quando ela sentir que estás em perigo activa-se e cobre-te totalmente, desde a cabeça aos pés.
- Eu não sei o que dizer...
- Existe outra coisa, se por acaso durante um combate ficares privado da tua arma, a armadura resolve o teu problema, basta fechares e comprimires os teus punhos um contra o outro e um par de garras de vinte centímetros aparece como por magia.
- É maravilhosa. Mas se é assim tão boa, porque é que tu ou outro demónio não a reclamaram?
- Houve muitos que tentaram, mas a armadura escolhe o seu dono. Queres experimentar?
- O que aconteceu aos que tentaram?
- Ninguém sabe, simplesmente desapareceram.
- Hm, então se lhe tocar corro o risco de desaparecer também... - Ele hesita. - Bom, ninguém vive para sempre.
Ele aproxima-se da fabulosa armadura e estica o braço na sua direcção. O seu dedo toca no metal quente e imediatamente um arrepio estranho percorre o seu braço. A sala parece andar à roda e o seu corpo parece-lhe estar em chamas, imagens de eras passadas percorrem a sua mente como se algo se estivesse a fundir com ele. Subitamente tudo o pára e regressa ao normal, a armadura desapareceu e no seu local encontra-se agora uma frase marcada a fogo vivo.
Aragoth serve-te
Um arrepio de frio percorre o seu corpo e Satine procura em vão o corpo quente do seu amante, seus dedos tacteantes perscrutam instintivamente a cama mas tudo o que encontram é uma almofada já fria. Intrigada ela desperta e confirma com os seus olhos aquilo que os seus dedos já lhe haviam dito. Ela levanta-se vestindo um leve robe de seda transparente e procura-o curiosa.
- Estás à minha procura?
Ela vira-se e encontra-o atrás de si, nú e molhado.
- Fui tomar um banho, o treino de ontem deixou-me exausto e com um cheiro pouco agradável.
- Nós vampiras gostamos do cheiro a suor de um macho, é simplesmente irresistível. - Diz ela aproximando-se dele sorrindo.
- Hm, não sabia, nesse caso é melhor ter cuidado, não vás tu chupar-me o sangue enquanto estiver a dormir.
- E logo o teu que é tão delicioso e suave, hm, seria um banquete divinal. - Ela beija-lhe o pescoço mordiscando-o ao de leve.
- Talvez mais logo o faças, agora tenho que voltar aos treinos. - Diz ele afastando-a.
- Eu vi o que fizeste ontem, não sabia que eras capaz de fazer aquilo.
- Há muita coisa sobre mim que não sabes, cara Satine.
- Mas conheço o principal, sei o que te excita e sei o que te dá prazer.
Ela volta a aproximar-se dele e beija-o no canto da boca. Ele sorri dando-lhe razão.
- Talvez os treinos possam esperar. - Diz ele agarrando-a violentamente e beijando-lhe o pescoço.
- Podem sim e isto também. - ela empurra-o para trás e sorri-lhe - tenho algo para te mostrar, algo que vais gostar muito. Segue-me.
Ele faz uma careta como se fosse uma criança a quem tiram um brinquedo, mas a curiosidade fala mais alto e encolhendo os ombros segue-a. Ela leva-o até um beco sem saída.
- É aqui, segue-me.
- Aqui!? Mas isto não tem saída.
Ela sorri.
- Ai, meu querido, tens de aprender que nesta vida nem tudo é o que parece. - Ela pisca-lhe o olho e atravessa como por magia a parede de tijolos. - Vês, é uma ilusão, agora vem, há muito que te quero mostrar isto.
Ele segue-a e atravessa com facilidade aquela parede ilusória. O que está escondido por detrás daquela parede deixa-o sem palavras, pilhas enormes de ouro, baús cheios de pedras preciosas, finas armas espalhadas pelo chão e diversas peças de protecção corporal espalhadas igualmente pela sala.
- Pelos Deuses, mas para onde me trouxeste, para a casa de um dragão? - Diz ele atónito.
- Mais ou menos, mas eu trouxe-te aqui para te oferecer isto. - Ela aponta para um dos cantos da sala.
- Mas isto é...
- Uma armadura completa feita de escamas de dragão, é uma armadura mágica, ela funde-se à tua própria pele criando uma marca, uma tatuagem e quando tu a invocares ou quando ela sentir que estás em perigo activa-se e cobre-te totalmente, desde a cabeça aos pés.
- Eu não sei o que dizer...
- Existe outra coisa, se por acaso durante um combate ficares privado da tua arma, a armadura resolve o teu problema, basta fechares e comprimires os teus punhos um contra o outro e um par de garras de vinte centímetros aparece como por magia.
- É maravilhosa. Mas se é assim tão boa, porque é que tu ou outro demónio não a reclamaram?
- Houve muitos que tentaram, mas a armadura escolhe o seu dono. Queres experimentar?
- O que aconteceu aos que tentaram?
- Ninguém sabe, simplesmente desapareceram.
- Hm, então se lhe tocar corro o risco de desaparecer também... - Ele hesita. - Bom, ninguém vive para sempre.
Ele aproxima-se da fabulosa armadura e estica o braço na sua direcção. O seu dedo toca no metal quente e imediatamente um arrepio estranho percorre o seu braço. A sala parece andar à roda e o seu corpo parece-lhe estar em chamas, imagens de eras passadas percorrem a sua mente como se algo se estivesse a fundir com ele. Subitamente tudo o pára e regressa ao normal, a armadura desapareceu e no seu local encontra-se agora uma frase marcada a fogo vivo.
Aragoth serve-te
Asas
Deixo-me levar pela brisa quente da manhã, como é bom poder saborear uma vez mais esta sensação maravilhosa, esta liberdade magnífica que tão poucos podem experimentar. Sempre me convenci que nunca mais voltaria a senti-las, que ficaria para todo o sempre presa ao chão, incompleta e infeliz, mas, após acordar de novo para a vida, eu senti algo, algo que me foi retirado naquele dia fatídico, ao princípio pensei que se tratava da minha imaginação, apenas uma memória de um passado orgulhoso, mas depois, depois de me ver diante daquele espelho vi que não estava a sonhar, vi que a sensação era real e que uma vez mais estava completa. As minhas asas, as minhas belas, brancas e orgulhosas asas, voltaram.
Deixo que o vento de Leste me abrace e me envolva com o seu toque fresco e delicado, deixo que ele me guie e me leve para onde ele quiser, hoje não me pertenço, hoje não quero ser de ninguém, quero apenas apreciar o momento e... voar.
- Como assim, ela desapareceu!? - Pergunta Melissa entrando de rompante no quarto. - Ainda há pouco aqui estava, ia só demorar uns minutos para se vestir.
- Pode ser que aqui tenha estado ainda há pouco, mas agora já não está e, pela maneira como o quarto estava, deve ter saído à pressa. - Responde Lara calmamente.
- Saído? Cara Lara, pela porta da rua é que não foi, senão nós tê-la-iamos visto. Ela deve estar algures ainda na estalagem, vamos procurá-la.
- Vais perder o teu tempo, já procurei, ela desapareceu.
- Como? Evaporou-se, ou será que ganhou asas e voou pela janela? - Ironiza a sacerdotisa.
- É isso mesmo que eu acho. - Responde a demónio fitando intensamente Melissa com os seus olhos dourados. - Encontrei esta pena no quarto de banho e detectei um cheiro que já não sentia há muito tempo, um cheiro de anjo, cara Melissa, um cheiro de anjo misturado com o cheiro dela.
- Terá ela sido raptada?
- Ai, Deuses, ajudem-me, será que os humanos são assim tão idiotas? Melissa, tu lançaste um feitiço poderoso, será que tu não conheces as lendas antigas? As histórias dos antigos e poderosos feiticeiros que caminharam este mundo séculos antes de nós?
Melissa cora ante a sua ignorância.
- Não, não sei...
- Segundo a lenda, - interrompe Orfeu, indo em auxílio da sua amada - existia sempre um senão cada vez que poderosas magias eram libertadas. Por exemplo, segundo a lenda de Kilian, um sacerdote de Juba muito poderoso, quando ele tentou trazer de volta a sua mulher e os seus filhos, algo correu mal, ao princípio o feitiço funcionara, Kilian vencera a Morte e deu vida aos seus entes queridos, mas nos dias seguintes aconteceu algo que ele não estava à espera, as suas formas mudaram e eles voltaram a ser o que eram numa vida anterior. É como se a Morte tivesse sempre a última palavra, eles regressavam, é certo, mas não da forma como nós queríamos.
- Então, a Lilian vai transformar-se de novo em Serafim? - Pergunta Melissa deixando-se cair na cama.
- Não sei. Se bem te lembras, a Lilian não morreu quando era um anjo, os Deuses tiveram pena dela, do seu sofrimento e dor e tornaram-na humana. Eu não faço ideia do que poderá acontecer. - Responde Lara olhando para a janela aberta.
- Pobre Lilian, espero que nada de mal lhe aconteça ou eu nunca me perdoarei.
Orfeu senta-se ao lado de Melissa e abraça-a ternamente tentando confortá-la.
- Uma coisa é certa, - diz Lara debruçando-se sobre o parapeito - aquela rapariga é muito estúpida, imaginem, a voar como um anjo sobre uma cidade de demónios... Ou é muito corajosa ou é muito parva ao tentar a Morte desta maneira.
Deixo que o vento de Leste me abrace e me envolva com o seu toque fresco e delicado, deixo que ele me guie e me leve para onde ele quiser, hoje não me pertenço, hoje não quero ser de ninguém, quero apenas apreciar o momento e... voar.
- Como assim, ela desapareceu!? - Pergunta Melissa entrando de rompante no quarto. - Ainda há pouco aqui estava, ia só demorar uns minutos para se vestir.
- Pode ser que aqui tenha estado ainda há pouco, mas agora já não está e, pela maneira como o quarto estava, deve ter saído à pressa. - Responde Lara calmamente.
- Saído? Cara Lara, pela porta da rua é que não foi, senão nós tê-la-iamos visto. Ela deve estar algures ainda na estalagem, vamos procurá-la.
- Vais perder o teu tempo, já procurei, ela desapareceu.
- Como? Evaporou-se, ou será que ganhou asas e voou pela janela? - Ironiza a sacerdotisa.
- É isso mesmo que eu acho. - Responde a demónio fitando intensamente Melissa com os seus olhos dourados. - Encontrei esta pena no quarto de banho e detectei um cheiro que já não sentia há muito tempo, um cheiro de anjo, cara Melissa, um cheiro de anjo misturado com o cheiro dela.
- Terá ela sido raptada?
- Ai, Deuses, ajudem-me, será que os humanos são assim tão idiotas? Melissa, tu lançaste um feitiço poderoso, será que tu não conheces as lendas antigas? As histórias dos antigos e poderosos feiticeiros que caminharam este mundo séculos antes de nós?
Melissa cora ante a sua ignorância.
- Não, não sei...
- Segundo a lenda, - interrompe Orfeu, indo em auxílio da sua amada - existia sempre um senão cada vez que poderosas magias eram libertadas. Por exemplo, segundo a lenda de Kilian, um sacerdote de Juba muito poderoso, quando ele tentou trazer de volta a sua mulher e os seus filhos, algo correu mal, ao princípio o feitiço funcionara, Kilian vencera a Morte e deu vida aos seus entes queridos, mas nos dias seguintes aconteceu algo que ele não estava à espera, as suas formas mudaram e eles voltaram a ser o que eram numa vida anterior. É como se a Morte tivesse sempre a última palavra, eles regressavam, é certo, mas não da forma como nós queríamos.
- Então, a Lilian vai transformar-se de novo em Serafim? - Pergunta Melissa deixando-se cair na cama.
- Não sei. Se bem te lembras, a Lilian não morreu quando era um anjo, os Deuses tiveram pena dela, do seu sofrimento e dor e tornaram-na humana. Eu não faço ideia do que poderá acontecer. - Responde Lara olhando para a janela aberta.
- Pobre Lilian, espero que nada de mal lhe aconteça ou eu nunca me perdoarei.
Orfeu senta-se ao lado de Melissa e abraça-a ternamente tentando confortá-la.
- Uma coisa é certa, - diz Lara debruçando-se sobre o parapeito - aquela rapariga é muito estúpida, imaginem, a voar como um anjo sobre uma cidade de demónios... Ou é muito corajosa ou é muito parva ao tentar a Morte desta maneira.
quarta-feira, agosto 16, 2006
O Treino
Enquanto Lara se interroga sobre a estranha pena que acabara de encontrar no quarto de Lilian, um homem treina intensamente vários metros abaixo dela, num local em que nem mesmo o mais corajoso dos heróis se aventuraria a entrar, as catacumbas de Herfin. As feridas sararam por completo graças aos cuidados da sua amante e agora, a pouco e pouco, ele tenta recuperar a sua forma treinando durante horas a fio até que a exaustão lhe leve a melhor. Ela vigia-o de perto, cada golpe, cada movimento e cada suspiro, nada lhe escapa. Sentada no escuro apenas o observa, contemplando o seu corpo nú, a sua forma graciosa e as suas múltiplas cicatrizes honrosamente merecidas em diversas e numerosas batalhas e confrontos. Finalmente, ele pára, a sua respiração é pesada e a sua pele coberta de suor reluz ante a estranha luz dos candelabros, por longos minutos ele deixa-se apenas ficar de pé fitando algo que a vampira não consegue discernir. De repente e sem que ela o espere, ele solta um grito enorme, quase animalesco, e dos seus olhos farpas de energia branca são expelidas em todas as direcções, Satine nem consegue acreditar no que vê, já o conhece há algum tempo e nunca imaginou que ele tivesse este tipo de poder e, tal como um espectador que assiste a um espectáculo de circo em que o artista faz uma manobra perigosa, ela observa quieta e em silêncio. A sala treme um pouco e impelidos por uma força invisível os objectos que não estão fixos começam a rodopiar à volta dele, espadas, armaduras, copos e jarros, todos parecem ter ganho vida própria e giram em torno de um eixo oculto. Subitamente ele geme e vencido pelo cansaço perde os sentidos levando a que todos os objectos que até então voavam pela sala alegremente caiam no chão causando uma barulheira enorme.
Satine corre na sua direcção, preocupada que este esforço sobrenatural tenha de alguma forma afectado o seu processo de cura. Vendo-o não só como um amante, mas também como uma cria, ela leva-o para o quarto onde o deita delicadamente sobre a cama e deita-se ao seu lado brincando com os seus pêlos do peito esperando pacientemente que ele volte a acordar.
Satine corre na sua direcção, preocupada que este esforço sobrenatural tenha de alguma forma afectado o seu processo de cura. Vendo-o não só como um amante, mas também como uma cria, ela leva-o para o quarto onde o deita delicadamente sobre a cama e deita-se ao seu lado brincando com os seus pêlos do peito esperando pacientemente que ele volte a acordar.
O Amor Está No Ar
O cheirinho de pão acabado de fazer enche o enorme salão de convívio deixando todos os que nele se encontram de água na boca, bom, todos excepto uma demónio que se encontra imersa nos seus pensamentos e apenas desperta de vez em quando para esvaziar o seu copo de vinho. Ocupa a mesa mais recôndita de toda a sala aproveitando a fraca luminosidade aí existente para se fundir com as sombras, seus olhos dourados parecem brilhar como lanternas, fitando somente o vazio, sua pele pálida e prateada toma um tom fantasmagórico ante aquela parca luz e o seu rosnar de cada vez que um demónio macho tenta a sua sorte é tão intimidante que muitos deles preferem ignorá-la do que enfrentar o que quer que se encontre ali escondido. Desde que Lilian acordara que Lara ali se encontra, sozinha, meditando e bebendo sem se dar conta que lá fora amanhece.
- Ora, ora, o que fazes aqui sentada no escuro? Anda para uma mesa com mais claridade. - Convida Orfeu que acabara de se sentar mesmo em frente de Lara.
- Desaparece... - Responde a demónio com maus modos esvaziando mais um copo de vinho.
- Olha lá. - Continua Orfeu ignorando a sua resposta. - Quem é a tal Eleanora?
Lara pousa o copo e fita-o com uns olhos de poucos amigos e rosna ameaçadoramente.
- Ouve lá, humano, qual foi a parte do "desaparece" que não percebeste?
- Pronto, pronto eu calo-me. - Diz o bardo baixando os olhos e pegando num copo e no jarro para se servir também de um pouco de vinho.
O som de uma lâmina cortando o ar faz-se sentir e o jarro sai disparado das mãos de Orfeu indo cair no chão partindo-se em mil pedaços e derramando o vinho pelo soalho de madeira. Todos os olhos se viram para o bardo que se encontra pálido e trémulo com a reacção da demónio.
- Quando eu digo "desaparece", tu desapareces, não te calas, percebes-te? - Rosna Lara. - Quero estar só, por isso vai procurar uma outra mesa ou a próxima lâmina vai direitinha ao teu coração, rapazinho!
Vendo que a demónio não brinca o bardo levanta-se e vai sentar-se na mesa mais afastada que consegue encontrar.
- Eleanora... Espero que tenha sido um sonho, pois se essa mulher voltar a feiticeira irá perdê-lo... e eu também... - Comenta Lara enchendo de novo o copo.
Momentos depois desce Melissa, que vendo Orfeu tomando o pequeno almoço sozinho decide imediatamente juntar-se-lhe para continuar a conversa interrompida.
- O que tens? - Pergunta ela. - Estás pálido.
- Não foi nada, tive uma pequena desavença com a Lara.
- E estás bem?
- Sim, não foi nada. Como está a Lilian?
- Tendo em conta que esteve morta e sofreu uma experiência extra-corporal, eu diria que até está muito bem. - Diz Melissa sorrindo. - Está apenas a vestir-se e já vem ter connosco.
- Espero que se demore. - Diz Orfeu segurando-lhe a mão.
A sacerdotisa fica sem palavras ante este gesto inesperado e apenas sorri nervosamente.
- És muito bonita, sabias?
Muda, Melissa cora visivelmente.
- Conheço tantas histórias de amor, romance e aventura. Histórias que contam feitos extraordinários realizados a pedido ou para salvar mulheres de rara beleza e carácter, mas, estando aqui à tua frente, olhando para esses olhos tão belos e sentindo o toque quente da tua mão, só consigo pensar que nenhuma delas te chega aos calcanhares e, se porventura, os heróis das minhas histórias tivessem que realizar os feitos heróicos em teu nome, de certeza que o fariam com muito mais vigor e coragem.
- E-eu não sei o que dizer... O que acabaste de me dizer foi tão bonito que me deixaste sem palavras.
- Não precisas de dizer nada, o teu olhar diz tudo.
Orfeu sorri para Melissa e afaga o seu cabelo.
- Eu amo-te. - Diz ele por fim. - Desde o momento em que te vi, que te amo.
Melissa suspira e sorri de contentamento.
- Eu também te amo. - Diz ela aproximando os seus lábios dos dele.
Os seus rostos aproximam-se e conseguem sentir as respirações ofegantes um do outro, o bater dos seus corações dispara de tal forma que parece que lhes vai sair pela boca. Ambos fecham os olhos e preparam-se para saborear o gosto um do outro, preparam-se para o primeiro toque e para o primeiro choque carregado de magia que é um primeiro beijo.
- Lamento interromper. - Diz Lara aproximando-se e quebrando a magia. - Mas preciso de falar com a feiticeira.
Agora é a vez de Orfeu fitar Lara com cara de poucos amigos.
- Não podias ter escolhido altura melhor? - Diz ele irritado.
- A Lilian está no quarto, é só subires. - Diz Melissa secamente.
- Ui, voltem lá à vossa vidinha, mas pelo jeito que estão as coisa o melhor é arranjarem um quarto.
A demónio afasta-se deixando para trás o casal que a observa sem palavras e sem saber o que lhe responder.
O quarto de Lilian continua na mesma, à excepção da coluna de vapor de água que se escapa pelas frinchas da porta do quarto de banho, Lara sorri pensando na noite de loucura em que os três passaram juntos durante festa dos Deuses. Esperando surpreender a feiticeira, a demónio abre a porta de rompante e entra sem cerimónia, mas para seu desgosto encontra a banheira vazia e com a torneira ainda aberta, no chão encontra também uma toalha e a poucos centímetros desta um objecto estranho.
- O que é isto? - Pergunta a si mesma enquanto apanha aquele estranho objecto. - Uma pena!?
- Ora, ora, o que fazes aqui sentada no escuro? Anda para uma mesa com mais claridade. - Convida Orfeu que acabara de se sentar mesmo em frente de Lara.
- Desaparece... - Responde a demónio com maus modos esvaziando mais um copo de vinho.
- Olha lá. - Continua Orfeu ignorando a sua resposta. - Quem é a tal Eleanora?
Lara pousa o copo e fita-o com uns olhos de poucos amigos e rosna ameaçadoramente.
- Ouve lá, humano, qual foi a parte do "desaparece" que não percebeste?
- Pronto, pronto eu calo-me. - Diz o bardo baixando os olhos e pegando num copo e no jarro para se servir também de um pouco de vinho.
O som de uma lâmina cortando o ar faz-se sentir e o jarro sai disparado das mãos de Orfeu indo cair no chão partindo-se em mil pedaços e derramando o vinho pelo soalho de madeira. Todos os olhos se viram para o bardo que se encontra pálido e trémulo com a reacção da demónio.
- Quando eu digo "desaparece", tu desapareces, não te calas, percebes-te? - Rosna Lara. - Quero estar só, por isso vai procurar uma outra mesa ou a próxima lâmina vai direitinha ao teu coração, rapazinho!
Vendo que a demónio não brinca o bardo levanta-se e vai sentar-se na mesa mais afastada que consegue encontrar.
- Eleanora... Espero que tenha sido um sonho, pois se essa mulher voltar a feiticeira irá perdê-lo... e eu também... - Comenta Lara enchendo de novo o copo.
Momentos depois desce Melissa, que vendo Orfeu tomando o pequeno almoço sozinho decide imediatamente juntar-se-lhe para continuar a conversa interrompida.
- O que tens? - Pergunta ela. - Estás pálido.
- Não foi nada, tive uma pequena desavença com a Lara.
- E estás bem?
- Sim, não foi nada. Como está a Lilian?
- Tendo em conta que esteve morta e sofreu uma experiência extra-corporal, eu diria que até está muito bem. - Diz Melissa sorrindo. - Está apenas a vestir-se e já vem ter connosco.
- Espero que se demore. - Diz Orfeu segurando-lhe a mão.
A sacerdotisa fica sem palavras ante este gesto inesperado e apenas sorri nervosamente.
- És muito bonita, sabias?
Muda, Melissa cora visivelmente.
- Conheço tantas histórias de amor, romance e aventura. Histórias que contam feitos extraordinários realizados a pedido ou para salvar mulheres de rara beleza e carácter, mas, estando aqui à tua frente, olhando para esses olhos tão belos e sentindo o toque quente da tua mão, só consigo pensar que nenhuma delas te chega aos calcanhares e, se porventura, os heróis das minhas histórias tivessem que realizar os feitos heróicos em teu nome, de certeza que o fariam com muito mais vigor e coragem.
- E-eu não sei o que dizer... O que acabaste de me dizer foi tão bonito que me deixaste sem palavras.
- Não precisas de dizer nada, o teu olhar diz tudo.
Orfeu sorri para Melissa e afaga o seu cabelo.
- Eu amo-te. - Diz ele por fim. - Desde o momento em que te vi, que te amo.
Melissa suspira e sorri de contentamento.
- Eu também te amo. - Diz ela aproximando os seus lábios dos dele.
Os seus rostos aproximam-se e conseguem sentir as respirações ofegantes um do outro, o bater dos seus corações dispara de tal forma que parece que lhes vai sair pela boca. Ambos fecham os olhos e preparam-se para saborear o gosto um do outro, preparam-se para o primeiro toque e para o primeiro choque carregado de magia que é um primeiro beijo.
- Lamento interromper. - Diz Lara aproximando-se e quebrando a magia. - Mas preciso de falar com a feiticeira.
Agora é a vez de Orfeu fitar Lara com cara de poucos amigos.
- Não podias ter escolhido altura melhor? - Diz ele irritado.
- A Lilian está no quarto, é só subires. - Diz Melissa secamente.
- Ui, voltem lá à vossa vidinha, mas pelo jeito que estão as coisa o melhor é arranjarem um quarto.
A demónio afasta-se deixando para trás o casal que a observa sem palavras e sem saber o que lhe responder.
O quarto de Lilian continua na mesma, à excepção da coluna de vapor de água que se escapa pelas frinchas da porta do quarto de banho, Lara sorri pensando na noite de loucura em que os três passaram juntos durante festa dos Deuses. Esperando surpreender a feiticeira, a demónio abre a porta de rompante e entra sem cerimónia, mas para seu desgosto encontra a banheira vazia e com a torneira ainda aberta, no chão encontra também uma toalha e a poucos centímetros desta um objecto estranho.
- O que é isto? - Pergunta a si mesma enquanto apanha aquele estranho objecto. - Uma pena!?
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