terça-feira, outubro 31, 2006

Um Novo Membro

O suave crepitar da lareira misturado com o doce aroma das ervas aromáticas tornavam o ar da salinha de estar simplesmente irresistível e acolhedor. Fecho os olhos e deixo-me enterrar profundamente na confortável poltrona de pele enquanto espero pacientemente pela anfitriã.
- Vejo que não fizeste cerimónia e já estás bem instalado. - diz ela entrando na salinha segurando um tabuleiro com duas xícaras de chá, um bule com água a ferver e uns bolinhos de manteiga.
- Sim, isto recorda-me os velhos tempos, parece que nada mudou. - digo sorrindo servindo-me de chá e bolinhos.
- Estás a iludir-te, muita coisa mudou, já não temos 15 anos, estamos mais maduros, mais experientes. - diz ela sentando-se à minha frente observando-me por entre a leve névoa que se elevava da sua xícara.
- Tens razão...
A conversa morre repentinamente dando origem a um silêncio desconfortável que nenhum dos dois ousa quebrar.
- Tive saudades tuas. - digo repentinamente. - Saudades do teu olhar, da tua voz, do teu perfume, da tua presença. Agora que olho para trás, aquela discussão parece-me tão estúpida.
- E foi, mas como se costuma dizer, a verdadeira amizade não morre tão facilmente e também eu tive saudades tuas. - diz ela com um sorriso bebendo um pouco mais do seu chá de baunilha. - Como está a tua mulher?
- Estamos separados, ai Diana, aconteceu tanta coisa na minha vida que não sei como é que continuo são.
- Conta-me, afinal de contas sempre fomos confidentes.
- Eu sei, mas eu nem sei por onde começar e nem te quero maçar com os meus problemas.
- Não digas parvoíces, tu não me vais maçar, bem pelo contrário, essa tua voz é um bálsamo para os meus ouvidos. - os seus olhos verdes brilham ao dizer estas palavras e eu coro ligeiramente.
- Com tais argumentos quem é que pode resistir, está bem, eu conto. - início então o meu relato desde a nossa separação até ao nosso reencontro. - E foi assim...
- Eu nem sei o que dizer, até me fazes sentir um bocadinho culpada por não estar presente quando mais precisaste.
- Não fiques assim, estávamos separados. - digo sorrindo. - E tu, o que tens feito?
A feiticeira suspira, bebe mais um golo do seu chá e olha para mim intensamente.
- Prefiro não dizer nada por agora, numa outra altura eu conto-te, se não te importas é claro.
- Não, eu não me importo, mas tu não te escapas, minha feiticeira, vais ter de me contar. - digo sorrindo deliciando-me com os seus bolinhos de manteiga.
- Suponho então que a tal ajuda que me pediste ainda há pouco refere-se a esse suposto feiticeiro, certo?
- Certo! Segundo sei, para encontrar um feiticeiro, só um outro feiticeiro, por isso vim ter contigo.
- Tens alguma coisa dele? Um pedaço de roupa, um cabelo ou simplesmente algo que ele tenha tocado?
- Sim, os restos do tal pacote que te falei, toma. - entrego-lhe o que resta do embrulho. - Só mais uma coisa, como é que consegues viver nesta cidade, é tão diferente das lendas, as pessoas são intolerantes e xenófobas e parece que vivem com medo de algo, especialmente à noite onde ninguém anda nas ruas.
- Eu depois conto-te, Cav, agora preciso de me concentrar para te dar as informações de que precisas. - a feiticeira levanta-se e dirige-se para a porta. - Antes de ires, tenho que te avisar de uma coisa, não confies em ninguém nesta cidade pois nada é o que parece.
- Por essa ordem de ideias nem em ti devia confiar, Diana. - digo piscando o olho e beijando-lhe o rosto. - Já sabes onde me encontrar, até logo!

- Bolas, já não era sem tempo, Cav, por onde é que tu andaste? - pergunta a demónio assim que abro a porta.
- Estive com a minha amiga como te tinha dito, estavas preocupada?
- Com a tua amiga? Este tempo todo? De certeza que estiveram a "matar" saudades, não foi? - continua ela.
- Não foi esse tipo de saudades, sua pervertida, mas sim, estivemos a pôr a conversa em dia.
- Pois... - diz ela desconfiada.
- Acaso estás com ciúmes?
- Ciúmes, eu? Claro que não, apenas estou curiosa. Quero saber se ela é bonita, interessante e acima de tudo se gosta de demónios.
- Não sei, vais ter de lhe perguntar isso.
- Oh, vá lá, diz-me quais são as suas fantasias, com o que é que se excita, que posições gosta e com que sexos é que gosta de ter prazer.
- Tu és incrível, estamos a tentar resolver o nosso problema e tu só pensas em levá-la para a cama! - exclamo atirando-me para cima do colchão.
- Hey, a vida não são só problemas, temos de descontrair de vez em quando e para mim não há nada como uma boa queca. - diz ela deitando-se ao meu lado beijando o meu pescoço.
- Tu não mudas, pois não? - digo sorrindo.
- Nunca, meu querido, nunca! - diz ela lambendo o meu queixo.
- Já agora, ela aceitou em ajudar-nos.
- Isso é bom, mas agora faz o favor de estar calado, está bem? - e sem mais palavras beija-me.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Reencontro

A porta abre-se violentamente e uma demónio furiosa entra de rompante.
- Eu vou matá-lo! Eu vou esganá-lo! - grita ela atirando-se para cima da cama e agarrando-se à almofada.
- Tem calma, primeiro temos de o encontrar. - respondo fechando a porta atrás de mim.
- Como queres que tenha calma, ele usou-nos, Cav, usou-nos para fazer o seu trabalho sujo.
- Eu sei, mas não podes agir assim, tens de ter calma e pensar bem antes de tomar uma decisão precipitada. - sento-me ao lado dela massajando-lhe os ombros tensos. - É óbvio que a pessoa que nos abordou não é um indivíduo qualquer, é alguém ligado ao oculto e às artes arcanas, pois ninguém na estalagem se lembra de o ter visto e isso é muito estranho.
- Hmmm... - exclama ela deliciada. - Feiticeiro ou não quando eu o encontrar bem pode rezar a todos os seus Deuses e invocar todas as suas magias, isso não vai servir de nada, vai sentir na pele o preço de enganar um demónio.
- És sempre a mesma, Lara, tu não mudas. - respondo sorrindo e beijando-lhe a nuca.
A demónio vira-se para mim e beija-me nos lábios.
- Esta cidade é muito estranha, reparaste que mesmo depois do estrondo ninguém veio ver o que se passava? As ruas continuavam desertas, os estores fechados e nem sinal da guarda... Cav, estou a ter o mesmo pressentimento que tive em Unyard, algo não está bem e receio que o nosso homem mistério é apenas a ponta do icebergue.
- Eu penso o mesmo, Lara, eu penso o mesmo... - digo levantando-me e dirigindo-me para a porta.
- Onde vais? - Pergunta Lara levantando-se também.
- Ter com uma amiga.
- Uma amiga? Mas tu conheces alguém nesta cidade?
- Sim...
A demónio olha para mim desconfiada.
- Então andámos este tempo todo à procura de um quarto para nada, podíamos ter ido para casa dessa tua "amiga".
- A verdade é que eu não estava à espera de a voltar a ver, estamos de relações cortadas por uma idiotice, mas parece que vou ter de engolir o meu orgulho e dar o braço a torcer.
- Eu vou contigo. - diz a demónio colocando o manto.
- Não! Eu prefiro tratar disto sozinho. Até já.

O meu coração bate de ansiedade quando encontro finalmente a casa dela, as memórias há muito esquecidas das nossas aventuras percorrem uma vez mais a minha mente, entre elas está aquela discussão estúpida que nos separou durante todos este anos. O Destino tem destas coisas, afasta-nos de certos caminhos para depois nos lançar de volta para eles.
Ouço passos no interior caminhando na minha direcção e a porta abre-se lentamente momentos depois. Os nossos olhares cruzam-se pela primeira vez desde a nossa separação e o meu coração explode de emoção.
- Cav!? - Exclama ela surpreendida.
- Olá Diana. - Respondo meio embaraçado.
- Não estava à espera de te ver. - diz ela nervosamente ajeitando o cabelo. - O que fazes por aqui?
- Preciso de ajuda, será que podes ajudar um velho amigo?
A feiticeira sorri e abre a porta de par em par.
- É claro que te ajudo, entra. Já agora, queres um chá?

segunda-feira, outubro 23, 2006

O Pacote (2ª Parte)

Os candeeiros a óleo iluminam as ruas e vielas sombrias de Briseida, por onde quer que olhemos não encontramos vivalma, como se o turbilhão de pessoas que se movimentam pelas ruas durante o dia tivesse simplesmente desaparecido sem deixar rasto.
- Que esquisito, seria de esperar ver alguém nas ruas, assim como vemos em Roma e noutras grandes metrópoles, afinal de contas, ainda não é assim tão tarde e há sempre quem goste do ar da noite... - Comento olhando em volta.
- Sei lá, estes tipos são umas aberrações autênticas, se calhar têm medo do papão. - responde Lara sorrindo. - Ao menos lá arranjámos um trabalhinho, 30 moedas só para entregar este pacote, uff, o tipo devia estar desesperado.
- Pois devia, é muito dinheiro para uma tarefa assim tão simples. O que achas que está aí dentro?
- Não sei, mas aposto que deve ser algum presente para a amante. Machos, são sempre os mesmos, a esta hora deve estar com a sua mulher a dar uma festa importante, enquanto a sua rameira cuida dos bastardos.
- Não generalizes, não somos todos assim.
- Não? Meu querido, lá por tu não seres assim não quer dizer que os outros não sejam, vocês só pensam com o que têm entre as pernas e quem disser o contrário é um hipócrita e um mentiroso.
- Olha quem fala, tu és fêmea e ages exactamente da mesma maneira.
- Mas eu sou diferente! - diz a demónio arrogantemente.
- Claro, és diferente... Não existe um ditado que diz, "pela boca morre o peixe"?
- Cav, tu não me queiras comparar a seres inferiores, eu sou um demónio, tenho um apetite voraz e ninguém tem nada a ver com aquilo que eu faço ou deixo de fazer. Aliás, quando eu gosto de alguém eu sou... como é que vocês dizem, fiel?
Desmancho-me a rir ao ouvir a demónio a dizer aquilo.
- Tu, fiel? Oh Lara, só tu para me fazeres rir. Quem não te conheça que te compre, és demais!
- É a verdade, o problema é que eu ainda não encontrei alguém que goste. - responde ela com um sorriso enigmático nos lábios.
- Como assim que gostes, vocês demónios não amam, pelo menos é isso que me estás sempre a dizer.
- Mas quem é que falou de amor? Refiro-me a outro tipo de gosto.
- Não existe outro tipo de gosto, a não ser é claro o desejo sexual.
- Pois...
- Ui, essa doeu, isso quer dizer então que não estás muito satisfeita comigo.
- Eu não disse isso...
- Mas tu não me és "fiel", logo deduzo que não te satisfaça.
- De certa forma até sou, mas à minha maneira.
- À tua maneira, claro... - respondo sorrindo.
- E com esta conversa da treta lá chegámos nós ao nosso destino.

A porta abre-se e um homem rude e de mau aspecto aparece diante de nós.
- Trouxeram-no? - pergunta ele com maus modos.
- Sim, aqui está.
O pacote é-nos arrancado das mãos e a porta fecha-se num estrondo.
- Uma vez mais fomos alvo da "simpatia" das pessoas desta cidade. - diz Lara sarcasticamente.
- Sim, mas como vês o pacote não era para amante alguma, era para aquele tipo.
- Se calhar era "o" amante.
Começamo-nos a rir, mas de repente os nossos risos são abafados por um enorme estrondo que vem de dentro da casa onde acabámos de entregar o misterioso pacote.
Corremos o mais depressa que podemos de volta ao local, arrombamos a porta e deparamo-nos com um espectáculo horrível, todo o interior estava carbonizado como se tivesse deflagrado um grande incêndio, no chão jaz um corpo carbonizado segurando ainda o pequeno pacote que lhe havíamos entregue minutos antes e nas paredes, marcado a letras vivas cor de sangue encontra-se a seguinte mensagem:

Este é o preço a pagar a quem ousa desafiar-me!

sábado, outubro 21, 2006

O Pacote (1ª Parte)

As horas passam e a nossa busca por uma estalagem que aceite demónios parece estar condenada ao fracasso, é incrível, mas numa cidade onde segundo a lenda todas as raças deveriam ser bem vindas só encontramos é racismo e uma profunda intolerância. Em quase todas as estalagens, bares, bordeis e alguns templos, encontramos afixados nas janelas ou nas portas avisos de interdição para uma determinada raça, infelizmente todos estes avisos, embora sejam diferentes em alguns aspectos, parecem concordar num ponto: "não atendemos demónios!".
- Estou a começar a ficar farta disto! - grita Lara batendo com a porta da estalagem Crescente Vermelho após ter quase esganado o dono depois de a sua entrada ter sido recusada.
- Estás tu e estou eu, mas que cidade tão intolerante.
- Percorremos todas as estalagens e hotéis, não há nenhum que me aceite! Como se atrevem eles a negar a entrada a demónios, afinal de contas, nem todas estas raças juntas chegam aos meus calcanhares.
- Eles lá têm as suas razões e de certa forma até os compreendo, os demónios no passado causaram muita destruição nesta zona e nem todos eles são de fiar.
- Pelos vistos não foi suficiente, devíamos ter arrasado esta cidade!
- Bom, vamos continuar à procura, mas o melhor é usares este manto e tapares as tuas feições.
- Estás a propor que eu me esconda? Que me cubra como uma fugitiva só para arranjar um quarto? Insultas-me, Cav!
- Olha, Lara, põe de parte esse teu orgulho estúpido que já irrita e faz o que te peço, assim não dás muito nas vistas e talvez consigamos o que queremos. Afinal de contas, tu que és uma Assassina, sabes bem que em certas alturas convém estar disfarçado.
A demónio resmunga qualquer coisa, mas lá acaba por aceitar o manto.
- Desculpem. - diz uma figura que aparece subitamente das sombras. - Eu sem querer ouvi a vossa conversa e creio que vos posso ajudar. Conheço um local onde poderão ficar, vai custar-vos um pouco mais caro que o normal e os quartos não serão grande coisa, mas terão comida e calor.
- E porque razão nos queres ajudar quando todos os outros nos fecham as portas? - pergunto desconfiado.
- Porque Briseida foi erigida para ser um porto de abrigo para todas as raças, e como podem ver tornou-se tudo menos isso.
Lara e eu olhamos um para o outro para decidir o que fazer.
- Aceitamos! - dizemos em conjunto.

O homem não se tinha enganado, o local para onde nos levou deixa muito a desejar, mas ao menos temos um quarto e comida à nossa disposição. Após um bom banho e um jantar delicioso decidimos descer até à sala comum, esta está impregnada de odores vários e de um ambiente simplesmente fantástico. Todos parecem divertir-se ao som de um bardo que conta uma história cómica, Lara e eu não nos fazemos esquisitos e sentamo-nos numa das mesas e juntamo-nos à diversão.
- Desculpem incomodar-vos. - diz uma voz momentos depois. - Mas vocês parecem ser aventureiros com alguma experiência, será que estariam interessados num trabalhinho?
Lara e eu viramo-nos para confrontar a voz, é um homem de meia idade, cabelo azul e olhos roxos, pelas suas roupas parece viver bem e pelo sinete que trás num dos dedos parece ser alguém de poder.
- Depende do teor do trabalho. - responde Lara bebendo um trago de cerveja caseira.
- É simples, preciso apenas que se dirijam à Rua das Amoras e entreguem este pequeno pacote no nº35.
- Se é assim tão simples porque é que não o entrega pessoalmente?
- Sou um homem de posses e detenho algum poder nesta cidade, como vocês já devem ter reparado, e há coisas que uma pessoa como eu deve evitar fazer pessoalmente para não criar conversas e boatos indesejáveis. - o homem tira de uma das mangas uma pequena bolsa. - Aqui estão 30 moedas de ouro, penso que é o suficiente para uma tarefa tão simples.
- Está bem! - diz Lara pegando na bolsinha e sentindo-lhe o peso. - E para quando é a entrega?
- Para esta noite. - diz o homem aliviado.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Briseida

Após longos dias de viagem chegamos finalmente à bela cidade de Briseida. A cidade é basicamente uma ilha enorme, muito bem fortificada e criada de modo a garantir aos seus habitantes uma defesa inexpugnável. Existem apenas dois pontos de entrada e/ou saída da cidade, o primeiro é através da entrada a Norte, cujos viandantes terão que atravessar a Ponte de Cristal, a única entrada via terrestre, o segundo é através do Porto das Nereidas no Sul, onde navios de todos os cantos de Gaia atracam diariamente trazendo consigo viajantes e mercadorias mirabolantes.
Por ironia, ou talvez não, Briseida pode ser considerada como uma cidade-estado, como aquelas da Grécia Antiga, possui um exército muito bem armado e disciplinado e uma marinha forte que controla os mares em redor. De acordo com a lenda, todas as criaturas são bem vindas, tanto as terrestres como as aquáticas ou qualquer outro tipo, pois sobre toda a cidade paira uma magia muito forte que permite a sobrevivência de todo o tipo de espécies.
Mesmo no centro da cidade encontra-se uma estátua de pedra muito bem conservada, a estátua representa Aquileia emergindo do mar com o seu amor, já sem vida, nos braços. A imagem daquele momento tão dramático está tão bem reproduzida que por vezes muitos observadores afirmam a pés juntos que lágrimas de dor rolam do rosto de pedra daquela jovem mulher. Verdade ou não, isso não se sabe, talvez a fé em demasia faça ver coisas que não existam, mas muitos acreditam que quando Aquileia chora é sinal de grandes mudanças na cidade...

Após atravessar a Ponte de Cristal, Lara e eu dirigimo-nos para a estalagem mais próxima, estamos fartos de dormir sob as estrelas e depois de Unyard decidimos nunca mais arriscar a parar em aldeias isoladas. Entramos numa que parece ser boa e acessível, O Tritão de Ouro, o seu aspecto exterior chama a atenção e o bafo quente que vem de dentro recheado de um aroma divinal, convencem-nos de imediato. Assim que entramos a música e as conversas animadas cessam por completo e todos os olhares convergem para nós.
- Cav, trata do pagamento que eu vou já para o quarto, preciso de um banho, estou imunda. - diz Lara indiferente aos espectadores e tomando a direcção das escadas.
- Lamento, mas estamos cheios! - diz o estalajadeiro imediatamente, bloqueando o acesso aos quartos.
- Está a brincar, a estalagem é grande e pelo que me parece só tem pelo menos meia dúzia de hóspedes. - digo.
- Pois... Mas está a ver, é que...
- É que nós não queremos essa laia na nossa cidade! - diz um dos hóspedes levantando-se e cuspindo para o chão enquanto fita desprezivelmente a demónio.
- Laia!? LAIA!? Ouve lá, ó amostra de criatura, quem és tu para me falares dessa maneira!? - rosna Lara furiosa.
- Eu sou um cidadão de Briseida e não quero ter de aguentar o cheiro de demónios nojentos nos locais que frequento.
Lara fica vermelha de cólera, seus olhos dourados parecem libertar chispas de raiva.
- Como te atreves a falar-me dessa maneira, é melhor que retires o que acabaste de dizer ou daqui a poucos minutos irás é aguentar a longa fila de espera no Mundo dos Mortos.
Dito isto mais quatro individuos se levantam preparados para auxiliar o seu amigo em caso de luta. O estalajadeiro desaparece na direcção das cozinhas e pouco tempo depois reaparece com um facalhão na mão.
- Se eu fosse a ti pensava duas vezes antes de avançar mais um passo. - digo-lhe desembainhando a espada e colocando a lâmina bem perto do seu pescoço gordo.
O homem recua e foge de volta para as cozinhas.
- Metes-me nojo, como podes defender uma coisa destas. - diz o hóspede fitando-me com desdém.
- Para já, a coisa tem nome, chama-se Lara, e depois, confio mais nela do que em qualquer humano deste Mundo.
- Mas...
- Caluda! O teu problema é comigo, por isso diriges-te só a mim, entendido? - diz a demónio sacando um pequeno punhal da bota.
O hóspede sorri desdenhosamente confiante nos seus quatro companheiros, mas antes de ter tempo de dizer alguma coisa já o punhal de Lara voa pelos ares indo cravar-se a poucos milimetros dos seus genitais. O homem fica pálido como cal e o som de gases a serem expelidos faz-se ouvir ruidosamente no salão.
- Como eu pensava, não passas de um cobardolas que nem sequer sabe controlar os seus intestinos. - diz Lara sorrindo desdenhosamente. - Dá-te por muito feliz por eu hoje estar demasiado cansada, ou obrigava-te a comer aquilo que acabaste de expelir. Ah, podes ficar com o punhal, é um presente meu. - e rindo a bandeiras despregadas vira-lhe as costas e sai calmamente da estalagem.
- Só mais uma coisa - digo tapando o nariz. - queixavas-te do cheiro dela, mas olha que o teu é bem pior...

- Estás bem? - pergunto assim que abandono a estalagem.
- Estou exausta e sem paciência alguma para estas criaturinhas que pensam que são gente só porque se governam a si mesmos. Preciso de um quarto para dormir e para tomar um bom banho! - suspira Lara.
- O que não falta por aí são estalagens, tenho a certeza que encontraremos uma que aceite demónios.
- Espero bem, senão Briseida vai tremer ante a minha fúria. - diz ela sorrindo e piscando-me o olho.

domingo, outubro 15, 2006

Aquileia e Éwon (3ª Parte)

"A feiticeira da ilha de Lum era uma bela mulher, aparentava ter apenas 26/27 anos, a sua pele era macia e estava impregnada num adocicado aroma que deixava qualquer homem, ou mulher, loucos de paixão e desejo, os seus cabelos negros com vários rasgos de azul caíam pelas suas costas dando-lhe um aspecto místico, os seus olhos verdes como uma esmeralda eram simplesmente irresistíveis mas escondiam na sua íris uma alma perversa, fria, calculista e desprovida de qualquer sentimento. Era uma mulher poderosa que passava a maior parte dos seus dias criando novos feitiços e poções, lançando encantamentos e maldições e traçando e elaborando planos para aumentar a sua esfera de influência.
Ninguém sabe quais eram os seus planos para Éwon, mas todos puderam constatar a sua raiva e a sua fúria no dia a seguir à sua fuga com Aquileia. Um grito enorme varreu a aldeia e pouco depois seguiu-se uma gigantesca onda que a engoliu, destruindo-a por completo e matando todos os seus habitantes. A partir daquele momento a feiticeira jurou vingança e transformou Aquileia em sua inimiga mortal.

Os anos passaram e tanto Éwon como Aquileia viviam imersos numa felicidade sem limites desconhecendo o destino da aldeia e da inimiga que haviam adquirido. Éwon mudara um pouco, tornara-se mais maduro e deixara crescer a barba, no seu ombro direito encontrava-se agora uma tatuagem de uma mulher cavalgando um golfinho e no seu peito uma profunda cicatriz marcava-lhe a pele dourada. Aquileia, essa, em nada mudara, continuava bela como sempre, talvez até ainda mais encantadora, apenas tinha olhos para o seu amado e em especial para aquela tatuagem e cicatriz.
- O vento do Norte traz-me notícias de mudanças, meu amor. - diz Aquileia subitamente.
- Como assim? - pergunta Éwon abraçando com mais força a sua mulher.
- Não sei, é um pressentimento que tenho, algo vai acontecer...
- Algo de bom, espero eu.
- Não, sinto um gelo nos meus ossos, não é bom o que está para vir.
Éwon olha preocupado para Aquileia e beija a sua testa.
- Seja o que for enfrentá-lo-emos juntos, como sempre o fizemos.
- Eu sei, meu amor, eu sei... - diz ela sorrindo e enroscando-se ainda mais nos braços fortes dos seu amado.

O pressentimento de Aquileia não podia estar mais correcto, poucos dias após aquela conversa uma temível tempestade abate-se sobre eles. Raios e trovões tomam conta dos céus negros, ventos fortíssimos arrancam os mastros e rasgam as velas e ondas enormes engolem o navio levando tudo à sua passagem. Aquileia e Éwon tentam combater a fúria da tempestade, mas os seus esforços são em vão, por mais que tentem o navio parece estar a ser conduzido pelos caprichos do mar. Subitamente dois raios atingem o barco, um cai sobre um dos mastros partidos e o outro sobre uma das velas rasgadas, originando um terrível incêndio. Éwon olha para Aquileia sem saber o que fazer, esta apenas sorri e dá a mão ao seu amado dizendo-lhe, «Segue-me», ele não hesita e sem pensar duas vezes e sem largar a mão dela atiram-se para as águas furiosas do oceano.
Debaixo de água tudo é calmo, o barulho da tempestade cessa e as ondas enormes deixam de espalhar o seu terror, ao seu lado sempre sorridente está Aquileia que nem por um segundo lhe larga a mão, de tempos a tempos ela aproxima-se dele e beija-o dando-lhe o ar que ele tanto necessita para sobreviver neste mundo estranho. Por momentos tudo parece bem, tudo parece tranquilo e seguro, mas de repente algo acontece, uma força inexplicável prende-lhe o calcanhar e começa a puxá-lo para baixo, nervoso Éwon tenta escapar, mas a força é demasiado poderosa. Aquileia tenta ajudá-lo, mas os seus esforços são em vão, o que prende o seu amado não pode ser destruído, é uma magia demasiado poderosa para ela, tão poderosa que começa a puxá-la para longe, Aquileia tenta resistir, tenta manter-se presa à mão do seu amor com todas as forças do seu corpo, mas mesmo sendo filha de Aquiles, mesmo sendo bisneta de um titã, as forças falham-lhe e é levada para longe. Apenas se pode imaginar a dor que ambos sentiram naquele momento decisivo em que as suas peles deixaram de se tocar e ambos se separaram para sempre."

Calo-me subitamente lembrando-me do momento em que Eleanora morria nos meus braços e eu nada podia fazer.

"Assim que se sentiu livre daquela força misteriosa, Aquileia nadou a toda a velocidade para junto do seu amor, mas já era tarde, Éwon estava morto. Desesperada a jovem pegou no corpo do seu amado e transportou-o de volta à superfície, para sua surpresa descobriu que se encontrava precisamento no mesmo local onde anos antes o tinha visto pela primeira vez. Aquileia tentou de tudo para resgatar o seu amor das garras da morte, mas de nada lhe valeu, Éwon partira para sempre e não havia nada a fazer. As lágrimas jorravam dos seus olhos como um rio imparável, as suas mãos trémulas acariciavam o corpo imóvel do seu amado e os seus lábios beijavam a sua pele salgada e a sua boca que outrora os recebeu com tanto amor e carinho.
- Éwon, Éwon, que irei eu agora fazer sem ti? Como poderei continuar a viver sem o teu sorriso, sem o teu olhar confiante e sem a tua voz maravilhosa, como irei eu aguentar sem tornar a sentir o doce aroma da tua pele e o teu abraço forte nas noites sem luar? - Aquileia pousa a sua cabeça no peito dourado do seu amado. - Jurámos um ao outro que enfrentaríamos tudo juntos, não foi? Então o que faço eu aqui? Como posso eu deixar-te caminhar sozinho no mundo dos mortos? - sem pensar duas vezes, a jovem desembainha o pequeno punhal q se encontra no cinto do seu amado e crava-o directamente no coração.
No alto da sua torre a feiticeira apenas sorri ante o final destes dois desafortunados amantes.

Os Deuses assistiram a tudo, Vénus abençoou aquela praia e Nereu, bisavô de Aquileia ergueu em sua honra uma cidade encantada, uma cidade onde criaturas marinhas e criaturas terrestres pudessem conviver juntas. Essa cidade recebeu o nome de Briseida, pois era este o nome da filha que iria nascer do amor entre Aquileia e Éwon."

- E o que aconteceu à feiticeira? - pergunta Lara.
- Ninguém sabe, alguns dizem que os Deuses a castigaram, outros dizem que ainda se encontra viva perpetuando os seus planos maquiavélicos.
- Temos de descobrir, gostava de a conhecer.
- Ai sim? E porquê, posso saber?
- Gosto de desafios, meu querido, e ela parece-me ser um belo desafio. - Lara sorri e fita-me com os seus olhos dourados. - Farias o mesmo por mim?
- Fazer o quê? - pergunto-lhe confuso.
- Se eu morresse irias aos Infernos resgatar-me como fizeste com a Ela?
- Isso não vai acontecer, minha demónio, eu nunca te deixaria morrer. - digo sorrindo.
- Não me respondeste, Cav.
- Iria sim, Lara, sem hesitar.
A demónio sorri maliciosamente, mas sinto um estranho brilho no seu olhar que me deixa a pensar...

sábado, outubro 14, 2006

Aquileia e Éwon (2ª Parte)

"Tanto Aquileia como Éwon estavam felizes, ambos haviam encontrado aquilo que muito poucos encontram, um amor verdadeiro, cada hora, cada minuto, cada segundo que passavam sem estar perto um do outro era uma tortura sem fim, uma dor que não tinha explicação. Éwon descuidava-se nos seus deveres, muitas vezes encontravam-no a olhar para o vazio ou sorrindo para as ondas, ninguém percebia o porquê deste seu comportamento e a pouco e pouco começavam a desconfiar se o rapaz não fora alvo de um feitiço ou se simplesmente enlouquecera. Assim, os seus pais observando o estranho comportamento do seu filho e vendo-o desaparecer durante largas horas todos os dias decidiram segui-lo, o que viram deixou-os surpreendidos. Ali sobre o extenso areal dourado encontrava-se Éwon, mas este não estava sozinho, ao seu lado estava Aquileia, nua como sempre e usando na cabeça uma coroa de flores feita pelo seu amado. Ambos trocavam beijos e palavras de amor eterno, ambos sorriam um para o outro e por vezes assim ficavam, sem dizer uma só palavra, comunicando apenas com o olhar e com o desejo das suas mãos. No final, e após um longo e demorado beijo, ambos se separam, Aquileia regressa ao mar e Éwon prepara-se uma vez mais para ir para casa, nos seus olhos estava estampada a angústia e o sofrimento da separação, mal sabia ele aquilo que o esperava.

- Não vais voltar àquele sítio, meu rapaz! - Gritava o pai furioso.
- Mas porquê, o que fiz eu de mal? - Éwon tentava a todo o custo perceber o que se passava, sentia-se como se lhe tivessem cravado um punhal no peito e só de pensar que podia nunca mais ver Aquileia empalidecia mortalmente.
- Ainda perguntas? Foste enfeitiçado por aquela coisa, por aquela criatura em forma de mulher que te vai levar para a perdição.
- Como podem dizer uma coisa dessas, a Aquileia é uma rapariga tão meiga, tão doce, ela nunca me faria mal, estamos apaixonados.
- Não voltas para lá e acabou-se, meu menino! Amanhã vamos levar-te à feiticeira que vive na ilha de Lum e ela levantará esse feitiço de cima de ti.
- Mas... - Éwon cala-se, sabe que os seus pais já estão decididos e não há nada a fazer, apenas tem duas hipóteses, ou foge, ou nunca mais volta a ver Aquileia.

O coração fala sempre mais alto e Éwon nunca conseguiria viver sem ter Aquileia do seu lado, por isso pela calada da noite faz a sua trouxa e foge para a enseada. Ali encontra a sua amada sentada numa pedra observando a Lua e esperando ansiosamente pelo nascer do dia para uma vez mais encontrar o seu amor.
- Aquileia! - grita Éwon ao vê-la. - Meu amor, estás aqui!
A rapariga vira-se surpreendida e um sorriso com um misto de preocupação e de alegria sem fim desenha-se nos seus lábios.
- O que fazes aqui a estas horas, está tudo bem? - Pergunta ela atirando-se nos seus braços.
- Não, não está, meu amor, os meus pais seguiram-me ontem e pensam que tu me enfeitiçaste e me queres fazer mal, querem separar-nos para sempre.
- Eu nunca te faria mal, eu amo-te mais que a minha própria vida. Queres que fale com eles?
- Não vai valer a pena, eles são casmurros, se te apanham ainda são capazes de te matar. Eu não quero que isso aconteça, quero-te para sempre, meu amor, para sempre. - Ele abraça-a com força ao dizer estas palavras. - Queres fugir comigo?
- Quero sim! - diz ela radiante. - Mas não irás sentir falta da tua cidade, dos teus pais e amigos?
- Aquileia, eu prefiro a morte do que estar separado um segundo sequer de ti.

A jovem convoca dois cavalos marinhos e juntos partem para bem longe iniciando assim as suas aventuras. Percorrem toda a Gaia conhecendo gente nova, fazendo inúmeras descobertas, enfrentando criaturas desconhecidas e dando origem a uma lenda. Infelizmente ambos desconheciam o que os esperava, a feiticeira da ilha de Lum, a tal a que os pais de Éwon queriam levar, tinha planeado um final bem diferente para este romance, pois afinal de contas Éwon tinha-lhe sido prometido em casamento mesmo antes de nascer como paga por ter curado a infertilidade dos seus pais..."

- E depois? - Pergunta Lara fitando-me com os seus olhos dourados completamente perdida na história.
- Amanhã, amanhã conto-te o final. - digo sorrindo.
- Mas isso foi o que disseste ontem! Vá, conta lá o final, adoro estas tuas histórias se bem que tenham pouco sangue e sexo, mas mesmo assim estão bem contadas...
- E depois eu é que sou pervertido, não é?
A demónio sorri e atira-se para cima de mim.
- Claro que és, queres ver a prova? - diz sorrindo e começando a desapertar-me o cinto.

terça-feira, outubro 10, 2006

Aquileia e Éwon (1ª Parte)

"Reza a lenda que do amor entre Aquiles e Briseida nasceu uma bela rapariga de nome Aquileia, a sua beleza e o seu espírito guerreiro tornaram-se numa lenda e todos na Grécia Antiga desejavam desposar esta jovem provocante e irreverente. Infelizmente a sua beleza que cativava tanto Homens como Deuses criou-lhe inimigas inesperadas e poderosas, Afrodite que se sentia repudiada pelo seu amante, Ares, e até pelo seu marido, Hefesto, resolveu lançar sobre a pobre jovem toda a sua fúria e ciúme. Assim, num dia de calor enquanto Aquileia nadava nas águas calmas de um rio perto da sua casa, Afrodite prepara-se para lançar sobre ela uma terrível maldição, mas Hera ao aperceber-se do triste destino que esperava a neta da sua querida amiga Tétis, a nereida, decide intervir e envia-a para Gaia.
Talvez Aquileia tenha sido a primeira humana a pisar o solo de Gaia, mas devido à sua ascendência divina, à sua beleza sem igual e aos seus poderes marinhos, a maioria das pessoas considerou-a uma semi-deusa ou até mesmo uma nova Deusa. Ninguém lhe ficava indiferente, era do estilo de pessoa que ou se adora sem limites ou se detesta com todas as forças do nosso ser.

Uns anos após ter chegado a Gaia, Aquileia abandonou quase por completo a terra firme, passava a maior parte dos dias dentro de água nadando livremente e conversando alegremente com as criaturas marinhas. Um dia estava ela sentada num extenso areal completamente nua e penteando os seus longos cabelos castanhos e enfeitando-os com fios de pérolas quando subitamente aparece num carreiro há muito abandonado um jovem rapaz. Aquileia envergonhada atira-se imediatamente para a água, mas talvez por mera curiosidade não conseguiu partir e ficou ali escondida, atrás de uma rocha observando em segredo o jovem.
O rapaz de nome Éwon era um simples marinheiro que desde criança fugia para aquela enseada secreta com o intuito de passar algum tempo a sós e fazer aquilo que mais gostava, cantar. Mas Aquileia ainda não se tinha apercebido da voz do rapaz, os seus olhos estavam presos no seu rosto doce e firme e no seu tronco nú bem esculpido. Pela primeira vez em toda a sua vida a jovem sentiu-se erubescer, o seu coração disparou e da sua boca saiu um tímido "uau".
Éwon era de facto um rapaz muito belo, a sua farta cabeleira loira cobria os seus olhos doces e perspicazes de uma forma quase indomável, a sua pele dourada pelo Sol brilhava de saúde e sensualidade e os seus músculos e peitorais firmes e bem delineados davam-lhe um ar quase divino. Sem saber que estava a ser observado, Éwon sentou-se na areia e começa a cantar, a sua voz melodiosa funciona como ingrediente final na paixão que começava a nascer dentro do peito de Aquileia, durante horas ela ali fica, observando-o e ouvindo as suas músicas, rindo e chorando conforme o teor da letra. O dia começa a entardecer e sem que ela se dê conta já as estrelas brilham no céu e a Lua dá o ar da sua graça, finalmente as melodias acabam e Éwon regressa acasa sem nunca ter percebido que estava a ser vigiado.
Nos dias seguintes, Aquileia regressa à enseada procurando e esperando pacientemente por aquele jovem, mas ele não aparece, durante 6 dias e 6 noites ela o espera, mas nem sinal dele, até que por fim, no sétimo dia ele aparece uma vez mais vindo do carreiro abandonado, senta-se precisamente no mesmo local e volta a cantar.

- Que belo rapaz! - diz ela suspirando envolvida naquela música tão acolhedora e quente sem se aperceber que falara em alta voz.
Éwon ouve-a e pára imediatamente de cantar, levanta-se num salto e olha em todas as direcções perguntando naquela voz doce e sensual:
- Quem está aí?
Aquileia acorda abruptamente daquele sonho mágico e apercebe-se do que fez, o seu coração dispara e pela primeira vez na sua vida não sabe o que fazer ou o que dizer.
- Quem está aí? - pergunta de novo Éwon. - Eu ouvi-te, é melhor mostrares-te!
Coberta de vergonha Aquileia emerge das águas nua e extremamente embaraçada.
- Fui eu quem falei, por favor perdoa-me, mas a tua voz é tão bela que eu não pude deixar de me levar por ela.
Éwon esperava tudo menos aquela rapariga tão bela que acabava de sair das águas, o seu coração dispara ao ver o seu olhar e as suas formas sensuais e naquele momento recebe a fatal seta do Cupido no seu coração. Pode parecer incrível, mas ambos se apaixonaram um pelo outro no preciso momento em que se viram e embora nunca se tenham visto parecia que se conheciam à séculos. Éwon balbucia algo sem sentido, sorrindo e coçando o seu cabelo, Aquileia fixa o seu olhar num pedaço de madeira que jaz na areia e mordisca o seu lábio inferior. Sem que ambos se apercebam, depressa se encontram bem pertos um do outro, tão perto que até sentem a respiração pesada um do outro, mas por vergonha ou medo as coisas terminam por aqui e ambos correm como dois miúdos de volta para o seu mundo..."

Deito-me sobre o meu saco cama e fito as estrelas.
- Ai, Cav, não páres agora, continua. - diz Lara beliscando-me o ombro.

"Embora tenham fugido a este primeiro encontro, a verdade é que a curiosidade e a atracção tomou conta deles e no dia seguinte lá estavam os dois de novo naquele areal maravilhoso. Desta vez nenhum deles fugiu, embora nervosos, ambos fecharam os olhos e trocaram o seu primeiro beijo, um beijo cheio de ternura e de descoberta, aquele que fica na nossa memória até ao resto dos nossos dias por nos sentirmos tão parvos na altura em que o demos. Esse seria o primeiro de muitos e o início de uma grande e bela história de amor."

- Amanhã conto-te o final da história da fundação de Briseida, mas agora estou muito cansado e quero é dormir. - digo beijando os lábios da demónio.
- Humanos, sempre cansados... Mas conta-me, essa enseada ainda existe?
- Sim, tomou o nome de Enseada dos Amantes.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Rescaldo

Deixo-me ficar sentado numa pedra observando a demónio que mergulha despreocupadamente nas águas convidativas do lago. Contemplo os seus movimentos, as suas formas extremamente sedutoras e o seu sorriso de satisfação por saber que está a ser vista. Sinto uma vontade enorme de me juntar a ela, de beijar os seus lábios doces e de a possuir ali mesmo naquele lago, mas as memórias do que aconteceu ainda há pouco no vale voltam a assolar-me e esse desejo desaparece.
- Porque não te juntaste a mim, a água estava óptima. - diz Lara sorrindo minutos depois ao sair do lago.
- Precisamos de falar. - respondo.
- Diz. - a demónio senta-se nua ao meu lado e coloca o seu braço em volta do meu pescoço enquanto me mordisca a orelha.
- Como foste capaz de fazer aquilo? - pergunto indiferente aos seus avanços e carícias.
A demónio pára o que está a fazer e fita-me intensamente com os seus olhos dourados.
- Ela ousou tocar-me, ousou tentar transformar-me numa daquelas aberrações, ela mereceu totalmente aquilo que lhe fiz, mereceu cada grito que expeliu daquele corpo moribundo e decadente. No meu ponto de vista até acho que fui demasiado branda.
- Demasiado branda!? Demasiado branda!? Lara, os seus gritos ainda ecoam nos meus ouvidos, fiquei enojado com aquela cena. - respondo exaltado levantando-me num pulo. - Eu não quero que voltes a fazer uma coisa daquelas, ouviste, não quero!
- Não queres!? Não queres!? - grita a demónio irritada levantando-se também. - Mas quem és tu, humano, para me dizeres o que devo ou não fazer? Eu faço o que quero e o que me apetece e não serás tu que me vai dizer como agir.
- Vou sim, Lara, vou sim!
- Cav, eu já não sou a tua serva nem tu o meu senhor, sou livre, por isso vai dar ordens a outra!
- Lara, se queres torturar e fazer o que te apetece, então fá-lo, mas sozinha! Recuso-me a ser parceiro de alguém tão vil e baixo.
- Baixo!? Como te atreves, reles humano, eu sou uma demónio de pu...
- Eu sei bem o que tu és, Lara, já estás farta de mo dizer. - grito extremamente irritado em plenos pulmões. - Mas eu digo-te uma coisa, pouco me importa o teu sangue ou a tua classe, pouco me importam os teus feitos extraordinários e as tuas habilidades sem par, neste momento olho para ti e sinto nojo, percebes, nojo!
A demónio fita-me surpreendida sem saber o que dizer.
- Eu...
- Não digas nada! Queres fazer o que te apetece, não é? Pois então as nossas aventuras em conjunto terminam aqui, não quero pactuar contigo nestas coisas. - grito tirando a sua espada da bainha e atirando-a para o chão. - Agradeço esta tua oferta, mas já não vou precisar mais dela.
- Estás a ser precipitado e a criar uma tempestade num copo de água, pensa melhor, não é caso para nos separarmos.
- Lara, durante toda a minha vida combati criaturas como aquela em que te tornaste hoje de manhã e não será agora que irei ser companheiro de uma delas. - pego nas minhas coisas e coloco-as no dorso do meu cavalo.
- Espera, em nome da nossa velha amizade.
- É em nome da nossa velha amizade que eu estou a agir desta forma, senão as coisas seriam bem diferentes. - dito isto monto e preparo-me para partir.
- Não vás, eu mudo se for preciso, mas não vás...
Aquelas palavras caiem sobre mim como um balde de água gelada acalmando a minha ira e deixando-me confuso.
- Como?
A demónio não responde limitando-se a olhar para mim.
- Não te estou a perceber, explica-te!
- Eu não quero que vás, não quero que me vejas como um dos montros que combateste no passado, estou disposta a refrear os meus instintos mais animalescos, se for preciso.
- Continuo sem perceber, Lara, estás disposta a mudar por um reles humano?
- Estou disposta a mudar por ti e não por um reles humano.
Desmonto e sorrio para ela.
- Lara, Lara, estarás mesmo apaixonada?
A demónio olha-me de uma maneira tal que por pouco não me arrependo do que disse.
- Como te atreves! Eu não te amo apenas gosto de ti e nada mais, acho-te digno de partilhares a minha companhia e a minha cama, só isso!
- Sentirias a minha falta se porventura tivesse partido?
A demónio morde o lábio e desvia o seu olhar.
- Sim...
- Não digas mais, eu entendi. - digo sorrindo e aproximando-me dela.
- Como assim, percebeste?
- És um poço de contradições, sabias minha diabinha? Será por isso que te adoro tanto? - digo beijando os seus lábios e afagando os seus longos cabelos negros.
- Não sei, meu humano pervertido, mas algo me diz que não é só por isso. - diz ela sorrindo e tirando a minha camisa.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Unyard (4ª Parte)

Entro na câmara ansiando encontrar uma vez mais o espírito do feiticeiro, mas este não está lá, talvez tenha sido mesmo uma alucinação. Procuramos durante horas por uma saída ou por algo que nos possa ajudar, mas não encontramos nada de útil, apenas jóias e ouro, muito ouro, algumas armas encantadas mas que estão protegidas contra o roubo e muitos pergaminhos e livros repletos de feitiços.
- Caramba! - digo finalmente. - A Lilian iria adorar isto.
- Iria sim se ainda fosse uma feiticeira, mas ela agora é um anjo, já não faz magia. - diz Lara de costas para mim admirando as armas encantadas.
- A Lilian um anjo, hm, como gostaria de a ter visto nessa forma. - uma nuvem de pó grosso liberta-se quando fecho um livro de capa azul. - Bom, sem uma feiticeira estes livros e pergaminhos não nos irão ser úteis.
- Não há nada aqui que nos possa ser útil. - rosna Lara exasperada. - Armas encantadas que não podemos usar, magias que não sabemos controlar e ouro que nunca iremos poder gastar. Estamos aqui presos, Cav, presos!
- Calma, Lara, calma, ainda não vimos o sarcófago.
- Esse também não deve ter nada, apenas a gema que entregámos à Ursula.
- Não custa nada tentar, aliás, eu não te contei, mas quando resgatámos a gema eu vi-o.
- Viste o quê? O espírito do velho? - pergunta a demónio incrédula.
- Sim, por momentos vi-o, mas depois desapareceu. Estava a querer dizer-me algo, mas eu não percebi.
- E só agora é que mo dizes? Devias ter-me dito isso logo no início, Cav, não teríamos perdido este tempo todo.
- Como assim? Não me digas que consegues invocar e conversar com espíritos. - digo sorrindo.
- Hm, hm. - diz ela anuindo com a cabeça e aproximando-se do cadáver.
- Mas tu és um demónio e não um anjo, pensei que só os anjos tinham essa capacidade.
- Cav, os anjos e os demónios são feitos da mesma matéria, são como dois lados opostos da mesma moeda. Nós demónios fazemos o queremos, vivemos a vida de uma maneira egoísta, digamos assim, enquanto eles vivem para zelar pelo bem estar de todos, ou assim o dizem, pois no meu entender são uma cambada de orgulhosos que no fundo, no fundo querem é ser venerados. Basicamente temos os mesmos poderes, por isso é que as nossas guerras acabam sempre empatadas.
- Sim...
- Enfim, confia em mim humano, se eu te digo que sei falar com os mortos é porque o sei. Mais tarde conversaremos melhor, falar-te-ei de certas coisas sobre eles que vocês não sabem, vais ficar surpreendido e no final verás que eles não são assim tão bonzinhos como dizem ser. - a demónio pisca-me o olho e coloca a sua mão sobre o crâneo o feiticeiro começando a murmurar palavras incompreensíveis.

A sala fica gelada e um arrepio de frio percorre a minha espinha, a iluminação da câmara parece baixar consideravelmente e a sensação de um milhão de olhos a observarem-me de todos os lados invade-me. No canto da sala uma sombra começa a mexer-se, a princípio parece ser provocada pelo suave tremelicar da tocha, mas depois ganha forma e move-se na direcção da demónio.
- Quem me ousa acordar do meu sono eterno? - pergunta com uma voz sobrenatural.
A demónio morde o lábio e olha para mim antes de começar a falar.
- Uma demónio que precisa de ajuda. - diz ela num tom de voz quase imperceptível.
- Ajuda!? Um demónio? E porque haveria eu de ajudar uma criatura tão desprezível?
Noto um brilho de raiva no olhar de Lara que depressa desaparece.
- Porque os mortos-vivos que estavam presos neste vale foram libertados.
- Como? E quem foi que os libertou? Isto nunca deveria ter acontecido, nunca! Aquela bruxa não pode ficar à solta, tem de ser detida!
- Nós sabemos disso, mas precisamos de saber como é que a "matamos", se é que se pode matar algo que já está morto?
- Nós? Quem está aí contigo?
- Um humano. - diz Lara apontando na minha direcção.
Sem saber o que fazer, esboço um sorriso e cumprimento-o.
- E-eu conheço-te, t-tu devias estar morto. - diz ele numa voz trémula.
Lara e eu olhamos um para o outro.
- Mas garanto-lhe que estou bem vivo. Precisamos da sua ajuda, a gema branca foi destruída e agora não sabemos como deter esta ameaça.
- A gema... Sim, sim, temos de a impedir. Mas o preço vai ser alto de mais para mim.
- Como assim? - pergunta Lara.
A voz do velho feiticeiro torna-se fraca e cansada como se todo o peso do mundo fizesse pressão sobre ela.
- Terão de usar o diamante preto, uma jóia muito poderosa, mas que irá destruir todo este vale encantador. Quando digo tudo, digo mesmo tudo, vivos, mortos e almas.
- A Ursula e os seus esbirros afastaram-se quando o viram, parece que pressentiam o seu poder.
- Sim, ela sabe o que a pedra faz, mas desconhecia a sua presença. Aquela rameira, aquela traidora roubou-me tudo o que eu tinha de mais sagrado, por isso é que a amaldiçoei, a ela e a todos os seus seguidores. Infelizmente cresci nesta zona, este vale foi a minha casa durante longos anos, anos muito felizes, e por causa disso não fui capaz de o destruir. Mas esse era o meu destino, devia tê-lo cumprido, só os Deuses sabem quantos vivos foram corrompidos por ela...
- Como é que activamos o seu poder? - pergunta Lara pouco interessada na história do feiticeira.
- Hã? Paciência, minha filha, paciência. Eu sei que a minha história te aborrece, mas é tudo o que me resta.
- Não devemos ficar agarrados ao mundo dos vivos, feiticeiro, devemos aceitar a morte e partir.
- É fácil para ti dizê-lo, demónio, não conheces a morte nem a dor da separação de pessoas que amamos.
- Dizes tu, feiticeiro, dizes tu...
Olho para Lara intrigado, o que quererá ela dizer com aquilo?
- Mas tens razão, tudo não passa agora de memórias vãs, memórias de um espírito que já nem devia existir. Para activar a pedra terás de a colocar na mão de uma estatueta de ouro que se encontra na villa. A Ursula sempre desconheceu o propósito dessa estatueta e ainda bem, pois se soubesse o que ela faz muito certamente que já a tinha destruído.
- E como é que reconheço a estatueta?
- Simples, é uma réplica da Ursula. Irónico não acham?
- Muito. - digo sorrindo.
- E como é que saímos daqui, a entrada principal está guardada.
- Por debaixo do sarcófago existe uma passagem que irá dar directamente à villa, uma vez lá dentro procurem pela estatueta, que, tendo em conta o narcisismo da Ursula, deve estar no seu quarto.
- Obrigado. - diz Lara sorrindo.
- Uma vez activada a pedra esta ficará branca e terão apenas quinze minutos para fugir da aldeia, se não conseguirem serão totalmente destruídos.
O espírito desaparece momentos depois e seguindo as suas instruções afastamos o sarcófago e deparamo-nos com uma nova saída.

A villa parece estar desabitada, todos os cidadãos da cidade encontram-se à porta do templo esperando por nós. Não perdemos muito tempo a encontrar o quarto, este está logo ao lado daquele por onde entrámos, infelizmente, embora os seus esbirros estejam à nossa espera junto do templo, Ursula encontra-se no quarto admirando-se ao espelho.
- Ali está a estatueta. - sussurra Lara.
- Sim, mas como é que vamos passar pela feiticeira?
- Não te preocupes, eu trato disso, aquela cabra vai arrepender-se do dia em que ousou tocar-me.
Lara e eu entramos no quarto sem cerimónia, Ursula ao ver-nos lança um grito de espanto.
- Vocês? Mas como é que passaram pelos meus servos?
- Isso é uma longa história, mas se eu fosse a ti preocupava-me com o meu bem estar. - diz Lara desembainhando a espada.
Ursula sorri.
- És uma idiota se pensas que podes ferir-me com essa espada.
- Com esta espada? Não, só com ela não consigo, mas com a ajuda disto sim, aliás, com isto até te posso destruir. - a demónio sorri ao tirar de entre o seios o diamante negro.
A feiticeira solta um grito de terror ao vê-lo e recua tapando os olhos.
- Parece que o teu sorriso se desvaneceu, tu sabes bem que isto te pode matar, mas mais importante torna-te sensível aos meus golpes.
Ursula murmura um feitiço mas Lara desfere-lhe um golpe no braço descarnado quebrando a sua concentração e fazendo-a urrar de dor.
- Dói, não dói? - o olhar dourado de Lara parece deliciar-se com cada golpe e com cada grito de dor que é expelido do corpo moribundo da feiticeira. - Como te atreveste a tocar-me e a tentar matar-me? - grita a demónio deleitando-se com a tortura que inflingia na pobre mulher.
- Pára, pára, por favor pára. - implorava Ursula chorando copiosamente e encolhendo-se a um canto com as mãos protegendo o rosto, numa tentativa infrutífera de fazer parar a dor.
- Lara! - grito revoltado colocando a mão por cima do seu ombro. - Pára com isso, viemos aqui para a destruir, não para a torturar.
A demónio olha para mim, nos seus olhos dourados está estampado um brilho louco e nos seus lábios um sorriso de puro prazer.
- Ela merece, Cav, ela merece. - diz ela calmamente.
- Não, ninguém merece ser torturado, ninguém! - grito furioso arrancando-lhe das mãos o diamante.
A demónio não reage, observa-me sorrindo como se a minha fúria ainda a divertisse mais. Assim que coloco a pedra na estatueta esta torna-se branca e uma ligeira vibração faz tremer o candelabro.
- Pronto, agora é melhor fugirmos, não temos muito tempo.
- Antes de irmos há mais uma coisa que eu quero fazer. - diz a demónio olhando novamente para a Ursula. - Não a vamos deixar à solta, vamos acabar com ela.
Lara pega na feiticeira e sussurra-lhe algo ao ouvido, algo que não consigo ouvir mas que é dito com um sorriso nos lábios. Ursula geme e treme, mas antes que possa fazer algo a demónio aproxima-a da estatueta e encosta o seu rosto ao diamante. A feiticeira solta um grito pavoroso e eu sou obrigado a desviar o olhar enquanto o seu corpo é consumido por chamas brancas. Sorrindo maliciosamente Lara corre dali para fora na direcção da estalagem e dos nossos cavalos, sigo-a e minutos depois estamos fora da aldeia e do vale. Com um brilho intenso tudo é destruído e o vale outrora verde e cheio de vida torna-se agora negro e estéril.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Unyard (3ª Parte)

As gargalhadas gélidas fazem-se ouvir novamente assim que eu e Lara desembainhamos as nossas espadas.
- Vocês são de facto uns autênticos heróis, mesmo sabendo que estão em inferioridade numérica não se dão por vencidos. Louvo a vossa atitude, mas o vosso destino está traçado. - Ursula sorri novamente e com um gesto ordena aos seus esbirros para nos cercarem e prenderem.
Lara e eu tentamos defender-nos mas eles são demasiados e acabamos por ser dominados. Ursula aproxima-se de nós com um sorriso triunfante e diabólico nos lábios - se é que se pode chamar àqueles pedaços de carne decomposta, de lábios -, com um movimento ligeiro coloca as suas mãos esqueléticas sobre as nossas cabeças e começa a murmurar palavras desconhecidas. Lara e eu debatemo-nos desesperadamente mas os nossos pulsos e as nossas pernas estão firmemente presas pelos restantes mortos-vivos que nos cercam. Um arrepio gelado percorre a minha espinha, começo a sentir a minha força a esvair-se, a minha energia vital a ser sugada por aquelas garras descarnadas; olho para a demónio e vejo que também ela está a sentir o mesmo que eu, os seus olhos dourados estão baços e a sua pele prateada está mais pálida do que é costume. Por momentos os nossos olhares cruzam-se e ambos sorrimos um para o outro como se nos estivéssemos a despedir, um sorriso sem malícia, sem desejo e sem segundas intenções, apenas um sorriso puro de amizade entre dois companheiros, amigos e amantes. Lara volta a debater-se num último acto de resistência e no processo a sua bolsa solta-se do seu cinto e cai no chão atirando cá para fora a gargantilha com o diamante negro. Ao vê-lo todos os mortos-vivos soltam um grito de pavor e recuam, a própria Ursula liberta-nos das suas garras medonhas e cambaleia para trás tapando os olhos com o braço.
Lara e eu aproveitamos a oportunidade para reagir, pegamos nas nossas espadas que jazem no chão e na bolsa com o diamante e corremos o mais depressa que podemos para o interior do templo fechando as pesadas portas atrás de nós.

Exaustos, sentamo-nos no chão ofegantes.
- Bolas, isto é que foi sorte. - diz Lara limpando o suor da testa.
- Sim, os Deuses estavam do nosso lado. - respondo tentando sorrir.
- Para a próxima, Cav, confia no meu instinto, eu bem te disse que estes tipos não eram o que pareciam, o meu faro nunca me engana.
- Ai, Lara, está bem, não me batas mais com esse assunto.
- É para ver se entra nessa cabeça dura.
Olhamos um para o outro e começamos a rir.
- Temos de encontrar uma maneira de sair daqui e de deter estes mortos-vivos. - digo momentos depois com uma expressão séria.
- Bom, ao menos sabemos que este diamante os assusta e isso já é bom. - diz Lara contemplando a pedra.
- Foi uma sorte teres roubado isso, se tivesses feito o que eu te tinha dito a esta hora éramos uns autênticos zombies.
- Vês, eu tenho sempre razão, meu querido, sempre. - Lara sorri para mim e beija-me na boca.
- Tu tens é um ego enorme, minha demónio, e uma sorte tremenda. - murmuro afagando-lhe o cabelo e retribuindo o beijo. - Temos de voltar à câmara, certamente que encontraremos algo lá que nos possa ser útil.
- E se encontrarmos o espírito do velho?
- Pedimos-lhe ajuda. - respondo levantando-me. - Depois do que passámos, estou por tudo...

segunda-feira, setembro 25, 2006

Unyard (2ª Parte)

No dia seguinte Ursula guia-nos até ao templo, tanto eu como Lara ficamos um pouco admirados por este se encontrar em tão más condições, geralmente um templo é um dos edifícios mais importantes de uma cidade, vila, ou aldeia, é um local de culto e uma moradia temporária do Deus, ou Deuses, da região. Os seus jardins estão em péssimas condições, repletos de ervas daninhas e de árvores mortas; as colunas jónicas, outrora brancas, encontram-se partidas e negras; as telhas alaranjadas estão quebradas e cobertas de musgo e as colossais portas desta casa de culto estão seladas, intocáveis, e em seu redor podem ler-se uns caracteres estranhos, alguns consumidos pelo tempo, tornando impossível a leitura correcta da mensagem.
- Mandámos selar as portas logo depois do incidente. - começa Ursula como se tivesse lido o nosso pensamento. - Com medo deste espírito inquieto acabámos por evitar este local tão adorado para nós.
- Hm, o que diziam estas inscrições? - pergunta Lara passando os dedos sobre os caracteres firmemente marcados na parede.
- Eu não sei, este templo já aqui se encontrava quando o meu tetra-avô mandou construir a villa. - Ursula olha para mim tentando evitar o olhar de Lara. - Aqui está a chave que irá abrir as portas, segundo a lenda, a força do feiticeiro provinha de uma gema branca, se a destruirem, ou se ma entregarem, tenho a certeza que nos iremos livrar desta maldição. - Ursula sorri sedutoramente para mim e entrega-me a chave. - Serão bem recompensados se conseguirem salvar-nos.

As portas fecham-se atrás de nós, o estado interior do templo está bem pior do que o exterior, estátuas dedicadas a Deuses estão espalhadas pelo chão irremediavelmente quebradas e desfiguradas, nas paredes pouco se reconhece dos ricos frescos que as enfeitavam e por todo o lado estão depositadas camadas e camadas de pó.
- Viste a reacção dela quando lhe perguntei sobre a inscrição? - pergunta Lara virando-se para mim minutos depois de entrarmos. - Ela sabia muito bem o que estava ali escrito.
- Sim, eu reparei, e reparei também que este lugar está abandonado há muito mais do que um ano. Tinhas razão, Lara, há algo que não bate certo nisto tudo.
- Finalmente, Cav, começaste a pensar com o teu cérebro.
- Mais vale tarde que nunca, como se costuma dizer. - digo sorrindo. - Bom, o melhor é continuarmos, mas com cuidado.
Vamos penetrando cada vez mais no interior do templo, não encontramos nada de interesse, a maioria das coisas estão partidas ou simplesmente desfeitas pelo tempo. Passado uma hora sem encontrar nada de relevante, chegamos a uma abertura na rocha, à volta dela encontram-se novamente os caracteres que rodeavam a entrada deste edifício, mas infelizmente também estes se encontram ilegíveis. Após investigar por armadilhas ocultas, Lara dá-me o sinal de que podemos avançar, o que encontramos, deixa-nos sem palavras: uma sala forrada a ouro, repleta dos tesouros mais incríveis que podemos imaginar, no centro, encontra-se um enorme sarcófago de ouro, muito provavelmente a última residência do tal feiticeiro.
- Olha para isto! - diz Lara mergulhando as mãos nos caixotes recheados de moedas e jóias. - Estamos ricos!
- Não estamos aqui para roubar, Lara, estamos aqui para resgatar a tal gema.
- Fala por ti, Cav, eu vou levar tudo o que me apetecer. - diz Lara admirando uns brincos de ouro e prata com esmeraldas incrustadas e uma bela gargantilha com um enorme diamante negro pendurado. - Que tal, achas que me ficam bem?
- Lara, pára com isso e ajuda-me aqui a abrir o sarcófago.
A demónio coloca os seus novos pertences na sua bolsa e juntos empurramos a pesada tampa. Lá dentro está um esqueleto segurando uma gema branca.
- Eureka, encontrámo-la. - digo tirando a gema das garras do esqueleto.
Assim que o faço um vulto negro aparece à nossa frente, os seus olhos estão tristes e os seus lábios movem-se, mas nenhum som se propaga.
- O que é que se passa? - pergunta Lara batendo-me no ombro.
- Não estás a vê-lo?
- A ver o quê? Estou é a ver-te a ti com uma cara de parvo a olhar para o vazio.
- Ali! Não o estás a ver? Está mesmo à nossa frente.
- Cav, estás a começar a preocupar-me, explica-te!
Esfrego os meus olhos e volto a olhar para o local onde se encontra o vulto, mas ele já lá não está, terá sido impressão minha? Talvez fruto da minha imaginação devido àquelas histórias do espírito do velho feiticeiro.
- N-não é nada, Lara, vamos embora!

Ursula e todos os outros habitantes da pequena povoação esperam por nós cá fora, ao verem a gema nas minhas mãos soltam gritos e uivos de alegria.
- Vocês são uns heróis, salvaram-nos. - diz Ursula não tirando os olhos da gema. - Agora por favor dêem-ma, para que a possa destruir e libertar finalmente o vale da maldição.
Lara olha para mim e de certa forma compreendo-a, mas sorrio para ela tentando tranquiliza-la.
- Aqui tem! - digo entregando-lhe a gema.
No preciso momento em que o faço o céu escurece e aquela mão pálida e bela transforma-se rapidamente numa garra esquelética com pedaços de carne agarrada.
- Finalmente! - grita Ursula. - Finalmente estamos livres! - e com uma palavra a gema desfaz-se. À nossa frente já não se encontra uma bela mulher, mas sim um morto vivo cujo olhar esverdeado se deleita com a nossa presença. - Agora vamos tratar de negócios, prometi-vos uma recompensa e tê-la-ão, o que pensam da vida eterna? - Uma gargalhada gélida é expelida do seu corpo sem vida e imitada por todos os outros habitantes, também estes mortos-vivos.
- Vês, Cav, vês? Eu bem te dizia que havia algo de errado aqui! - grita a demónio sacando a espada.

Unyard (1ª Parte)

A pequena povoação de Unyard está situada num belo e fértil vale, é um local pacato com meia dúzia de casas, uma estalagem, um templo e um modesto bordel. Toda a vida da localidade centra-se à volta de uma enorme villa que funciona como uma espécie de câmara municipal e é a residência da dona das terras, a Dama Ursula Justa. Decididos a comprar mantimentos frescos e dormir, nem que seja por uma noite, numa cama macia e confortável, Lara e eu saímos da estrada para Briseida e tomámos o rumo desta povoação.
- Ai, que bom que é voltar a dormir numa estalagem. - digo atirando-me sem cerimónia sobre a cama.
- Sim, também já estava com saudades, mas... - a demónio olha para mim com um semblante carregado.
- ... Mas ainda estás com aquele pressentimento, não é?
- É! Cav, há algo de errado aqui, eu não sei o que é mas consigo senti-lo.
- Isso deve ser cansaço, as pessoas pareceram-me bastante simpáticas, até aquela tal de Ursula.
- Oh sim, essa então foi simpaticíssima, não parava de te lançar olhares e sorrisinhos. Bolas, Cav, será que não te importas de pensar com a cabeça de cima para variar?
Solto uma gargalhada
- Olha quem fala, tu que estás sempre a pensar em perversões a dar-me lições de moral.
Lara lança-me um olhar fulminante carregado de irritação.
- Isto é sério, há algo neste local que me dá arrepios.
- Hm, quem te vai dar arrepios sou eu, minha demónio, mas de prazer. - levanto-me e abraço-a por trás beijando maliciosamente a sua nuca e sussurrando-lhe ao ouvido. - Esquece isso e concentra-te noutra coisa.
A demónio sorri e nada mais diz.

As roupas voam pelo ar enquanto as nossas línguas dançam ao ritmo do desejo, os nossos corpos anseiam um pelo outro de uma forma louca e incontrolável. A demónio atira-me sobre a cama e com um sorriso que só ela consegue fazer começa a lamber e a chupar o meu falo duro. Eu deixo-me levar pelas ondas de prazer que percorrem o meu corpo obrigando-me a soltar espasmos de incontrolável deleite, as minhas mãos afagam e puxam o seu cabelo acompanhando os movimentos ascendentes e descendentes e controlando de certa forma o ritmo e a intensidade.
Subitamente ouve-se um bater na porta.
- Que merda! - diz Lara irritada. - Não podiam ter escolhido uma melhor altura?
- Ignora... - digo olhando para ela completamente rendido.
As pancadas tornam-se mais fortes e insistentes e acabamos por ter de interromper o que começámos.
- Mas o que é que se passa! - grita Lara abrindo a porta furiosa.
Do outro lado encontra-se um rapaz de quinze anos que fica quase sem palavras ao ver uma demónio nua e furiosa à sua frente.
- E-eu, v-venho entregar uma m-mensagem u-urgente. - diz o rapaz gaguejante e mais vermelho que um tomate. - A Senhora U-Ursula precisa de v-vos falar, pede para que v-venham imediatamente a c-casa dela.
Lara bufa de raiva e o rapaz aproveita a deixa para fugir dali para fora.
- Bom, é melhor irmos. - digo começando a vestir-me.
- Ainda não. - diz Lara fechando a porta e sorrindo maliciosamente. - Temos algo para acabar.
- Concordo, acho que o que quer que ela queira de nós poderá esperar mais uns quinze minutos...

Ursula Justa é uma mulher que gosta de conforto, a sua villa é um exemplo disso, recheada com as melhores tapeçarias, quadros, móveis e tudo o mais que uma pessoa abastada possa querer. É uma mulher de 35 anos, muito bela e atraente, os seus olhos azuis reflectem uma personalidade forte e a sua roupa e jóias exibem a sua condição e classe.
Somos recebidos com toda a cortesia, Ursula não poupa a esforços para nos agradar e para nos fazer sentir confortáveis, ao nosso dispor são colocados vários vinhos e iguarias. Ao ver que recusamos delicadamente tudo o que nos oferece expõe imediatamente o assunto.
- Primeiro que tudo - começa ela com uma voz doce e agradável. - quero pedir-vos desculpa por vos ter interrompido, mas o assunto que vos traz aqui é deveras urgente. - faz uma pausa para bebericar um pouco da sua bebida e depois continua. - Esta pequena povoação está em perigo e eu não sei o que fazer, estou desesperada. Há um ano um dos meus empregados encontrou um túmulo muito antigo por debaixo do templo, levado pela cobiça e não lendo as inscrições nas paredes, decidiu abri-lo; pobre coitado, foi a última coisa que fez. Segundo a lenda, um temível feiticeiro foi ali enterrado e agora que foi acordado do seu sono eterno decidiu lançar uma maldição sobre todo o vale. Somos obrigados a ficar aqui, não podemos sair e se o tentarmos morremos. E-eu já não sei o que fazer - diz ela levando as mãos à cara e começando a chorar. -, as nossas colheitas estão a definhar, o nosso gado está a morrer, a caça e o peixe fugiram e os poços estão a secar, se isto continuar acabamos por morrer à fome e à sede. Mandei chamar-vos porque vocês parecem o estilo de pessoas que está habituado a este tipo de coisas, por isso eu peço-vos, não, eu imploro-vos, ajudem-nos!
- Ora aí está porque é que pressentias algo de errado - digo baixinho virando-me para a demónio. -, o vale está amaldiçoado.
- Sim, deve ser isso... - diz ela fitando intensamente a mulher. - Seja como for, devemos investigar.
- Óptimo! Cara Senhora Ursula Justa, não se preocupe que nós vamos ajudá-la.

quinta-feira, setembro 21, 2006

Uma Noite de Lua Cheia

O suave crepitar de uma fogueira e o saboroso aroma de um guisado acabadinho de fazer espalham-se pelo ar fresco da noite. Uma figura solitária mantém-se sentada perto do lume envergando um prático manto de viagem e segurando um prato de guisado quentinho, o seu olhar perde-se no céu estrelado e na enorme Lua cheia como se tivesse sido privado de uma tal visão durante um longo período de tempo.
- É linda, não é? - pergunta uma voz.
A figura vira-se imediatamente deixando cair o prato, instintivamente leva a mão direita à cintura como se procurasse o punho de uma espada, mas essa já lá não se encontra, foi, contra todas as expectativas, quebrada por uma magia muito forte.
- Quem está aí?
Uns olhos dourados emergem subitamente das sombras fitando com um prazer indescritível a figura que agora se coloca de pé.
- Ora, ora, mas será que já não reconheces a minha voz, Cav? - Uma mulher muito bela materializa-se à minha frente, os seus olhos cor de âmbar continuam presos nos meus, os seus lábios negros muito bem delineados exibem um sorriso sedutor mostrando os seus caninos afiados e uma língua marota, dos seus longos e lisos cabelos pretos emergem dois cornos retorcidos e a sua pele prateada parece reagir com a luz do luar dando-lhe um ar sobrenatural. Veste uma armadura de couro preto reforçado com metais, na cintura estão presas duas espadas curtas e nas botas acham-se escondidos dois punhais.
- Lara?
Ela avança para mim e lança-se nos meus braços dando-me um beijo na boca.
- Sentiste saudades minhas, humano? - pergunta ela lançando um olhar esfaimado para o guisado.
- O que estás aqui a fazer? Pensei que te tivesses ido embora para nunca mais voltar.
- E era isso que eu queria fazer, mas depois encontrei a Melissa e o Orfeu e eles disseram-me que agora estavas sozinho, por isso decidi juntar-me a ti. - diz ela piscando-me o olho e servindo-se de um pouco de comida.
- Mas como é que me encontraste, já não estamos ligados um ao outro.
- Que pergunta parva, Cav, sou uma assassina, sei muito bem como encontrar os meus alvos. E devo dizer que vocês humanos sempre foram fáceis de encontrar, basta seguir o vosso cheiro fedorento.
Sorrio para ela, não mudou nada, continua tão "adorável" como sempre.
- Se "cheiro" assim tão mal, então porque é que gostas da minha companhia? - sento-me ao seu lado servindo-me também de um pouco mais de guisado.
Ela limita-se a sorrir, mas não responde.
- Olha lá, - pergunta ela momentos depois. - o que é que aconteceu entre ti e a Ela? Pensei que por esta altura estivessem bem instalados num quarto a matar saudades.
- É uma longa história, depois eu conto-te. - bebo um pouco de água e depois olho para ela. - Porque é que o fizeste?
- Fazer o quê? - pergunta a demónio fitando-me intensamente como se soubesse perfeitamente do que eu estava a falar.
- Tu sabes, não te faças de parva, porque é que tu me salvaste? Não é teu costume teres estes rompantes de altruísmo.
- Eu era a tua serva e tu o meu senhor, fiz apenas a minha obrigação.
A demónio cala-se e percebo pelo seu olhar que não vale a pena insistir.
- Ainda bem que aqui estás, tive saudades tuas.
- Claro que tiveste, humano, serias louco se não sentisses a minha falta.
- Quanta modéstia, quanta modéstia...
- Já sabes o que vais fazer? - pergunta ela colocando o prato de lado e deitando-se na erva observando-me.
- Vou para Briseida, talvez lá arrange algum trabalho.
- Óptimo, vamos tornar-nos uma dupla temível. - diz ela sorrindo. - Ainda agora percebi que ainda não te habituaste à ausência da Elektra, levaste a mão à espada mas ela não estava lá.
- É verdade, sinto-me nú sem ela, mas quando chegarmos à cidade irei comprar uma nova.
- Até lá, podes ficar com uma das minhas. - diz ela pondo-se em pé e tirando uma das suas espadas curtas da cintura.
- Lara, eu não posso aceitar, elas são tuas e sei como as estimas.
- Cav, aceita, eu sei que contigo estará em boas mãos.
- Ai, Lara, salvas-me da morte, corres para te juntar a mim e agora ofereces-me aquilo que mais prezas nesta vida, se não te conhecesse tão bem até diria que estavas apaixonada por mim. - digo piscando-lhe o olho.
- Ah! deliras, só podes. Deves estar com sono, por isso toca a dormir que amanhã partimos cedo.
A demónio volta a deitar-se e prepara-se para dormir, eu imito-a.
- Lara, ainda bem que voltaste. - olho para ela ao dizer estas palavras e apesar de tudo iria jurar que um ligeiro sorriso se desenha nos seus lábios.

quinta-feira, setembro 14, 2006

O Grupo Separa-se

Os primeiros raios de Sol penetram no quarto despertando-me do meu sono inquieto, os lençóis amarrotados e a almofada completamente empapada reflectem o meu estado de espírito durante aquela que considero a pior noite da minha vida. Felizmente a vida também tem coisas boas e não há nada como um bom banho quente para relaxar e colocar as ideias em ordem, deixo-me por isso ficar uma boa meia hora deitado na banheira inalando o vapor de água misturado com o cheirinho de sais de frutos. O meu coração ainda bate depressa quando penso na Ela, por minha vontade deixava tudo e entrava de rompante pelo seu quarto adentro colando os meus lábios aos dela e gritando bem alto o quanto a amava e que lhe perdoaria tudo, mas não posso, não consigo, algo dentro de mim impede-me de o fazer, o meu orgulho quiçá... Deixo-me afundar soltando poderosos suspiros dentro de água.
Momentos depois desço para o salão, a falta da Elektra faz-me sentir nú e incompleto, durante estes anos habituei-me a tê-la sempre ao meu lado e agora, sem ela, é como se tivesse perdido um braço ou outra parte de mim. Encontro Melissa e Orfeu sentados numa mesa ao pé de uma janela, é incrível, ainda ontem isto parecia um campo de batalha com mesas viradas e corpos por todo o lado, e agora é como se o que aconteceu ontem nunca tivesse acontecido, as pesadas mesas de madeira estão bem pregadas ao chão e muito bem tratadas, os candelabros e candeeiros encontram-se bem firmes nos tectos e nas paredes, as janelas e as portas permanecem intactas e o piso de madeira lustroso e reluzente. Sento-me ao lado deles com um sorriso, eles retribuem-no, mas apenas por delicadeza e não por gosto.
- Será que me podiam pôr a par de tudo o que aconteceu desde que defrontámos Gorath no deserto? - Pergunto calmamente enquanto devoro as torradas com manteiga e bebo o leite morno.
Eles olham um para o outro incrédulos.
- Não te lembras? - perguntam em conjunto.
- Não...
- De nada? - pergunta Melissa desconfiada.
- Já te disse que não, e aliás, tu és uma sacerdotisa, devias saber que as vitimas de possessão raramente se lembram de alguma coisa. - atiro-lhe um bocadinho irritado com a desconfiança.
Respirando fundo, Orfeu inicia o seu relato.
- ... E foi basicamente isto que aconteceu.
- Sim, muito resumidamente. - Diz Melissa sorrindo.
- Hm, então a Lilian foi-se embora, a minha espada está partida e esta tatuagem é na realidade uma armadura? Bonito, bonito... E a Lara, onde está?
- A Lara foi-se embora. - Diz Melissa bebendo o seu sumo.
- Como assim, foi-se embora?
- Ela não se despediu de ti? - Pergunta Orfeu.
- Não, não me disse nada.
- Esquisito...
- Ela disse para onde ia?
- Não, simplesmente disse que ia embora e hoje de manhã o seu quarto já estava vago.
Acabo de beber o meu leite quando a Ela se senta mesmo à minha frente, os seus olhos estavam vermelhos, provavelmente de ter estado a chorar durante a noite, tal como eu. O seu cumprimento é quente e um sorriso tímido forma-se nos seus lábios, no seu dedo anelar encontro as alianças que lhe atirei, ao vê-las o meu coração dispara e coro involuntariamente.
- Dormiste bem? - Pergunta ela lendo a resposta nos meus olhos.
- Na medida do possível... E tu?
- Também... Ouve, será que podemos falar um pouco melhor sobre a conversa de ontem?
- Não há mais nada para falar, está tudo dito.
- Está bem. - diz ela visivelmente entristecida.
Um silêncio profundo instala-se na nossa mesa, por fim, Melissa diz qualquer coisa.
- Cav, eu e o Orfeu decidimos partir, vamos para Luthein, existe lá um templo e quem sabe talvez precisem dos serviços de uma sacerdotisa e das histórias de um bardo.
Tendo em conta o estado das coisas, esta declaração não me surpreendeu.
- Eu compreendo, espero sinceramente que consigam arranjar alguma coisa por lá. Quando partem?
- Daqui a uma hora. Bom, agora vamos preparar as nossas coisas, até já!
E sem dizerem mais nada levantam-se e seguem para o quarto.
- Bom, parece que ficámos só nós os dois, como antigamente. - diz Eleanora piscando-me o olho.
- Eu também tomei uma decisão, Ela, vou partir, procurar aventuras por esse mundo fora.
- Eu posso ir contigo, éramos e podemos voltar a ser uma dupla. Ainda te lembras das nossas aventuras?
- Como me poderia esquecer, está tudo gravado na minha mente, tintim por tintim, mas tudo isso passou, tu morreste e eu tive de continuar sem ti.
- Mas estou aqui agora, à tua frente, eu amo-te Cav e eu consigo ler nos teus olhos que tu também me amas, nós...
- Por favor, Ela! Não dificultes ainda mais as coisas. Eu, ainda sinto algo por ti, mas isso vai mudar, tem de mudar. Tudo o que quero agora é recomeçar do zero, viver cada momento como se fosse a primeira vez e depois, só muito depois, se tu ainda ocupares o meu coração então eu procurar-te-ei e retomaremos de onde acabámos, até lá, deixa-me sozinho e em paz.
Levanto-me e dirijo-me para as escadas.
- Só mais uma coisa, vou acompanhá-los até saírmos do Mundo Inferior, se quiseres vir connosco não colocarei objecções, mas depois cada um seguirá o seu caminho.

Ilusões Desfeitas

A Eleanora abriu-me a porta com um grande sorriso nos lábios, seus olhos verdes miravam-me de alto a baixo brilhando com puro deleite. Ela está ainda mais magnífica do que aquilo que me lembrava, os seus cabelos cor de fogo estão apanhados com um gancho de madrepérola em forma de cisne, seus lábios bem delineados conservam ainda um pouco daquele batôn tão gostoso que tantas vezes saboreei nos nossos demorados e molhados beijos, a sua pele macia e sedosa ainda exala o seu perfume característico, o odor de orquídeas selvagens e aquela voz, aquela voz tão deliciosa que nos encanta e nos prende logo na primeira sílaba, faz-me simplesmente estremecer. O meu coração parece que vai explodir, parece que me vai saltar pela boca e por uns momentos esqueço-me do pergaminho e do que lhe venho perguntar, apenas anseio, não, desejo, beijá-la e possuí-la ali mesmo, ao pé da porta, e retomar as loucuras que fizemos num passado agora tão distante.
A elfo ajeita o seu fino robe de seda vermelha e convida-me para entrar, dois pauzinhos de incenso queimam lentamente ao pé da cama impregnando o ar com o seu odor curioso. Eleanora senta-se calmamente sobre a cama e pede para que me sente num pequeno sofá de verga, suspiro pesadamente e olho em volta admirando o seu quarto, dou por mim, por diversas vezes, a olhar por entre as abertas do seu robe, contemplando o seu corpo nú e as suas formas quase divinas, ela sorri ao apanhar-me num desses olhares mas nada faz para se cobrir um pouco melhor. Coro e decido finalmente inciar a conversa.
- Ela, eu estive a ler a carta que a Tela te pediu para me entregares e...
- ... e queres saber aquilo que ela escreveu é verdade, queres saber se a minha morte foi apenas uma encenação. - Finaliza ela.
- Sim, é isso mesmo. Caramba, mesmo depois deste tempo todo ainda consegues prever as minhas acções. - Digo sorrindo enquanto me coloco mais confortável.
Ela sorri e de seguida olha para mim com uma expressão muito séria.
- Nunca te menti, e agora não iria ser a primeira vez, por isso, é tudo verdade, eu ajudei-a e a minha morte foi apenas uma encenação.
Fico estarrecido ao ouvir aquilo, é como se um balde de água gelada tivesse acabado de ser despejado em cima de mim.
- Eu... eu não posso crer...
- Por favor, tenta entender a minha posição. - diz ela afagando a minha mão. - Eu sempre pensei que tudo iria acabar bem, que dentro de uns dias o tal Geon estaria morto e eu regressaria de novo ao mundo dos vivos. Eu apenas fiz aquilo que julguei melhor para ti.
- Durante todo este tempo... - murmuro olhando o vazio - durante todo este tempo sempre me culpei pela tua morte e afinal de contas tudo isto não passou de uma ilusão!?
- Por favor, tenta compreender, tu tinhas um espírito maléfico dentro de ti, eu própria conseguia senti-lo.
- Eu abandonei tudo por tua causa, abandonei os meus homens, a minha carreira no Senado, o meu estilo de vida...
- Cav, por favor, olha para mim e tenta entender-me, diz-me que me perdoas, que podemos começar tudo de novo.
- Perdoar-te? Perdoar-te por durante dois anos ter praticamente morrido para o mundo? Por praticamente durante dois anos ter ficado com um enorme buraco no peito? Por descobrir que afinal de contas a mulher que eu mais amava nesta vida me traiu desta forma, que me causou tanta dor e desgosto? Diz-me, Ela, haverá perdão possível?
A elfo deixa-se cair de joelhos fitando-me com os olhos marejados de lágrimas.
- Não, não há perdão possível. O que te fiz não se faz, mas por favor, tenta entender, foi para te ajudar, foi por amor.
- Por amor!? - Levanto-me irado - Por AMOR!? Pelos Deuses, Ela, como eu sofri ao ter que te enterrar, como eu sofri ao entrar na nossa casa, no nosso quarto e sentir o teu cheiro em cada divisão, em cada peça de roupa. Como podes ousar dizer que o que fizeste foi por amor, COMO?
Ela fita-me em silêncio sem saber o que responder.
- Tudo na minha vida foi uma ilusão, até tu, aquela que eu considerava uma âncora, um porto de abrigo, não passaste de uma ilusão!
- Não, não...
- Pois bem, tudo termina hoje! Se foi para me torturar desta forma que regressaste mais valia teres continuado morta, "meu amor"! - Dirijo-me para a porta em passadas grandes e furiosas.
- Espera, por favor... - a sua voz é tão frágil que mal se pode ouvir.
- Está tudo acabado, Eleanora, tudo! Toma, já não quero mais estas porcarias, já não significam nada. - Com os olhos cravejados de lágrimas atiro-lhe as duas alianças que mantive sempre com tanto carinho no meu dedo anelar.
Fecho a porta com um estrondo e corro para o meu quarto sem saber o que fazer. Diz o ditado que a noite é boa conselheira, pois bem, esperarei pelo seu conselho, mas tudo o que mais anseio agora é chorar, chorar por ter sido um enorme idiota e ter sofrido tanto por alguém que não merecia.

domingo, setembro 10, 2006

Revelações

Acordo num pequeno quarto parcamente mobilado, em cima de uma mesa está o velho pergaminho, ainda por abrir, que Tela pediu a Ela para me entregar. Sorrio pensando na alegria que tive ao ver a elfo uma vez mais, parecia um sonho encontrar de novo aqueles olhos verdes tão expressivos e inteligentes, sentir outra vez o perfume doce da sua pele e ouvir aquela inesquecível voz que só de me lembrar causa um nó no meu coração. Por estar fraco e debilitado, não percebi muito bem como é que ela regressou, ou o que teve Tela haver com tudo isto, apenas outra imagem assombra o meu espírito, os olhos de Lara, tristes e distantes.
Afasto o seu rosto da minha mente e levanto-me da cama, lá fora a tempestade continua a mostrar a sua força, e pelo que me parece, não se vai dissipar tão cedo. O som dos trovões e o flash dos relâmpagos são tão fortes e intensos que uma pessoa parece que vai ficar surda e cega ao mesmo tempo, a chuva, essa, cai sem piedade, com uma força e violência tal que os telhados mais fracos e os tecidos mais frágeis se desfazem ante a sua fúria. Abro a torneira da banheira e indiferente a este lamento da Natureza preparo um banho quente e relaxante. Antes de o saborear olho-me ao espelho, para satisfazer muito certamente aquele lado narcisista que existe em todos nós, o que vejo deixa-me espantado: no meu peito encontra-se uma tatuagem negra com a forma de um dragão e logo por baixo dela a cicatriz recente de uma ferida de flecha. Mal posso acreditar, mas verdade seja dita, não me lembro de nada, lembro-me apenas de ver Lilian a cair inconsciente sobre a areia escaldante do deserto e depois a ser ajudado pela minha amada Eleanora sob o atento olhar de Lara. Instigado pela curiosidade fecho a torneira e marcho para o quarto na esperança que aquele pergaminho me dê as respostas.
O pergaminho é velho, o seu papel está amarelado e em algumas partes parece ter sido queimado, o seu selo é bem peculiar, impresso na cera vermelha está um brasão de armas em forma de dragão segurando com a boca a letra T e com a cauda a letra L. Assim que lhe toco com o propósito de o quebrar uma faísca vermelha é libertada e como por magia o pergaminho abre-se sozinho e umas letras igualmente vermelhas aparecem vindas do nada. Eis o seu conteúdo:

Bravo guerreiro,

Se estás a ler esta carta é porque o meu tempo de vida no teu mundo esgotou-se e a minha triste missão chegou finalmente ao fim. Quero primeiro que tudo pedir-te perdão pelo que te fiz e pela mágoa e dor que te causei, mas quero também que saibas, que se fiz o que fiz foi em nome de um Bem maior.
Chamo-me Tela Leon e pertenço a uma raça muito antiga e poderosa cujo nome perdeu-se nas areias do tempo. Sou aquilo a que podes chamar de Vigilante, a minha missão é vigiar e eliminar possíveis ameaças ao bem estar dos habitantes de Gaia, tanto mortais como imortais.
Infelizmente para ti os nossos caminhos cruzaram-se, e não, não foi em Kin que nos encontrámos pela primeira vez, embora essa tenha sido a primeira vez que me viste sob a forma humana. Tenho acompanhado os teus passos desde o teu nascimento, desde o momento em que abriste os olhos e contemplaste com profunda curiosidade o novo mundo que agora se deparava diante de ti.
Imagino-te a perguntar o porquê de seres alvo da minha atenção, a resposta, meu caro, é simples, não era a ti que eu observava mas sim uma outra entidade que se escondeu dentro do teu corpo para fugir ao julgamento que o esperava. O seu nome era Geon, o meu grande amor, e foi precisamente graças à minha fraqueza que o deixei escapar e esconder-se dentro de uma criatura inferior, tu! Ai, como fui tola, como pensei que dando-lhe esta oportunidade ele redimir-se-ia de todos os males que fez, mas tudo o que fiz foi torná-lo mais forte e o seu espírito mais perverso e maléfico.
Fui julgada pelo que fiz e como castigo fui forçada a caçar e destruir aquele que eu amava mais que a própria vida. A única maneira de o eliminar e cumprir a minha missão era enfraquecer o teu espírito de forma a que Geon tomasse o controlo. Uma tarefa dura, pois provaste quase sempre ser senhor de uma vontade inabalável e de uma força espiritual bastante forte. Finalmente consegui-o a 2 de Júlio de 2004DR, mas precisei da ajuda da tua amada Eleanora que na noite anterior concordou em auxiliar-me.


Leio e releio vezes sem conta esta última parte, mal posso acreditar, a Ela nunca faria uma coisa destas, simplesmente não o faria. Inspiro profundamente e continuo a ler o que resta da mensagem.

A sua "morte" possibilitou a libertação de Geon, mas não da maneira que eu esperava, o seu controlo era apenas parcial, no fundo eras tu que continuavas a controlar grande parte das acções, mesmo as mais desagradáveis, o teu objectivo era descer aos Infernos e libertar a tua amada, como tantos anos antes fizera Orfeu. Ela estava sob a minha influência e apesar de todos os meus esforços Geon não se libertou e tu recuperaste o total controlo das tuas capacidades, embora o meu amor começasse a ganhar forças.
Decidi apresentar-me e oferecer-me a ti na pequena cidade de Kin, precisava de descobrir o estado de Geon, se estava ou não preparado para se libertar, vi que sim e uma vez mais usei uma outra amiga tua, a Meg, para desferir um novo golpe no teu espírito. O teu controlo ia caindo dia após dia, Geon ganhava força e a minha missão iria estar finalmente completa. Guiei-te até à pequena cabana de Lilian, um anjo orgulhoso que perdera as suas asas de uma maneira traumatizante, outra coisa de que não me orgulho de ter feito... Deixei que ambos se apaixonassem um pelo outro e na altura certa, usei-a como instrumento para libertar o meu amado.
Finalmente obtive sucesso e Geon libertou-se apoderando-se completamente do teu corpo.

Preparo-me agora para o combate final, pressinto que vai ser uma luta difícil pois cometi um erro ao esconder Geon dentro de ti, o teu sangue é antigo e poderoso e este meu descuido pode custar-me a vida e selar o destino de Gaia. Mais não digo a teu respeito, em boa hora o saberás...

Pela última vez te peço perdão.

Cordialmente,
Tela Leon


O som dos trovões havia parado e a chuva e vento pareciam agora mais calmos, infelizmente dentro de mim um turbilhão de sentimentos assolava-me causando mais estragos do que a violenta tempestade que ainda há poucas horas se abatia sobre a cidade. Levanto-me e rasgo aquele infame pergaminho, recuso-me a acreditar nele, especialmente na parte em que se refere à morte da Ela. Visto um robe e saio pela porta procurando pelo quarto da elfo em busca de explicações.

sábado, setembro 09, 2006

Instantes Finais

O Cavaleiro encara a nova adversária com um olhar de puro espanto esquecendo-se por completo de Lilian que jaz à sua frente ainda inconsciente. Tela, aproveitando o impacto que provocou no espírito dele, avança temerariamente na sua direcção, completamente encharcada, devido à chuva que cai incessantemente lá fora, o seu aspecto em nada se assemelha a uma criatura deste mundo, o seu rosto outrora terno enfeitado com deliciosas sardas, encontra-se agora desfigurado pela pintura que se desfaz em contacto com as gotas de água, seus cabelos negros encaracolados, anteriormente bem arranjados, caiem agora pesadamente sobre os seus ombros e sobre o seu rosto e seus olhos castanhos, tão belos e puros que pareciam pulsar de vida, são agora frios e carregados de dor e ódio. Atrás dela entra uma segunda personagem que se mantém silenciosa e é praticamente ignorada por todos, excepto por Lara.
- Tudo termina hoje, meu caro! - diz Tela secamente - Garanto-te que desta vez acabarei contigo!
O Cavaleiro recompõe-se e sorri encantadoramente.
- Duvido, meu amor, da última vez não foste capaz, o que te leva a pensar que irás conseguir agora? Aceita o facto que ainda me amas! - ele cala-se fazendo uma pausa estratégica para observar a reacção da sua rival, esta estremece involuntariamente dando a conhecer que o golpe fora certeiro. - Ah, o amor, que sentimento chato esse. Sofremos tanto em nome dele, cometemos loucuras em nome dele e perdoamos tudo em nome dele. E o pior de tudo, é que por vezes a distância e a ausência ainda o tornam mais forte. Somos de facto criaturas patéticas...
Tela pára, esquecendo-se momentaneamente do que viera fazer e rende-se àquela voz tão cativante.
- Junta-te a mim, meu amor, juntos poderemos conquistar o Universo, reinar para sempre como amantes que nunca deixámos de ser e tomar o lugar que é nosso por direito, o Trono Celestial!
Ele aproxima-se dela tocando-lhe no rosto e afagando os seus cabelos, ante este toque quente e suave, sentindo o seu perfume, ela simplesmente fecha os olhos e sorri docemente como fez tantas vezes ao seu lado. Os seus lábios tocam-se trocando um beijo carregado de paixão e ternura, libertando toda a saudade genuína que os seus corações mantinham cativa. Mas desta vez é diferente, e Tela sabe-o, no meio do beijo uma pequena lágrima de dor escapa-se traindo-a e trazendo de volta as razões que a levaram até ele.
- Pára! - diz ela quebrando a magia daquele beijo. - Por favor, pára! Só os Deuses sabem o quanto eu te amo, fomos feitos um para o outro e mesmo nesta hora tão amarga para mim eu não consigo deixar de sentir outra coisa senão amor. Mas tu tens de pagar pelos teus crimes e por um cruel destino, serei eu que terei de os expiar. Eu lamento imenso, mas tenho que cumprir a minha missão! - O seu rosto estava transfigurado pela dor, as lágrimas corriam como uma cascata pela sua face ante a ironia deste destino tão cruel.
- Eu também lamento - diz ele limpando-lhe em vão as lágrimas. -, acabemos então com isto.

O combate travado por estas duas personagens é intenso, durante algumas horas nenhum dos dois parecia ter ganho vantagem, a sua destreza e habilidade na magia era inigualável, nem mesmo alguns dos mais poderosos e lendários feiticeiros do mundo conseguiria aguentar-se por tanto tempo lançando magias tão poderosas que abalavam as fundações do prédio e até da própria cidade. Um espectacular e alucinante efeito de cores, fumos e sons é expelido por toda a cidade até que por fim, tudo acaba tão depressa como começou. Tela, está de joelhos ofegante e o seu rival, embora exausto, sorri mostrando a sua superioridade.
- Meu amor, eu disse-te que n irias conseguir, mas de uma coisa eu estou realmente espantado, não te contiveste, desta vez quiseste mesmo acabar comigo.
- Eu... disse-te... isso... - diz Tela arfando e limpando as pesadas gotas de suor que lhe cobriam o rosto.
- Tenho muita pena, sinceramente, mas vou acabar contigo.
O Cavaleiro avança para ela soltando as garras dos seus punhos.
- Espera... antes de me matares, eu quero saber como é que aumentaste e dominaste tão rapidamente este poder.
- Foi a minha armadura, uma maravilha, feita de escamas de dragão, os verdadeiros mestres de magia.
- Como eu suspeitava. - Tela fixa o seu olhar no dele e sorri. - Ela, faz o que tens a fazer.
A figura silenciosa obedece imediatamente e colocando uma flecha no seu arco, aponta-a directamente ao peito do Cavaleiro.
- Uma flecha? Tela, sinceramente esperava mais de ti! As armaduras de dragão são as mais poderosas do mundo, nada as afecta, nada! - diz ele sorrindo.
- Errado! - diz Tela tão confiante que espalha a dúvida no seu adversário. - Existe algo que afecta uma armadura de dragão, uma flecha criada a partir de um dente deles.
A flecha parte imediatamente, certeira em direcção ao peito do Cavaleiro. Este mal tem tempo de reagir, apenas de ouvir o som da sua armadura quebrar-se e de sentir a sua ponta penetrar a sua carne. Sem ter plena consciência do que aconteceu ele recua uns passos e leva a mão à ferida que acabara de sofrer. As suas pernas ficam bambas e sem se poder aguentar por mais tempo em pé cai no chão sentindo o sangue quente escorrendo pelo seu corpo.
Satine que assistia a tudo deleitada, solta um grito de dor e corre na direcção do seu adorado amante, suas mãos nervosas arrancam a flecha do seu peito libertando ainda mais o fluxo da hemorragia.
- Cabra! - grita ela chorando copiosamente. - Vais pagar!
E sem pensar duas vezes atira-se a Tela com o intuito de acabar com a sua vida. Uma outra seta é disparada e crava-se no pescoço da vampira detendo o seu avanço e cortando-lhe a voz.
- Tenho pena de ti, criatura das trevas, pois tal como eu, és prisioneira do amor. - diz Tela levantando a mão e conjurando um feitiço. - Espero que encontres a paz no local para onde te vou mandar.
Uma luz azul é libertada da sua mão cobrindo por completo a vampira. O seu corpo contorce-se convulsivamente e depois desaparece deixando no seu lugar cinzas, a flecha e um pequeno anel.

Tela levanta-se e aproxima-se do corpo de Cavaleiro que ainda respira mas com dificuldade.
- Agora nós, meu amor. - diz ela beijando carinhosamente a fronte dele.
Colocando a mão por cima do peito dele, Tela invoca mais uma vez o seu poder, dos seus dedos uma luz lilás é expelida e cobre por completo tanto o seu corpo como o do Cavaleiro. Ele estremece e um vulto negro levita no ar olhando em volta tristemente.
- Aqui estás tu, meu amor. - diz Tela com amargura. - Como te prometi, irei cumprir a minha missão até ao fim.
Os seus lábios movem-se mas nenhuma palavra é expelida.
- Lilian - diz esta mulher poderosa virando-se para o anjo já desperto e assistindo a tudo isto fascinado. -, vou precisar da tua ajuda. Lembras-te do que te disse sobre as tuas asas? Pois bem, chegou a altura de o provares, o teu amado está neste momento entre a vida e a morte e não há feitiço no mundo capaz de o retirar do limbo, apenas tu o poderás salvar, mas para isso terás que abdicar da tua condição de anjo para o trazer de volta.
Lilian olha para ela receosa, desde que a deixara que temia aquela escolha.
- Eu... Eu não sei... - diz a anjo hesitante.
- O tempo urge, Lilian, tens que te decidir, vais abdicar ou não!
- Mas isto é tudo tão repentino, as minhas asas voltaram e agora tenho que as perder de novo?
- Sim ou não! - repete impacientemente Tela.
- NÂO! - responde Lilian nervosamente e libertando lágrimas de dor. - Não, não e não, eu amo-o, mas não sou capaz de me separar das minhas asas de novo, simplesmente não consigo.
E dizendo isto sai do salão e afasta-se daquela estalagem voando para parte incerta.
- E agora? - Pergunta Lara.
- Agora, querida demónio, o Cavaleiro está perdido.
- Mas não há nada que possamos fazer? - Pergunta Eleanora.
- Não, o anjo era a única opção, sem ele, o vosso amigo está perdido. Para o trazer de volta é preciso uma força bem poderosa.
- E eu? - Pergunta Lara aproximando-se e ajoelhando-se junto do Cavaleiro.
- Como assim?
- Eu e o Cav estamos ligados através de magia, eu sou a escrava dele e ele é o meu senhor, não poderá ser essa uma opção?
- Talvez... Não tinha pensado nisso, essas magias são bem poderosas e são capazes de unir duas pessoas para o resto da vida. - diz Tela pensativamente. - Estarás disposta a cortar o teu elo com ele? É a única forma...
A demónio estremece ao ouvir isto e fixa o seu olhar no rosto quase puro do seu amante.
- Sim...

Usando a ligação que une os dois, Tela consegue puxar de volta o espírito perdido do Cavaleiro. A magia que liga a demónio ao seu amante desfaz-se imediatamente e uma sensação estranha invade o corpo de Lara. É livre finalmente e deveria estar contente, mas então porque razão sente um profundo pesar e mágoa? Porque se sente como se um buraco acabara de se abrir no peito? Estas e outras perguntas e sensações são rapidamente afastadas quando o seu companheiro volta a respirar livremente e a sua ferida fecha-se como por magia.
- O meu trabalho está concluído. - diz Tela. - Ela, entrega isto ao Cavaleiro. Agora tenho de partir.
A elfo recebe um pergaminho muito velho e observa o desenlace do triste destino da sua amiga. Envolta ainda numa luz lilás, Tela termina a sua magia, o espírito do seu amor dissolve-se por completo libertando um medonho grito. Deixando cair a cabeça e abrindo as portas do seu coração, a feiticeira deixa-se consumir pela sua própria magia.
- Triste destino, o meu... - Diz ela antes de se suicidar.

quinta-feira, setembro 07, 2006

O Prenúncio do Fim

O homem caminha calmamente para o centro da sala detendo-se logo a seguir junto do corpo inanimado de Lilian, pouco se pode ver do seu rosto à excepção de um brilho sinistro no seu olhar. Atrás dele, uma segunda figura aparece vinda do nada, uma bela mulher com uma rude cicatriz, ainda recente, no rosto. A sala permance no mais profundo silêncio, assistindo com um misto de interesse e medo a estas duas novas personagens. O Cavaleiro agacha-se descobrindo o seu rosto e fitando o anjo inconsciente com um ligeiro sorriso nos lábios, seus dedos desapertam os botões da camisa de linho da doce Lilian, expondo à vista de todos os seus seios e a pérfida cicatriz que ele próprio criou.
- Pára de lhe tocar! - grita Melissa que não mais podia conter o seu ódio por tal pessoa. - Tira essas tuas patas sujas de cima dela, seu nojento!
Os olhos dele fixam-se na direcção da voz, são frios e calculistas, desprovidos de qualquer sentimento.
- Ora, ora, se não é a sacerdotisa de Juno. - diz ele afectando um sorriso. - Descansa, minha cara, eu já vou tratar de ti, deixa-me apenas enviar esta mulher para o local de onde nunca deveria ter saído.
Dizendo isto, a espada que se mantinha imóvel a pairar no ar, estremece e move-se lentamente.
- Serás assim tão cobarde, Cav? Matar uma criatura inconsciente é desprezível, até mesmo para um demónio. - diz Lara.
- Os fins justificam os meios, minha querida. - diz ele forçando a espada a colocar-se numa posição capaz de desferir um golpe mortal.
- E vocês idiotas que estão a ver, vão deixá-lo matar o anjo? Não terão vocês a primazia de lhe tirar a vida? Irão deixar que este reles humano vos retire esse prazer? - continua a demónio incitando os seus irmãos de raça.
O silêncio é quebrado e mais uma vez um burburinho inquietante faz-se ouvir, os demónios fixam os seus olhares irados no Cavaleiro e na sua concubina.
- Ela tem razão! Afasta-te humano, a anja é nossa! - grita um deles.
Todos os outros emitem gritos de apoio e sacam das suas armas para mostrar que os seus intentos são sérios. O Cavaleiro olha para cada um deles e ergue-se sem mostrar receio, calmamente despe o seu manto e revela a sua armadura esverdeada que o cobre por inteiro.
- Se a querem - diz ele calmamente e com um ligeiro sorriso nos lábios. -, venham então buscá-la!
O salão enche-se de gritos de guerra e desta vez todos se lançam contra o seu inimigo. Melissa, Lara e Orfeu vendo-se livres dos seus carcereiros temporários apressam-se a puxar Lilian para si enquanto todos se concentram naquele humano insolente. Assim q o anjo é posto a salvo a demónio vira-se para observar o combate, o seu coração bate forte ao ver o seu antigo amante defrontando com uma calma inexplicável aquela turba louca e furiosa que se atira para cima dele como ondas num mar tempestuoso. Os seus punhos cerram-se involuntariamente ante o desejo de o ajudar, de lutar sem medo ao seu lado e sentir, nem que por um segundo, a sua respiração ofegante, o toque da sua pele e a sua voz decidida bramindo ordens e inquirindo indirectamente se estava bem. Mas tudo isso é agora apenas uma memória vã, uma lembrança longinqua que pode ser remetida até àquele infame dia no deserto.

Subitamente tudo termina tão rápido como começou, o vencedor ergue-se no meio daquela pilha de cadáveres que se amontoa no enorme salão da famosa estalagem. O Cavaleiro, coberto de sangue e de cinzas demoníacas, mantém a sua calma recolhendo as garras que lhe apareceram como por magia dos punhos, os seus olhos frios perscrutam primeiro pela sua concubina, achando-a num canto deleitando-se com o sangue de um demónio ainda vivo, a seguir procuram incessantemente por Lilian, encontrando-a no outro lado da sala protegida pelos seus companheiros. Ele sorri maldosamente e caminha na sua direcção preparado para acabar o serviço.
- Não te vou deixar matar a anjo! - grita Lara atirando-se a ele.
Um acto inútil, pois assim como afastamos com apenas um gesto uma mosca, assim fez ele com a demónio, atirando-a para cima das escadas e abrindo de novo a ferida no seu ombro. Melissa e Orfeu tentam igualmente detê-lo, mas com igual sorte. Lilian acha-se assim desprotegida e o nosso Cavaleiro, lambendo os lábios com uma satisfação tremenda, prepara-se para desferir o golpe final.
- Ainda não! - grita uma voz conhecida. - Primeiro terás de nos enfrentar!
Arrepiado, ele vira-se na direcção da voz.
- Tu! - diz ele num tom quase inumano. - Não pode ser, tu estás morta!
- Tu também deverias estar - diz Tela aproximando-se. -, talvez tenha sido por isso que eu tenha voltado a este Mundo, para acabar contigo de uma vez por todas!